há uns anos, perguntava um entrevistador a António Damásio, seguindo o raciocínio do neurologista, "então pode dizer-se que estamos programados para a felicidade?". Damásio respondeu com a ponderação cautelosa de um cientista, "eu não usaria a palavra felicidade, que não é propriamente um conceito que eu use, em termos científicos; mas diria que estamos predispostos para uma forma concreta e verificável de bem-estar". num apontamento biográfico sobre Gautama, o Buda fundador do Budismo, li que ele trouxe algo de novo ao seu tempo. na altura a tradição bramâne, entre outras, acreditava que a forma de a mente/alma/espírito se libertar era libertando-se do corpo. o corpo era visto como um empecilho, um peso a amarrar-nos ao chão, a impedir-nos de atingir a elevação espiritual. assim, eram comuns práticas de mortificação do corpo. jejuns prolongados, que poderiam durar toda a vida, vários tipos de privação física, incluindo até mutilações, eram meios que se usavam para a libertação dessa âncora obstinada chamada corpo, que precisava de ser vencida, para que o espírito pudesse chegar a alto mar, ou a uma almejada ilha-nirvana. com o budismo, veio a noção de que o bem-estar físico é algo de essencial; mais: que as práticas que levam à emancipação em relação ao sofrimento, à equanimidade da mente, ao equilíbrio espiritual e à conquista de lucidez e sabedoria, são também práticas que promovem e asseguram o bem-estar físico.
o efeito das endorfinas, da oxitocina, as mudanças que ocorrem no corpo quando rimos, a forma natural com que procuramos o calor, o conforto, a tranquilidade, tornam fácil de acreditar que estamos mesmo predispostos para o bem-estar. o que não é o mesmo que falar do apelo do prazer físico. comer muito, coisas muito calóricas, beber muito, ficar embriagado, entre outras actividades, pode levar ao prazer, mas também pode causar o contrário do bem-estar: a dor, a náusea, a falta de lucidez e equilíbrio. como o bem-estar físico é proporcionado por substâncias como as endorfinas, é fácil preferir o prazer intenso ao bem-estar sereno. é como se parecesse pouco ambicioso sentir um pouco do efeito das endorfinas, quando se pode sentir muito o seu efeito. como se sentir o calor do sol na pele fosse muito inferior a sentir um orgasmo. há ainda a dizer que na busca do prazer, nem sempre se procura sensações que poderíamos considerar como bem-estar muito intenso, ou a amplificação do bem-estar. por vezes o que se procura é simplesmente sensações fortes. o medo e a dor, a confusão e a desorientação, são também emoções que procuramos, com regularidade. muito longe da noção "aborrecida" de bem-estar, procuramos emoções fortes, que nos sobre-estimulem. talvez, como acontece com as drogas, a partir de determinada altura a intensidade do estímulo tenha de subir, para que as sensações continuem a ser suficientemente satisfatórias. talvez haja outras razões mais importantes. o que me parece essencial é a noção, difícil de aceitar, de que devemos aprender o que desejar, que nem sempre temos a intuição, ou os sentidos, afinados para detectar "o que é bom para nós".
às vezes sinto que somos demasiado condescendentes e apologéticos em relação a nós próprios. quando somos crianças, parece natural que sejam os pais a ensinar à criança o que comer, quanto comer, como comer, como comportar-se, o que é saudável, o que é desejável e o que não é. mas em adultos, como passamos a ser responsáveis por nós mesmos e já não são os pais a orientar e educar-nos, fica um vazio. não porque necessitássemos de alguém que continuasse a ensinar-nos como viver, mas porque parece que deixa de fazer sentido ou ter utilidade educarmo-nos ou aprendermos. é óbvio que uma criança tem (quase) tudo a aprender, que os pais têm um papel fundamental ao fornecer aos filhos ferramentas e conhecimentos, orientações e todo o tipo de ajuda para estes se desenvolverem de forma saudável e vigorosa. mas não é nada óbvio (para mim) que um adulto já não precise de aprender, de se desenvolver. nem acredito que haja algum momento da vida em que se possa dizer, "pronto, cheguei, já não há nada de muito importante a aprender." é curioso verificar como nos desembaraçamos de muito (im)pertinentes perguntas de crianças sobre o comportamento dos adultos, "mãe, porque é que o tio fuma?, disseste que fumar é muito perigoso, que faz mal à saúde e se pode morrer mais cedo e sofrer muito"; "porque é que aquele senhor está a gritar e a dizer asneiras? ele não sabe que não se deve falar assim com as pessoas?". eu lembro-me muito bem de ouvir respostas em criança como, "nuno, os adultos às vezes também fazem asneiras". para mim era um conceito revolucionário, a ideia de que os adultos faziam tudo aquilo que a mim não me era permitido, que eles faziam e repetiam tudo o que eu aprendi que era errado. eu acreditara, até aí, que a diferença entre mim e os adultos era que eles estavam sempre certos e eu fazia muitas asneiras. era tão difícil corresponder às exigências dos adultos, como se eu estivesse num plano inferior, dependendo de recriminações e vigilância a todo o momento. havia um temor em relação à autoridade dos adultos, que me impedia de fazer coisas que eles me tinham avisado para não fazer. depois, na adolescência, passei a ver o chegar da vida adulta precisamente como uma procuração, um reconhecer público da minha autoridade em causa própria, da absoluta autonomia da minha vontade, da minha irrevogável liberdade de fazer o que bem me apetecia, incluindo o que os outros poderiam considerar errado e mau.
vejo a educação que os pais dão a um filho como orientações gerais, mas muito concretas, sobre o que é mais saudável e desejável. é como se lhe abrissem caminhos que são, segundo o entendimento dos pais sempre limitado pelo seu contexto cultural e circunstancial, os mais seguros, os melhores. a educação é muitas vezes chamada de preparação, de preparação para a vida adulta. talvez devêssemos reflectir melhor sobre o conceito preparação. e ser menos adolescentes na maneira como encaramos a vida adulta, essa entrada nas delícias da liberdade pessoal. dizemos muitas vezes coisas como "ele já tem idade para ter juízo" para recriminar uma decisão ou um acto alheios, ou a insistência de alguém em "não entrar nos eixos", mas também para nos demitirmos de interferir ou desenvolvermos algum tipo de opinião mais controversa. é como se disséssemos "ele é que sabe". ora eu defendo que cada um de nós, a maior parte das vezes, "não sabe". o facto de estarmos, ao que parece e o Damásio sugere, predispostos para o bem-estar, o conforto físico, o equilíbrio, é um bom sinal de que, mesmo sem termos alguma figura parental, algum tipo de autoridade que nos condicione e oriente, é possível chegarmos lá mais ou menos sozinhos. digo mais ou menos porque me parece um desperdício ignorar o que outros descobriram ou a contribuição das pessoas que nos rodeiam. digo sozinhos porque ninguém vai fazer o trabalho por nós, as nossas decisões são sempre nossas, nosso fardo, nossa responsabilidade, são sempre a nossa liberdade, concretizando-se.