sábado, 31 de Julho de 2010
moças bonitas, atletas e artistas, sorridentes frutos de verão, mulheres de sumo e vitalidade, asas de fogo sobre a espuma das marés, eis-me emagrecendo, enrijecendo, recuperando nas feições do rosto o que perco em lastro e sedentarismo. eu, que sou bicho mordaz e prevenido, no vosso lugar avançava já, antes que as carnes rijas e o sorriso tratado pelo dentista e a pele bronzeada me façam subir a cotação e causem euforia e concorrência insuportáveis. venham já, confiantes do potencial deste corpo que poderá ser vosso brinquedo e abrigo, venham, princesas, antes que eu caiba irremediavelmente na armadura de músculo que se vai formando. venham, princesas; guerreiras são ainda mais bem vindas, moças de força que não tenham repugnância ao suor e ao esforço. venham com bicicleta ou patins, que não tenho cavalo branco ou de outra cor, mas conheço troços patináveis, por estrear, em lugares de sonho, e belos trilhos por entre árvores frondosas, bem frequentados por outros bicicleteiros mais experientes. venham, guerreiras, descansar das guerras do quotidiano, num mergulho no mar ou num banho de cascata, que eu vos levarei aos melhores locais para nos lavarmos do pó do mundo. venham, atletas da vida, deliciosas poetas do suor, moças vigorosamente curiosas, venham. não tardará muito até que eu deixe de pedir, venham.
* título de uma canção do b fachada
quinta-feira, 29 de Julho de 2010
cultura futebolística - a dialéctica da vitimização
o futebol é um jogo (e uma cultura) de paradoxos. talvez por isso mesmo, seja um desporto tão popular em todo o mundo. havendo pouco espaço para lógica, há imenso espaço para as emoções. desde logo esse paradoxo de a pior equipa em campo poder ganhar o jogo. basta que a bola ultrapasse a linha de baliza do adversário uma vez e ganha-se, não importa se fomos nós a rematar, pode até ser o guarda-redes adversário que deixa escapar a bola. podemos sofrer o jogo todo, ser dominados tacticamente, ter uma posse de bola ínfima, o nosso guarda-redes pode defender 20 remates, podem outros 10 bater na barra e nos postes. e, no último segundo, a bola entra na baliza dos outros e ganhamos. dificilmente existe outro desporto colectivo assim. mas isso é "a parte boa", para ser meigo e eufemístico.
outro aspecto paradoxal, para mim um dos principais, é a dissonância cognitiva, o falso valor de uso e a imensa mariquice em geral, associada a todas as expressões em que se menciona a palavra virilidade. nunca conheci outro desporto em que o número de vezes em que é mencionada a palavra virilidade fosse tão inversamente proporcional ao número de vezes em que a virilidade acontece de facto. é um desporto de mariquinhas, que se queixam de dores insuportáveis e falsas, simulando lesões, um desporto de mariquinhas, em que os adeptos urram, sempre que um dos jogadores da sua equipa sofre uma carga de ombro mais vigorosa, ou cai, ou perde no confronto físico. mesmo sem que haja qualquer sombra ou suspeição de falta, urram desalmadamente, o que me intriga. é que em desportos de combate, por exemplo, quando o lutador por que torcemos apanha uma cacetada nos queixos mais violenta, nós puxamos por ele, para que riposte, ou calamo-nos respeitosamente envergonhados porque o nosso tipo foi inferior, ou comentamos para o lado, "ui, aquela foi bem dada". quando o jogador da nossa equipa de hóquei no gelo leva um daqueles encostos contra a tabela e fica quase ko, gritamos, faz-lhe o mesmo. noutros desportos, quando o adversário faz algo de brilhante, pode até ser aplaudido. no futebol, não há nada disso, é a antítese da virilidade e da exaltação da testosterona, gritamos "gatuno, falta, foda-se, pega no apito", urramos contra o árbitro que permitiu (mesmo quando não há falta nenhuma para apitar) que o nosso menino, coitado, sofresse nas mãos do bully da outra equipa.
ainda dentro desta anti-virilidade e do proteccionismo obsessivo em relação à hipersensibilidade mariquinhas dos jogadores há um outro aspecto que se me afigura incompreensível. se um jogador tem um olhar, um gesto, uma palavra de agressividade e desafio para com um adversário, leva cartão. isso é uma das coisas mais maricas que o futebol tem. no basket, por exemplo, há mesmo a cultura do trash-talking. um dos mestres na intimidação era o Dikembe Mutombo, um jogador atlético e rápido para os seus 2,18 metros, que jogava a poste e foi um dos melhores defesas do seu tempo. era especialista em "abafanços", o gesto de dar uma palmada na bola, no momento do adversário lançar, bloqueando o lance e impedindo a concretização. os seus abafanços tornaram-se uma imagem de marca, com slogan e tudo. quando fazia mais um abafanço, ele abanava o indicador e a cabeça, e dizia "not in my house". lembro-me de o ver a abafar um afundanço. quem percebe um pouco de basket, sabe que isso geralmente, além de espectacular, é perigoso. ao abafar um afundanço, o jogador que ia afundar bate com a bola na mão ou braço do adversário, a força toda que fazia, todo o impulso embate naquela mão ou braço. o que acontece é que a bola e o braço do afundador param, mas o seu corpo continua para a frente. visualizem isto, o braço e a mão que carregam a bola embatem na mão e braço do adversário e o corpo, por baixo, continua o movimento. geralmente o quase-afundador cai, de costas, arriscando-se a magoar-se. vi, como dizia, o Mutombo a fazer isto a um adversário, que caiu de costas no chão com estrondo. mas o embate físico foi amplificado pela intimidação psicológica. ainda com o adversário no chão, Mutombo colocou uma perna de cada lado do corpo dele e baixou-se ameaçando-o com um dedo em riste, dizendo-lhe palavras que não se ouviram, mas que carregavam algum tipo de ameaça e pretendiam amedrontar o adversário e fazê-lo pensar duas vezes sempre que se preparasse para invadir a "house" do Mutombo. ora, no futebol isto daria cartão, talvez vermelho. eu gostaria de ver esta cultura passar para o futebol. é que não se trata apenas da cultura da agressividade e da intimidação, trata-se da cultura de saber lidar com a agressividade e a intimidação. ou seja, num desporto de homens a sério, a cada gesto agressivo e intimidatório, corresponde um carácter vigoroso e corajoso que aguenta e sabe lidar com o gesto que lhe foi dirigido. e as duas coisas, a agressividade e a coragem de a enfrentar, fazem desportistas fortes psicologicamente e corajosos, homens a quem a palavra virilidade se ajusta.
esta é uma das características mais marcantes do discurso e da atitude geral de quem está no futebol: a constante, rendilhada e auto-apologética cultura de vitimização. falando dos adeptos. uma coisa que me irrita é esta noção de que os jogadores não podem provocar os adeptos, que se o fizerem, estão a incendiar os ânimos e a coisa pode gerar violência. irrita-me que não haja critério nesta ideia, que se parta do princípio de que provocar os adeptos, responder-lhes, é sempre mau e reprovável, em qualquer circunstância. um caso paradigmático é o de Emmanuel Adebayor, que comemorou um golo marcado e foi punido. aconselho a ver este pequeno vídeo do "incidente". o que poderia ter sido um momento glorioso do desporto mais popular do mundo foi transformado num caso exemplar da bizarra disciplina das autoridades futebolísticas. vejam o vídeo e julguem por vós mesmos. para mim, os jogadores têm todo o direito de responder aos adeptos. a melhor maneira de responder é claramente jogando bem. vi em directo um dos primeiros jogos de Luís Figo pelo Real de Madrid contra o Barcelona, depois da polémica transferência. quando ele ia marcar um canto, choveram todo o tipo de projécteis, incluindo uma cabeça de porco e uma garrafa de uísque. depois de largos minutos, com os jogadores a pedir aos adeptos que parassem com aquilo, o árbitro fez as equipas recolherem aos balneários. talvez um quarto de hora depois, quando já se pensava que o jogo iria ser suspendido, as equipas voltaram. Figo voltou ao canto, com a bola na mão. pousou-a e esperou que o árbitro desse a indicação. ainda com alguns objectos sendo arremessados na sua direcção, Figo marcou um canto quase perfeito, que embateu no poste. ia sendo um canto directo. e um golo marcado naquelas circunstâncias, com aquela classe, seria a melhor resposta à falta de fair-play e de civismo por parte dos adeptos. devo salientar que em nenhum momento Figo respondeu às provocações, nem sequer olhou para as bancadas. e penso que fez bem. naquele caso, algum gesto seu mais agressivo poderia ter tornado impossível continuar o jogo. mas isso, acredito, não é universal. em circunstâncias normais, há gestos de que gosto e que gostaria de ver repetidos. um dos clássicos, de que gosto mais, é o gesto de fazer calar, o indicador sobre os lábios, como quem diz "chiu". depois de um jogo inteiro a ser insultado pelos adeptos adversários, penso que é um gesto semanticamente correcto, deliciosamente provocador e absolutamente justo. e os adeptos que engulam. se eu estiver no estádio e um jogador da equipa adversária fizer isso, depois de marcar golo, engulo. é mesmo assim, não sou um mariquinhas que deva ser protegido da eloquência simbólica dos jogadores adversários.
quarta-feira, 28 de Julho de 2010
regras e disciplina
isto, pelo menos, talvez tenha conseguido entender: eu gosto de disciplina e não gosto de regras; tu gostas de regras e não gostas de disciplina. a minha forma, parcial e subjectiva, de compreender as coisas é: as regras são abstractas e, no seu maior ou menor universo contextual, universais. as regras requerem um cumprimento coerente, contínuo e verificável; a disciplina é contingente, aliada ou propiciadora de um método e tem objectivos concretos e imediatos. observa-se a disciplina para atingir determinado estádio de onde se quer estar ou para melhorar a aptidão em relação ao caminho escolhido. dia ou momento em que fujamos da disciplina não põe em causa a disciplina, apenas abandoná-la totalmente ou em grande medida. a disciplina, os elementos e meios que a constituem são um método, um molde. as regras cumprem-se porque, acredita-se, decorrem do que achamos bom ou aspiram a levar-nos a ser bons. qualquer incumprimento da regra é, por isso mesmo, mau, qualquer incumprimento grave ou continuado faz de nós maus, segundo as nossas próprias regras, passo o pleonasmo. não gosto de regras, nem tenho vontade de estabelecer limites, para ter o gozo de me sentir transgressor ou o prazer de me considerar santo. não acredito que serei santo ou pecador só porque cumpro ou não cumpro regras. e se as houvesse, claramente não seriam feitas por mim. gosto da disciplina porque me permite melhorar dentro dos meus limites e desejos. e, aqui está a essência de tudo, a disciplina que escolho foi, preferencialmente, estabelecida por alguém que não eu, mais conhecedor dos métodos mais adequadas para chegar onde decidi chegar. não observar a disciplina não faz de mim transgressor de sorriso lúbrico, feliz por quebrar o que está estabelecido. observar a disciplina não faz de mim santo ou ser perfeito, orgulhoso da observância a mandamentos auto-sentenciados.
segunda-feira, 26 de Julho de 2010
longe do pódio
num dos últimos filmes sobre surf que vi, creio ter sido Step Into Liquid, mas não tenho a certeza, havia imagens sensacionais de tow in surf em ondas gigantes. o Laird Hamilton era entrevistado. o surf era apresentado como algo de épico, que desafia os mais aptos e vigorosos e relembra, como alguém diz, a certa altura, que não é possível nunca sentir que se domina as ondas e o mar, é o mar que domina sempre e se se consegue sobreviver é porque ele permite. ainda assim, no meio de tanta espectacularidade, tanta preparação física extrema, foi um outro tipo de surfista, um outro homem, que mais me marcou. no filme, dedicado acima de tudo às formas mais extremas e perigosas de surf, era apresentado um homem que surfava todos os dias, há mais de 10 anos. era um senhor de uns 50 anos, gorducho e pouco atraente, muito diferente do perfil de um Laird Hamilton, uber-atleta de corpo tonificado e atraente, músculos de aço e técnica apurada obsessivamente em treinos inacreditavelmente duros. esse surfista, sem capacidade técnica para competir em qualquer prova nem possibilidade de ter qualquer tipo de patrocínio, vivia no Hawai e mantinha um emprego banal. surfar todos os dias tinha-se tornado uma obsessão, uma tarefa entre a bravura heróica de hércules e a infinita repetição de sísifo. a filha adolescente do homem diz no filme que, embora outras pessoas possam gozar com o pai dela, achando fútil e sem propósito a sua missão, ela tem um imenso orgulho no pai e percebe que, para ele, aquilo é mesmo muito importante. nas palavras que ele concede em entrevista, não há nenhuma tentativa de enaltecer o que ele faz, ele simplesmente diz, há 10 anos, passei um mês, dois meses, a surfar todos os dias, quando dei por mim, continuei a surfar diariamente e lembrei-me que o poderia fazer indefenidamente, todos os dias. diz ainda que tenta, todos os dias, apanhar pelo menos 2 ou 3 ondas, o que às vezes é difícil, porque o mar tem poucas ondas. falo deste homem, porque ele incarna, na sua obstinação feliz, muito do que penso sobre o desporto. o Laird Hamilton ajudou a criar o tow in surf, que permitiu surfar as maiores ondas do planeta; surfou uma onda até então impossível, a mortífera onda de teahupoo; inventou a prancha de foil-surf, que possivelmente será a forma de surfar ondas de 100 pés ou mais. embora não entre em competições, como um Kelly Slater, Hamilton é reconhecido no seu mundo, e fará parte da história dos que fizeram o surf ser o que é e rasgaram horizontes para o que o surf poderá ser no futuro. o senhor das 2, 3 ondas diárias, não terá reconhecimento de muito mais pessoas para além da sua filha; é revelador que eu não me lembre de como se chama. no entanto, para ele, como para Hamilton, o surf é central na sua vida. no caso do senhor anónimo, mais ainda, já que tudo depende dele, não havendo estímulos exteriores nem nenhum tipo de coisa a atingir fora dele. é isso que me agrada no desporto, esse ponto em que o que se faz faz sentido em si mesmo, não havendo a mínima necessidade de receber medalhas, de se atingir algo socialmente, de obter validação. esse senhor dos 10 anos de surf diário é um desportista no sentido mais nobre e essencial do termo. e são pessoas assim que admiro, profundamente.
quinta-feira, 22 de Julho de 2010
a quantidade da qualidade
numa relação amorosa, mais ainda do que a muita frequência e variedade do sexo, atrai-me a disponibilidade para o sexo. é-me imensamente agradável a ideia de o quotidiano estar impregnado de sexo. gosto muito da atitude de sexualizar os gestos, as pequenas subtilezas de comunicação. sou devoto da intimidade, da cumplicidade, do sentido de humor gerados no e para o sexo. mais do que ter relações sexuais muitas vezes, desejo uma relação que seja toda ela sexual. um beijo de bom dia que inesperadamente se alonga, invocando mãos e língua; um agarrar de ancas alheias, uma mordiscadela no pescoço, uma carícia no ombro, enquanto se cozinha; o duche partilhado; o olhar desafiador em viagem de elevador, espicaçando memórias recentes; as palavras sussurradas ao ouvido em local público, quebrando o tédio com imagens de nudez e cio; o sorriso cúmplice quando se passa por local público onde já se atingiu ou fez atingir orgasmo. na minha forma de viver, numa relação amorosa é o sexo que a torna amorosa, amável, específica e especial. é a descoberta partilhada do prazer que a distingue de uma relação familiar ou de amizade. vejo a compatibilidade como, entre outras coisas, a medida de quanto se partilha do gozo do mundo. explico: os casais mais compatíveis parecem-me, até ver, aqueles em que existem formas compatíveis, porque semelhantes ou porque complementares, de ter prazer com as coisas do mundo (e do corpo). muitas vezes, foi por conhecer @ parceir@ que se passou a ver determinado pormenor de um outro ângulo, mais amplo, com vista para a felicidade. também acontece vermos n@ companheir@ alguém que, estranha e maravilhosamente, partilha do nosso mui pessoal e raro sentido de humor. o que é do corpo é eminentemente sensitivo, tende para a sexualização, em contaminação benigna ou em redescoberta da essência. gosto (e lembro-me com saudade de quando os meus dias eram assim) de um dia partilhado dessa forma, muito atento ao que se sente e se faz sentir, muito dedicado às várias formas de prazer a dois, das mais ínfimas subtilezas às mais derradeiras intensidades, para as quais a natureza nos dotou tão generosa e graciosamente.
domingo, 11 de Julho de 2010
inversão causal em sujeito fulano de tal
e, no fundo, os meus braços ainda te acolheriam, gratos ao tempo e à improbabilidade do teu desejo. os meus lábios ainda poderiam florir na tua pele, o meu sexo incendiar-se em cascata de fogo, em árvore lunar. no fundo, nada de decisivo e irremediável fechou portas ou fez ruir pontes. ainda existo, feroz e alegre, delicadamente trapalhão, ingénuo e ferido de cio, loquaz e desejoso da boca que me silenciasse a gramática.
quinta-feira, 8 de Julho de 2010
freudianamente espantado
gosto desse número de circo habitualmente chamado de pessoas. mamíferos vestidos com roupas, exibindo quão bonitos e fofos ficam, quase humanos de tão fofos e compenetrados dos gestos que decoraram. depois, ao aproximar-me, verifico que não houve domador, propriamente humano, que lhes ensinasse a performática antropomorfia com que desfilam. têm, como eu, que observo com olhos tragicamente interiores o que me parece exterior a mim., um bicho chamado eu, que morde, enamorado do privilégio de poder lamber a ferida a seguir. diz-se que têm um louco sonhador dentro, que um censor-legislador o persegue e amputa simbolicamente, e um espelho que fala, imaginando a alegoria das cavernas em que o louco e o legislador pudessem ser felizes e inofensivos. às vezes, vejo sem roupa e sem linguagem, uma dessas pessoas de aspecto tão humano, toco-lhe o corpo, descobrindo o meu. e pouco mais importa.
delírio da hermenêutica estrita da santa inadequação
pudesse eu ser beatnick apenas intelectualmente, atingindo, se não a iluminação, pelos menos a sanidade, pelo exponencial carrossel de estímulos racionais. pudesse eu ser apenas um corpo, enquanto a mente explodisse, alegremente, de big bang em big bang psíquico, até não restar mais nada que pensar. pudesse eu ser, finalmente, animal.
adenda zizekiana
«
O «empobrecimento» psicológico do sujeito que «se rendeu ao objecto», pelo qual «substitui o seu constituinte mais importante», isto é, o supereu, antecipa quase clarividentemente os átomos pós-psicológicos e desindividualizados que formam os colectivos fascistas.
»
excerto de um excerto de
Adorno, «Freudian Theory» pp. 130-131;
citado por zizek em «As Metástases do Gozo (...)»,
p. 130, Relógio de Água
p. 130, Relógio de Água
depois da ira, a razão, fuga dos cobardes e dos que insistem em procurar sentido em viver
gosto de partilhar ideias. o que parece ser muito mais difícil do que partilhar a vida em geral. se eu dissesse: a minha vida É "sou o nuno, gordo e fumador e tenho x número de amigos", se o dissesse sem contemplar que estou a referir-me a um momento, inevitavelmente contingente e mutável, era como se de algum modo a minha vida pudesse ser assim, estanque e fixa, e eu, a partir de qualquer momento mágico e aterrador, tivesse de fumar e ficar gordo e não pudesse fazer mais amigos ou perder alguns.
a mim (e já vi que deve ser excentricidade minha ou algum tipo de muito imatura e despropositada hipersensibilidade), fere-me deparar-me, não, pior, partilhar a minha vida com pessoas que são assim em relação às ideias. "sou fulan@ de tal, e penso ISTO, estou na vida ASSIM". é como se me esmurrassem com o punho de um ultimato, cada vez que tento comunicar. e a tragédia disto tudo é que, à medida que envelheço, cada vez procuro mais comunicar (e chamo a atenção para a palavra comunicar, que começa com "comum" e quer mais ou menos dizer "pôr em comum"). cada vez mais procuro comunicar e cada vez menos tenho resistência aos murros.
quarta-feira, 7 de Julho de 2010
elite é a tua prima
de novo a conversa de a cultura ser feita por elites para as elites. fico mal disposto com esta sobranceria que a ignorância por vezes improvisa. e aviso, a quem ainda não me conhecer, que toda a crónica será um resmungo maldisposto. ao ler os comentários a esta crónica do daniel oliveira, de novo esta ideia absurda de a cultura ser privilégio das "elites", de menosprezar o gosto e as necessidades do povo. talvez o daniel tenha ajudado (pelo menos a situar) este equívoco, ao abrir a crónica com o termo "indústrias criativas". curiosamente, houve quem, com o discurso de que a cultura é monopólio das elites, nem percebeu a ironia e referência contida no título "é a cultura, estúpido". não vou aqui alongar-me, deixo apenas o link para o wiki da expressão "It's the economy, stupid".
estou convencido que parte do problema tem a ver com olhar-se para a cultura apenas como um conjunto de produtos culturais. e ao falar-se de indústrias criativas, de indústrias culturais, está-se precisamente a colocar a discussão nesse contexto. há de facto muitas indústrias envolvidas na cultura. alguns dos exemplos mais óbvios são a indústria discográfica e a indústria do cinema. é verdade que consumimos cultura, que compramos bens (e serviços) culturais e que nos relacionamos com a cultura nesse papel, o de consumidores, o dos que pagam por produtos culturais. mas a cultura e a arte não são apenas nem sobretudo produtos de consumo. acredito que a cegueira de considerar toda a cultura um produto pode ajudar a compreender esse preconceito de que (em Portugal, dizem) a cultura é feita para as elites.
quando é exibido um filme do manoel de oliveira ou publicado um livro do mário cláudio está-se a disponibilizar produtos cujo público alvo é composto de elites - é isto que querem dizer, acho, os defensores dessa teoria da conspiração que narra a ofensiva das elites contra o povo e a cultura popular. ora, uma obra artística, um filme, um livro, um quadro, é muito mais do que um produto. e os criadores, quando trabalham a sua obra devem (estou convencido) esquecer ou passar para plano muito secundário o que as massas estão disponíveis para entender, aceitar e, sendo o caso, comprar. os artistas, ao contrário de quem, por exemplo concebe um modelo de telemóvel, não são responsáveis por fazer o seu "produto" ter o máximo sucesso comercial possível. não teríamos os lusíadas se camões tivesse tentado torná-lo um produto para as massas.
esta individualidade firme do autor não implica, por si mesma, nenhnum tipo de inacessibilidade do grande público à sua obra. eu estou a ler um livro do zizek. as referências a obras da psicologia e da filosofia são tantas, que há partes que não compreendo, porque não tenho os conhecimentos para contextualizar o que estou a ler. mas isso é problema meu. o zizek, ao escrever, não deve preocupar-se com a minha ignorância dos assuntos a que se irá referir. se desentendo uma referência a lacan, é porque nunca li lacan. ainda assim, o que julgo que entendo é tão inspirador que continuo a ler, agradecido ao zizek por ter escrito o que escreveu. mas a mesma lógica se aplica à cultura popular. alguém que nunca tenha escutado fado, dificilmente se apercebe das influência do fado na música dos deolinda. e alguém que seja profundamente conhecedor do fado, entende muito melhor que eu o contexto em que as canções dos deolinda surgem. alguém que conheça muito bem a guitarra portuguesa entende muito melhor do que quem não a conhece tão bem as soluções que a banda encontrou e decidiu experimentar ao não usar a guitarra portuguesa. mas uns e outros podem apreciar a música dos deolinda. e os que têm menos conhecimentos sobre a música podem obtê-los, assim o queiram fazer.
estes pretensos defensores da cultura popular, da nobreza e humildade do povo contra a mesquinha arrogância das elites, estão a tratar essa entidade abstracta a que chamam de povo com uma condescendência imperdoável. acham que "o povo" não compreende o que é erudito, que não chega lá, coitadinho, porque, ao contrário dos membros das elites, tem de trabalhar de sol a sol para se sustentar e por isso não pode perder muito tempo a instruir-se nas artes que são feitas, com calculismo e perfídia, para as elites preguiçosas e com tempo a mais para desperdiçar. não aceito que me digam que alguém com pouca instrução não pode, por exemplo, fruir de um concerto de música clássica, com prazer e assombro. o facto de ter menos referências que alguém mais instruído para o que está a ouvir às vezes até ajuda a ouvir sem as ideias feitas que se vão criando acerca de cada objecto artístico. mas é, quero realçar, completamente irrelevante para a qualidade de uma obra musical agradar ou não a muita gente.
a ideia destes guerreiros da cruzada contra as elites é, a julgar pelo que vão dizendo, que fazer peças de teatro incompreensíveis, complicadas e demasiado intelectuais é egoísta e elitista, ao passo que produzir um espectáculo de revista é servir o povo. de novo o equívoco, a confusão entre produto cultural e arte. alguma cultura é apresentada como entretenimento, como produto que se consome. mas nem toda. há algumas artes, das que compõem a nomenclatura clássica, que têm um formato de difusão acessível a e predisposto para as massas. o cinema, o teatro, a literatura, apresentam-se num suporte que permite que chegue a públicos de elevada dimensão e diversidade. mas os cineastas, os dramaturgos, os escritores são artistas, acima de tudo. alguns poderão ter pretensões de alcançar grande sucesso e reconhecimento geral. de entre esses, alguns poderão produzir produtos destinados a agradar ao maior número de pessoas possível. mas não podemos, nem se quiséssemos, obrigar os artistas todos a ter como objectivo na vida agradar ao maior número possível de pessoas.
há, no entanto, mais que dizer sobre estas ideias ignorantes. a questão dos subsídios e dos apoios. não dizem, estes arautos da emancipação do poder sombrio das elites, que se devia proibir o manoel oliveira de fazer filmes. mas defendem alguns que tem de haver outro critério na distribuição dos incentivos financeiros aos produtores de cultura. dizem que não podemos subsidiar artistas infectados por autismo e elitismo agudos, que não se preocupam em ser inteligíveis e se contentam em fazer arte para si mesmos e para as (inevitáveis) elites a que pertencem. ou seja, dar dinheiro a quem não faz arte para o povo é dar dinheiro a egoístas e pessoas de má vontade, que não se ocupam das necessidades de todos mas apenas dos desejos fúteis de alguns.
esta mentalidade, eternamente preocupada com as "necessidades" culturais muito simples mas muito louváveis do povo, teve quase um orgasmo de satisfação beligerante, com o episódio do césar monteiro, quando ele disse ao microfone, "quero que o público português se foda". ali estava, clara e desavergonhada, a atitude das elites, que recebem dinheiro dos contribuintes para o gastar em intelectualices que não servem o povo, ali ficava demonstrado que se estava a esbanjar dinheiro com artistas que não queriam saber do público. e no entanto, o que césar monteiro afirmou não foi nada de novo. e até foi bom que o dissesse de forma tão directa e bruta. um artista, ao criar, não tem de o fazer em função do público. se há quem o faça, é problema seu. um artista deve ser livre e comprometido apenas com a sua visão da arte e da capacidade de esta interpelar o mundo, servir de expressão pessoal, ser relevante e substantiva, ainda que o seja essencialmente para o artista que a produziu. na cultura, darmos dinheiro apenas e preferencialmente aos que esgotam bilheteiras e vendem muito seria o mesmo que apoiarmos apenas os produtores de carne que é transformada em hamburgueres e não os agricultores que plantam cenouras e alfaces, só porque tanta gente gosta de hamburgueres e torce o nariz à salada. fazê-lo não só seria apostar na doença como desistir de acreditar (e de fazer por tornar possível) que as pessoas descubram e escolham a saúde. e, no fundo, não há mal nenhum em também comer uns hamburgueres de vez em quando. só não vamos elegê-los como maná das massas, que estas precisam de todos os nutrientes para se desenvolverem com vigor e vitalidade.
estou convencido que parte do problema tem a ver com olhar-se para a cultura apenas como um conjunto de produtos culturais. e ao falar-se de indústrias criativas, de indústrias culturais, está-se precisamente a colocar a discussão nesse contexto. há de facto muitas indústrias envolvidas na cultura. alguns dos exemplos mais óbvios são a indústria discográfica e a indústria do cinema. é verdade que consumimos cultura, que compramos bens (e serviços) culturais e que nos relacionamos com a cultura nesse papel, o de consumidores, o dos que pagam por produtos culturais. mas a cultura e a arte não são apenas nem sobretudo produtos de consumo. acredito que a cegueira de considerar toda a cultura um produto pode ajudar a compreender esse preconceito de que (em Portugal, dizem) a cultura é feita para as elites.
quando é exibido um filme do manoel de oliveira ou publicado um livro do mário cláudio está-se a disponibilizar produtos cujo público alvo é composto de elites - é isto que querem dizer, acho, os defensores dessa teoria da conspiração que narra a ofensiva das elites contra o povo e a cultura popular. ora, uma obra artística, um filme, um livro, um quadro, é muito mais do que um produto. e os criadores, quando trabalham a sua obra devem (estou convencido) esquecer ou passar para plano muito secundário o que as massas estão disponíveis para entender, aceitar e, sendo o caso, comprar. os artistas, ao contrário de quem, por exemplo concebe um modelo de telemóvel, não são responsáveis por fazer o seu "produto" ter o máximo sucesso comercial possível. não teríamos os lusíadas se camões tivesse tentado torná-lo um produto para as massas.
esta individualidade firme do autor não implica, por si mesma, nenhnum tipo de inacessibilidade do grande público à sua obra. eu estou a ler um livro do zizek. as referências a obras da psicologia e da filosofia são tantas, que há partes que não compreendo, porque não tenho os conhecimentos para contextualizar o que estou a ler. mas isso é problema meu. o zizek, ao escrever, não deve preocupar-se com a minha ignorância dos assuntos a que se irá referir. se desentendo uma referência a lacan, é porque nunca li lacan. ainda assim, o que julgo que entendo é tão inspirador que continuo a ler, agradecido ao zizek por ter escrito o que escreveu. mas a mesma lógica se aplica à cultura popular. alguém que nunca tenha escutado fado, dificilmente se apercebe das influência do fado na música dos deolinda. e alguém que seja profundamente conhecedor do fado, entende muito melhor que eu o contexto em que as canções dos deolinda surgem. alguém que conheça muito bem a guitarra portuguesa entende muito melhor do que quem não a conhece tão bem as soluções que a banda encontrou e decidiu experimentar ao não usar a guitarra portuguesa. mas uns e outros podem apreciar a música dos deolinda. e os que têm menos conhecimentos sobre a música podem obtê-los, assim o queiram fazer.
estes pretensos defensores da cultura popular, da nobreza e humildade do povo contra a mesquinha arrogância das elites, estão a tratar essa entidade abstracta a que chamam de povo com uma condescendência imperdoável. acham que "o povo" não compreende o que é erudito, que não chega lá, coitadinho, porque, ao contrário dos membros das elites, tem de trabalhar de sol a sol para se sustentar e por isso não pode perder muito tempo a instruir-se nas artes que são feitas, com calculismo e perfídia, para as elites preguiçosas e com tempo a mais para desperdiçar. não aceito que me digam que alguém com pouca instrução não pode, por exemplo, fruir de um concerto de música clássica, com prazer e assombro. o facto de ter menos referências que alguém mais instruído para o que está a ouvir às vezes até ajuda a ouvir sem as ideias feitas que se vão criando acerca de cada objecto artístico. mas é, quero realçar, completamente irrelevante para a qualidade de uma obra musical agradar ou não a muita gente.
a ideia destes guerreiros da cruzada contra as elites é, a julgar pelo que vão dizendo, que fazer peças de teatro incompreensíveis, complicadas e demasiado intelectuais é egoísta e elitista, ao passo que produzir um espectáculo de revista é servir o povo. de novo o equívoco, a confusão entre produto cultural e arte. alguma cultura é apresentada como entretenimento, como produto que se consome. mas nem toda. há algumas artes, das que compõem a nomenclatura clássica, que têm um formato de difusão acessível a e predisposto para as massas. o cinema, o teatro, a literatura, apresentam-se num suporte que permite que chegue a públicos de elevada dimensão e diversidade. mas os cineastas, os dramaturgos, os escritores são artistas, acima de tudo. alguns poderão ter pretensões de alcançar grande sucesso e reconhecimento geral. de entre esses, alguns poderão produzir produtos destinados a agradar ao maior número de pessoas possível. mas não podemos, nem se quiséssemos, obrigar os artistas todos a ter como objectivo na vida agradar ao maior número possível de pessoas.
há, no entanto, mais que dizer sobre estas ideias ignorantes. a questão dos subsídios e dos apoios. não dizem, estes arautos da emancipação do poder sombrio das elites, que se devia proibir o manoel oliveira de fazer filmes. mas defendem alguns que tem de haver outro critério na distribuição dos incentivos financeiros aos produtores de cultura. dizem que não podemos subsidiar artistas infectados por autismo e elitismo agudos, que não se preocupam em ser inteligíveis e se contentam em fazer arte para si mesmos e para as (inevitáveis) elites a que pertencem. ou seja, dar dinheiro a quem não faz arte para o povo é dar dinheiro a egoístas e pessoas de má vontade, que não se ocupam das necessidades de todos mas apenas dos desejos fúteis de alguns.
esta mentalidade, eternamente preocupada com as "necessidades" culturais muito simples mas muito louváveis do povo, teve quase um orgasmo de satisfação beligerante, com o episódio do césar monteiro, quando ele disse ao microfone, "quero que o público português se foda". ali estava, clara e desavergonhada, a atitude das elites, que recebem dinheiro dos contribuintes para o gastar em intelectualices que não servem o povo, ali ficava demonstrado que se estava a esbanjar dinheiro com artistas que não queriam saber do público. e no entanto, o que césar monteiro afirmou não foi nada de novo. e até foi bom que o dissesse de forma tão directa e bruta. um artista, ao criar, não tem de o fazer em função do público. se há quem o faça, é problema seu. um artista deve ser livre e comprometido apenas com a sua visão da arte e da capacidade de esta interpelar o mundo, servir de expressão pessoal, ser relevante e substantiva, ainda que o seja essencialmente para o artista que a produziu. na cultura, darmos dinheiro apenas e preferencialmente aos que esgotam bilheteiras e vendem muito seria o mesmo que apoiarmos apenas os produtores de carne que é transformada em hamburgueres e não os agricultores que plantam cenouras e alfaces, só porque tanta gente gosta de hamburgueres e torce o nariz à salada. fazê-lo não só seria apostar na doença como desistir de acreditar (e de fazer por tornar possível) que as pessoas descubram e escolham a saúde. e, no fundo, não há mal nenhum em também comer uns hamburgueres de vez em quando. só não vamos elegê-los como maná das massas, que estas precisam de todos os nutrientes para se desenvolverem com vigor e vitalidade.
terça-feira, 6 de Julho de 2010
as mulheres e a minha incompreensão do žižek ou será o contrário? #2
o weininger era um palerma, um palerma inteligente, mas um palerma, ainda assim. zizek usa-o como forma de abordar a psico-ideologia dominante. nada como um palerma inteligente para nos clarificar ideias palermas. que o homem é espiritual, acima de tudo, e que é a mulher, ser inapelavelmente sexual, a proporcionar o seu abismo, que a carne e o desejo sexual sejam de facto abismo, que no fundo toda esta arena de cio e pecado a que chamamos mulher não existe, porque só existe enquanto formulação do discurso masculino, que haja sequer nesta visão tão opaca do homem e mulher absolutos alguma ligação com os homens e as mulheres que existem, é algo que nem parece merecer a pena ponderar. zizek faz quase uma homenagem ao homem que se suicidou aos 24 anos, depois de escrever "sex and character", ao dissecar o pensamento anti-feminista weiningeriano tão seria e intensivamente. apetece dizer, e zizek não o disse, parece-me, por ser menos impressionável que eu, que neste suicídio precoce há algo de coerente com a visão do autor sobre o masculino e o feminino. é como se a única ascese possível, a espírito puro tão assolado pela tentação feminina, fosse a morte, a consumação absoluta do masculino liberto da mulher que, sem existência própria, percorre o homem como um vírus ou um parasita, contaminando a sua saúde espiritual. e, no entanto, segundo weininger é a mulher que tem esse pendor para o abismo, para a morte, para a aniquilação como única forma de escapar à ignomínia de não-existir tão ferozmente. zizek realça o que diz weininger, que até quando uma mulher se apresenta como casta, como verdadeira, como abdicando do sexo em favor de uma suposta vida espiritual, está apenas a procurar fazer-se apetecível para o homem que a venha a admirar. é o coito a única pulsão verdadeira da mulher, arrastar o homem para a lama do coito o seu único desígnio. de novo, apetece dizer o que não li ao zizek, pelo menos até à página 97. weininger teria, acredito, muito sucesso entre algum tipo de mulheres. conseguiria, desde que não fosse um monstro de mau hálito e más maneiras, seduzir muitas anti-feministas, dessas que encontram sentido de missão numa forma de castidade muito básica e destrutiva, feita de estigmatização de qualquer coisa que cheire a sensulidade, prazer, deleite dos sentidos, qualquer pecado carnal que se torna pecado apenas por ser carnal. sendo ainda mais audaz e ridículo, digo que foi weininger quem assumiu o que imputava à mulher. escrevendo a sua obra e matando-se a seguir, fugindo do mundo e da sombra fantasmática da mulher, pôs-se do lado dos que não querem sucumbir às teias do prazer sensual, do lado dos que se mantêm impolutos, absolutamente masculinos porque espirituais, inteiramente espirituais porque não tomando parte do universo feminino, segundo a escatologia weiningeriana. e assim, fez-se mais apetecível às mulheres que, sendo mulheres, também quisessem repudiar o corpo e o demónio-mulher. como uma mulher weiningeriana, weininger apenas tomou o caminho da ascese para obter esse coito feito de não-coito - ou melhor, o que eu queria dizer é que não quero ser um palerma do género que escrevesse tretas como as que se podem ler nas linhas acima, ou pior, um quase-génio misógeno como o weininger, não desejo ser um intelectual dos que percebe melhor o mundo por não se deixar contaminar por ele, ficando a uma distância higiénica. quero ser o idiota sexy, em que reparas porque tem um corpo apetecível e que não te incomoda ser idiota porque não lhe dás grande ocasião de falar. quero ser o corpo que incendeia o teu, despertando-o para o sexo a que pertence, e não a mente que admiras, serena e pensante, com carinho e respeito. quero, em termos weiningerianos, ser a tua mulher, a tua tentação, que te ameaça trazer à terra, ao cio, perturbando a tua espiritualidade estéril. quero mais, quero ser a deusa do teu desejo, a quem erigimos altares de saliva e cio, quero fundar no teu corpo o templo da religião profana dos animais que descobrirmos em nós, assim que deixemos de pensar, libertos da roupa.
#escrito às 14:00 de 6 de Julho de 2010
domingo, 4 de Julho de 2010
as mulheres e a minha incompreensão do žižek ou será o contrário? #1
leio as metástases do gozo do zizek e sei que não te compreendo. não estou a dizer que te explicas mal ou que te entendo mal nem sequer que existe alguma incoerência que eu ou tu pudéssemos apontar. quero apenas dizer que não cabes na minha capacidade de apreender o real. e isso não sucede porque sejas (no que me relaciono contigo) do reino do irreal ou da fantasia. pelo contrário. é a tua flagrante realidade que colide, ou melhor, que se esquiva da colisão com a minha simbolização do palpável. gosto tanto do zizek precisamente porque muito do que diz me instiga à loucura leviana de não concordar com ele, por muito que me possam acusar de nem sequer o compreender. duvido, apoiado pelo discurso zizekiano sobre a mulher, que a dama seja inacessível para que se possa tornar a substância ou a causa ou o horizonte do desejo sexual. talvez eu esteja apenas a recusar este papel que parece o mais óbvio e provável. não quero o desejo sexual, quero o sexo. não quero o desejo do corpo, quero o corpo. não quero a pura representação, a absoluta sublimação simbólica do amor, quero o amor. desejo o sexo, o corpo, o amor. e amo a ideia de que desejar é apontar-me na direcção, no caminho da saciedade. e, descansem os que se aborrecem com a ideia da felicidade, toda a saciedade é apenas nutrir de energia o corpo para que a mente suporte o vasto deserto a seguir ao oásis. partilhar o teu sexo, o teu corpo, o teu amor não seria a anulação do desejo por intermédio de uma consumação secretamente temida. seria partilhar a alegria do cansaço, a frescura das fontes, para que pudéssemos caminhar com mais vigor e saúde. digo-te como se o atirasse à cara do meu querido zizek: não espero por ti, não erijo templos simbólicos com a tua imagem, não alimento a fantasia autofágica de desejar-te até ao infinito, heroicamente romântico. continuo o meu caminho, assinalando a sede, o cio, a dúvida como indicadores de que sou eu que atravesso o caminho, não é a presença fantasmática do caminho que se inscreve em cicatriz ou se dilui como nevoeiro no ar dos pulmões. e contudo, diria o zizek se pensasse de forma tão limitada e previsível como eu, é à dama-coisa (aconselho a leitura do livro) que me dirijo e não à mulher de carne e osso, à mulher-em-si, independente do meu desejo-discurso masculino. é como se estivesse a dialogar com o desejo, na sua controvérsia simbólica, ou melhor, como se avançasse, sôfrego e precoce, para a consumação que o aniquilasse, com a linguagem-falo que o concretiza. o que eu diria ao zizek, piscando-lhe um olho lacaniano, é que este texto, resfolegar de esplanada a seguir a leitura intensa, será provavelmente publicado, num blogue. o texto, aqui, não é o suporte contingente de um pensamento que se quer expressar ou, mais rigorosamente, não o é apenas nem essencialmente. o texto é uma carta sem selo, guardada entre as páginas de um livro sempre à mão, é o perfume que de repente me lembrasse de usar, é o hálito fresco, é um encontro fortuito entre uns patins e uma bicicleta. a noite avança, apoiada numa brisa fresca e eu levanto-me a caminho dessa improbabilidade que trato pelo diminutivo: vida.
#escrito às 23h15 de 30 de junho de 2010
quarta-feira, 30 de Junho de 2010
o elogio dos amigos - eliana m
talvez seja por partilharmos uma mesma descontraída e entusiasmada forma de nos entregarmos ao gozo do mundo. talvez seja reconhecermos um no outro a facilidade para o lúdico e, paradoxalmente, para o contemplativo, o que nos atrai. sei que a primeira vez que te vi, sorrindo, atenta e chamando por mim, senti-me em casa. gostamos de abraços, de mar, de ler em português e sentir em língua nenhuma todo o assombro que desvendarmos, na carne do dia, no flanco da noite. há alguma ferocidade na facilidade de nos apaixonarmos pelo que nos interessa bem como uma paciência perante as agruras do caminho difícil de explicar a quem seja mais cerebral. somos primários, como animais sem dono, como crianças que cresceram meio selvagens meio protegidas por alguma divindade panteísta. e, entretanto, somos diferentes em quase tudo. quase tudo o que não é essencial, diga-se. ainda assim, é essa alteridade que me desafiou e levou a que abraçasse o diálogo íntimo e cintilante que fomos acalentando. foi a arte, a linguagem, o atlântico que nos serviu de linguagem, mesmo quando a linguagem de cada um incompreendia os tropeções semânticos do outro. o coração não é tão eloquente como desejamos. não sabe falar. e quando lhe emprestamos voz, estamos a traduzir e a trair. devo dizer-te que vale o esforço, amiga querida, já que é bom termos o coração protegido dentro do peito e são as palavras que o representam, em diplomacia, conflito, delírio, cio. vale a pena dizermos o que nos parece que sentimos, para a seguir o sentirmos com mais vigor ainda. abres-me a alma, como um sábio a um pergaminho, estendes o horizonte para que as asas possam intuir o infinito. ou, como o meu coração diria, se fosse simples e ancião, gosto de ti, muito muito, quero-te com amor, sempre, na minha vida.
sexta-feira, 25 de Junho de 2010
fruição
à vinda para casa, ouvi na antena 3 uma surfista a responder a uma pergunta rápida. está a decorrer na praia de ribeira de ilhas uma competição e a atleta em questão ia entrar na água. já tinha sido campeã nacional, mas não percebi se ia defender o título. a pergunta era algo como "as ondas aqui são backside, o que torna as coisas mais difíceis para os goffy foot, como tu. como é que encaras isso?". a resposta da surfista de 20 anos, com voz de miudinha e um sorriso que a voz fazia adivinhar, foi um hino (quem me tem lido, percebe). disse ela, "é verdade que as ondas são backside, mas são ondas boas, ondas divertidas. é um privilégio poder surfá-las, ainda mais que vão estar apenas 4 surfistas na água. é uma oportunidade muito boa. afinal, é a onda de ribeira de ilhas". achei delicioso que o comentário dela (foi apenas assim, uns segundos ao microfone) usasse a palavra "divertida", que assusta um pouco os desportistas e mais ainda os não-desportistas, por parecer implicar falta de seriedade. mas achei mais admirável que ela se mostrasse feliz por poder surfar uma onda com pouca gente, numa praia em que geralmente há muita gente na água. na sua declaração, competir ali era, acima de tudo, poder surfar com boas condições. é isso o desporto, meus amigos. mais do que taças, medalhas e outras honrarias do género, é o momento em que se pratica que importa, é por ele que se fazem todos os sacrifícios, é por ele que se anseia, é ele que nos realiza.
sábado, 19 de Junho de 2010
quinta-feira, 17 de Junho de 2010
o elogio dos amigos - teresa y
quando nos conhecemos, tinha eu uns quatorze anos e tu menos um, fizeste-me um desenho, logo após as primeiras palavras trocadas, na cantina do liceu. não me lembro porque começámos a falar, mas do desenho lembro-me bem. eram dois bonecos, de estilo simples e cartoonesco, com uma bola para a cabeça. e dois traços para braços e dois traços para as pernas. um anjo e um diabo, que se distinguiam porque um tinha um halo, sobrancelhas amigáveis e um sorriso e o outro tinha cornos e tridente, sobrancelhas malévolas e um esgar. disseste-me, toma, geralmente quando conheço alguém, desenho um anjo ou um diabo, conforme a pessoa, mas no teu caso, desenhei os dois. se a beleza humana tivesse um rosto, poderia muito bem ser o teu. os genes dos teus avós e um íntimo feito de delicadeza e curiosidade infantil, fazem de ti uma pessoa muito bonita. o teu riso faz-me bem. é sincopado e um pouco agreste, ainda que musical, como o de uma criança que não consegue conter a vontade de rir em momento impróprio. do tanto que vivi contigo tenho muito sempre presente na memória mais imediata e urgente. uma vez, vinha eu de trabalhar nas obras, com roupa velha manchada de tinta e cimento seco, e vi-te em frente ao prédio em que moravas. sorriste, com essa prontidão de quem vai desatar a rir, esse teu sorriso relâmpago, que te ilumina sem aviso, e deste-me um abraço apertado. disseste, olha, este é o meu primo. cumprimentei o teu primo, que quase não abriu a boca. tentei ser engraçado, dizendo, então o que achas do meu novo traje de trabalho?, abrindo os braços, como quem mostra a tuálete. e tu, desatenta e alegre, perguntaste, o quê, tens um emprego novo? falámos um pouco e despedimo-nos. um ou dois dias depois, perguntei ao reencontrar-te, pois é, já sabes, trabalho nos trolhas. e tu mostraste uma surpresa que eu não esperava. a sério? então, estive contigo no outro dia, todo sujo, com a roupa com que trabalho. olha, não reparei. e falavas a sério, não tinhas mesmo reparado. não imagino outra pessoa assim. é que a tua desatenção foi proporcional à força serena e firme com que te concentras no essencial. quando me viste, foi a mim que me viste, como se roupa nenhuma pudesse mascarar o que sou. mesmo quando não me olhas nos olhos, acho que me vês por dentro. e tens esse hábito que só tolero em ti, de olhar, profundamente séria, a direito nos olhos, quando queres mesmo compreender algo que te digo. conversar contigo é alimentar os laços, fortalecer a proximidade dos corações, tornar palpável as emoções. tens idade para ter juízo, como se costuma dizer. mas felizmente manténs essa disponibilidade que costuma desaparecer no fim da infância, essa facilidade em te alegrares absolutamente logo a seguir à lágrima e a solicitude de te entristeceres imensamente, mesmo no meio da satisfação. vives o mundo dessa forma primária e intensa, própria das crias humanas e dos animais não humanos adultos. no fundo, estás mais ligada à realidade do que é costume, embora te possam repetir o contrário, chamando-te sonhadora. como eu, não tens talento para o dinheiro ou para o estatuto. tens essa forma rara e frágil de sociabilidade que julgo também ter e que é feita de algum isolamento apaziguado, algum individualismo feliz e de muita incompreensão da dinâmica dos grupos, dos jogos de influência, de excentricidades como a ascensão social, a intriga e a pressão de pares. como eu, acredito, dás-te bem com as pessoas, porque te relacionas com cada uma e não com o lugar que ocupam seja em que grupo for. dá jeito ser assim, para fazer amigos com facilidade e solidez. mas a ignorância do que é tácito e esperado, nos grupos, às vezes aleija um pouco, eu sei. a vida não te conseguiu magoar tanto que tenhas amuado ou, pior, que lhe tenhas declarado guerra, como é estratégia de quem desesperou no cansaço da dor. amo-te, minha amiga, querida, meu tesouro lindo, minha vida.
segunda-feira, 14 de Junho de 2010
fôlego
no sábado pude reencontrar-me não só com malta da minha geração, mas comigo próprio. foi bom ver amigos que descobriram o prazer do desporto já crescidos. e foi bom ver essa terra onde cresci, ver que não me sinto estrangeiro, afinal. um amigo querido, quando foi à Figueira há uns anos, disse-me, "agora percebo porque gostas tanto de desporto". é a ciclovia, os campos de basket, a proximidade da serra e do rio. mas, acima de tudo, aquele mar que não pede licença, aquele mar que invade a terra, com a sua presença digna de temor.
gostei de voltar a sentir, em contexto diferente, o que senti tantas vezes no mar. a espera, dentro de água, pelo próximo set. a atenção descontraída mas absolutamente focada, a perceber onde quebram as ondas. o ajuste, com braçadas (no caso, com remadas), para ficar no ponto certo. a análise, rápida, mas com margem de erro sempre presente, sobre qual de entre o set é a melhor onda. a decisão. a onda que se levanta, para quebrar em espuma e vigor. o deslizar vertiginoso parede abaixo, de forma a ser inpulsionado nesse ponto onde a dobra vai revelando espuma. o som da onda que quebra, a massagem da espuma, a velocidade. e a água, esse meio tão natural como exigente, como tela de plasma fresco, onde desenhar movimento e euforia.
levei os patins e fui com eles até ao cabo mondego, pela ciclovia, a seguir ao almoço. de tarde já não pude voltar a entrar na água. a maré iria ficar no ponto, com mais ondas, à hora a que chegava o meu comboio. mas o dia foi perfeito. chegando a noite, veio a celebração do aniversário da minha irmã, com a família à mesa. foi uma celebração de muitas coisas boas. uma celebração do tempo, que não é tão implacável como tenta parecer. uma celebração das raízes, da forma como as famílias se alargam e evoluem. uma celebração de laços, a pessoas e a lugares. foi um dia que me encheu de energia e reabasteceu de tranquilidade. foi um dia que veio confirmar o que já era óbvio. posso passar sem arte, sem espectáculos, sem movida. numa conversa com um rapaz da minha geração, um dos poucos que ainda não se casou, como eu, dizia-me ele, como se eu não me lembrasse, "mas isto no inverno é uma pasmaceira". e repetia, mais à frente na conversa, "mas isto, se um gajo arranjar por aqui um emprego, tem qualidade de vida". e tem. viver num sítio onde posso ir a pé a todo o lado. onde não há trânsito nem poluição atmosférica. onde o mar está sempre por perto, onde tudo me puxa para o exercício e a saúde. onde o rio, o mar e a serra são a paisagem dominante,. viver num sítio assim é ter qualidade de vida. agora a figueira tem o cae, o centro de artes e espectáculos, com alguma programação de qualidade. mas eu cresci sem isso. sem ver teatro, sem agitação durante a éopca não-balnear, sem o que se chama habitualmente oferta cultural. e nunca senti falta. o que eu passei a querer foi estar num sítio onde pudesse ser anónimo. foi o que mais gostei quando fui viver para o porto. andar na rua sem ser reconhecido. ser anónimo entre anónimos. mas isso era algo a que dava muita importância em adolescente. agora, que tenho mais confiança na minha individualidade, não me importa tanto se me reconhecem ou não, se passo despercebido ou se me observam.
os patins em linha, a bicicleta, salvaram a minha estadia em braga. os amigos queridos que fiz, já o tinham feito em relação às emoções. mas o corpo também precisa de se sentir em casa. e agora deixei de ser o sedentário em que me vinha transformando. a figueira é, para usar uma frase à paulo coelho, um estado de espírito. trago aquele fôlego de mar comigo. sou músculo, agilidade, força, movimento. mexo-me, respiro. e, no fundo, andar de bicicleta, patinar, fazer as caminhadas com os meus amigos, é a qualidade de vida que me faltava. quero que braga tenha vida cultural, que se mexa, que aconteçam coisas e que passem por cá muitas pessoas. mas isso não seria o suficiente. não me contentava em ser um fumador gordo e sem fôlego mas muito preenchido do ponto de vista intelectual. acho até que grande parte das angústias dos filósofos se resolvem com exercício físico, com suor, uma boa dose de sexo, com ar puro, com trabalho físico e a saciedade que se segue à sede, com o descanso a seguir à fatiga.
sexta-feira, 11 de Junho de 2010
ainda sobre o corpo e a mente, a arte e o desporto
este texto devo tê-lo escrito a meio de uma das várias e regulares crises da espondilite, sentindo como o meu corpo se pode virar contra mim, fazendo-se doer, como amuado e a querer chamar a atenção. publiquei-o originalmente em novembro de 2005. diz muito das minhas prioridades. talvez ajude melhor a explicar o que já aqui tentei dizer, Alquimia. dedico-o a ti. ei-lo:
vigor e falência
A doença lembra-me a fragilidade do corpo. É proveitoso um tempo de menor capacidade. A mente encontra formas alternativas de gerir recursos. Surpreendo-me com a actividade do cérebro. Alguma da genialidade histórica deve ter surgido em periodos de convalescença. A vitalidade é algo de tão esplendoroso que chega a preencher-nos absolutamente, a dispensar a intelectualidade. Quem precisa de se colocar dúvidas existenciais, tendo um corpo que funciona? Tendo um outro que se lhe oferece? Confesso que não pega. Lembro-me de levar a bola de basquetebol comigo. E de um belo campo ficar perto da biblioteca, na Figueira da Foz. Fui Lendo Eugénio de Andrade enquanto ia tirando proveito da minha juventude. Mas há qualquer coisa de inquietante em ter o corpo em falência. A mente parece ocupar mais espaço. Sei que há quem tenha escrito livros em hospitais. Há quem tenha desenvolvido ou descoberto aptidões para esta ou aquela actividade artística depois de uma doença prolongada. Em algumas imagens os extraterrestres são representados com cabeças gigantescas em relação ao resto do corpo. É assim que penso em nós humanos, às vezes. Não porque seja de opinião que a nossa inteligência é superior. Mas porque há uma desproporção eminente, emergente. Quando o corpo falha, a mente aproveita. Sente-se mais leve, com mais capacidade, maior raio de acção. E por vezes, até produz coisas interessantes. Por mim, até não me importava de ter uma cabeça mais pequena. Talvez me servissem os bonés. E a poesia é bom lê-la depois de um mergulho no mar ou um jogo de basquet. Melhor que acompanhá-la de café, cigarros e espaços fechados.
segunda-feira, 7 de Junho de 2010
o elogio dos amigos - anastácio n
tens um sorriso bondoso. sempre que penso em ti, penso em ti a sorrir. quando conheci o teu pai, percebi de onde vinha essa vontade de ver o mundo de forma simples e as pessoas com bondade. afligem-te as injustiças e as complicações com que baralhamos e poluímos a vida. mas não creio que sejas ingénuo ou crédulo. tenho sempre de rectificar, tão distorcida está a expressão boa pessoa. tens um coração bondoso, o que não retira nem um grama à tua ironia bem disposta, ao teu olhar acutilante. não admira que o jornalismo te fosse tão natural, como um desses ofícios de um homem de talento, de quem dizemos, por facilidade discursiva, que nasceu para o ofício. a mim não me parece que os humanos nasçam para ofícios. o que não é o mesmo que dizer que não podem ter vocação. acredito que nascemos com inclinações, com dons que podemos ou não desenvolver, com aptidões que, porque só se manifestam quando nelas investimos tempo e empenho, não importa tanto se nos são inatas. importa se nos fazem felizes, se nos favorecem o convívio com os outros. és um amigo querido, e a distância apenas fere um pouco a saudade, atiça-a como a um lume excessivo e deslocado, num verão que dispensa mais calor. o meu coração reconhece esse sorriso, mesmo à distância. basta a tua voz, um apontamento da memória, a vontade de te rever.
terça-feira, 1 de Junho de 2010
corpo são é mente sã
ontem, uma pessoa amiga usou a expressão mens sana in corpore sano como resposta a algo que eu dizia sobre andar de patins. mente sã em corpo são é uma óptima síntese de uma série de coisas boas. não tenho nada contra a expressão de Juvenal. não a costumo usar muito porque a relaciono sempre com as ideias greco-romanas sobre o corpo e o desporto. eu, sinceramente, não sou greco-romano no que toca ao desporto. não nego que a minha cultura vem daí, como a de outro qualquer europeu ocidental. mas não tenho por ideal a coisa olímpica. não gosto de podiums, nem de bandeiras a subir, como em homenagem de soldado, nem dos hinos a tocar. não gosto de medalhas nem de troféus. não gosto da glória do medalhado nem dos anais a registar recordes como se fossem patamares de realizações morais - em relação aos recordes tenho o mesmo interesse que tenho por estatísticas em geral. gosto de estatísticas, porque resumem em números dados que acho interessantes. mas, de resto, não gosto dessa coisa greco-romana de homens (e eram sempre homens, não havia mulheres) a correr pela glória, para se poderem assemelhar aos heróis dos poemas épicos e aos semi-deuses que, por sua vez, eram descritos e criados à semelhança dos homens. não gosto disso nem faço disso a minha cultura. por causa da palavra glória, lembro-me do filme "Momentos de Glória", que, embora se chame no original Chariots of Fire, na versão portuguesa resume aquilo a que se resume (para alguns) o trabalho da vida de um atleta - alguns escassos momentos de glória. eu deito essa cultura para o lixo. e essa cultura tem momentos muito feios, como aconteceu com os nossos atletas olímpicos, em Pequim. porque a Naide Gomes foi trapalhona e talvez desconcentrada, a Telma não conseguiu impôr-se no dojo e um tipo disse que de manhã gosta de estar na caminha, tivemos uma nação palerma e barriguda a trazer para as olímpiadas o merdoso discurso geralmente reservado à selecção de futebol: "não se esforçam, não têm amor à camisola, não são dignos de representar portugal". merda para essa forma de ver os atletas e a cultura física. o desporto, na minha concepção e prática, não tem nada a ver com camisolas, nações e nacionalismos, glória, medalhas, hinos e outras coisas mesquinhas e inúteis da política e do ego. e nem sequer tem a ver com os adeptos, fãs ou espectadores. perguntem a um praticante de ioga se ele sente falta de medalhas ou de momentos de glória. perguntem ao Shane Dorian, quando anda a surfar pelo mundo, se lhe faz falta uma multidão a puxar por ele. perguntem aos praticantes de Chinlone se se devia passar a competir e a premiar os melhores - no Chinlone todos praticam, ninguém compete. perguntem ao Eito Yasutoko se quando ele cria uma manobra nova o faz por amor à camisola do seu Japão. e não deixo links, porque quem realmente se interessar por desporto, vai ao google. ninguém precisa de medalhas como estímulo para subir uma montanha. ninguém precisa de fãs, quando está a praticar sexo tântrico. ninguém quer saber do podium quando faz um trilho a pé ou se dedica ao mergulho livre. o desporto, a forma física, o prazer psico-motor, o conhecimento da nossa motricidade são como tudo o que importa: não servem para chegar a uma outra coisa (medalhas, reconhecimento, etc), fazem-se porque são importantes, porque conspiram para a felicidade, porque nos atiram para o mundo com mais energia e capacidade.
estatística
só por curiosidade fui confirmar. e, para já estão empatados. tenho 53 posts com a etiqueta desporto. e 53 posts com a etiqueta arte. adivinhem em qual eu aposto.
segunda-feira, 31 de Maio de 2010
resolução
no fundo, já devia ter tomado esta resolução há umas décadas atrás. não falar antes de fazer. não falar, sobretudo, como se já tivesse feito. não falar antes de concretizar, não falar antes de ter a certeza. se eu próprio me acho exasperante, imagino que para as outras pessoas é pior. eu, ao menos, já me habituei a lidar comigo. mais, eu sou o único que é mesmo obrigado a aturar-me. estou farto de desiludir os que vão nas minhas conversas de entusiasmo barato. não tanto como os desiludidos, ainda assim, imagino. passei de ruinosamente inconstante, para apenas inconstante. mesmo com a modesta evolução, não sou de fiar. as pessoas que me conhecem há mais tempo, sabem-no, imagino. algumas até mo desculpam. se tenho mil ideias por dia e dessas, dez me parecem boas e dessas, pelo menos uma me apetece seguir, isso é problema meu. mais vale ter como assunto a música que escuto, o cinema que vou vendo, a vida em geral. falar, de tempos a tempos, como se a minha vida tivesse mudado ou, pior, como se tivesse ganhado rumo, é injusto para quem for acreditando na solidez do meu entusiasmo. é verdade que melhorei. que antes, precipitava uma crise, com a ajuda da bipolaridade, que me salvava de continuar em frente. ficava em ruínas, por uns tempos, e depois vinha a santa convalescença. agora não tenho essa artimanha à mão. estou mais equilibrado. a inconstância tornou-se um traço de personalidade, apenas. já não é um adamastor à minha espera na próxima esquina para me engolir. é um dente torto, alguns pêlos a mais nas costas, um sinal no braço, um defeito de dicção. a dificuldade em fazer-me credível é minha responsabilidade. falho. e até parece que me esqueço que falhei, da vez seguinte em que mostro vontade de viver e de fazer coisas. talvez, e custa-me admiti-lo, as mulheres que passaram por mim tenham sentido a minha falta de ambição como falta de espinha dorsal. pelo menos as que ficaram comigo tempo suficiente para me conhecerem. é como se vissem na minha bonomia, no meu sorriso pateta, um tipo que se contenta cedo demais. um animal de colo que só quer comida e festas. tudo seria diferente se eu escolhesse falar só do que é sólido e concreto. e se levasse as coisas até ao fim, até os fracassos. assim, nem me permito fracassar, em algumas coisas. claro que isto não se refere às relações., apenas aos empregos, aos projectos, às ideias em geral. mas estou certo de que as afecta, às relações. é difícil imaginar um projecto a dois se o parceiro parece ter como único objectivo continuar a respirar. adapto-me facilmente. o que me facilita a vida quando há mudanças radicais. mas a seguir pareço demasiado satisfeito, como se a felicidade me custasse muito pouco, como se não fosse necessário sofrer muito nem tentar muito. o que quero mudar já é o meu discurso, acima de tudo. e, é outra coisa que não tenho sabido usar a meu favor, tenho sempre disponibilidade para tentar mudar a forma como me comporto. disponibilidade, no fundo, ainda nem é o primeiro passo. é apenas disponibilidade para. é o que está a seguir ao para que tenho de agarrar. mas antes ainda, a verborreia assassina de credibilidade. vou guardar os meus sonhos para mim, cauteloso e egoísta. e quando me perguntarem o que tenho feito, digo só o que tenho feito de facto, dormir, respirar, comer, ler e ver e ouvir coisas. o resto, que se construa com discrição, até ao momento de abrir portas e convidar os amigos.
grunhido
por vezes apetece-me matraquear o teclado, como se qualquer palavra, qualquer frase servisse. e no fundo, a gramática talvez seja uma forma elaborada de preencher o pensamento, ocupando-o com algo que o distrai do que realmente traz o desassossego. é como patinar. não se patina porque se quer emagrecer, porque se procura um estilo atraente, porque se tem a mania. patinar é suficientemente difícil para que não se insista, depois das primeiras quedas, por uma dessas razões. escrever, juntar frases, é demasiado comprometedor, para que se insista se não houver no processo de escrever algo de revelador, algo que eleva e intensifica, que dá sentido ou que cura as feridas que a falta de sentido habilmente torna infectas. não é tanto o que quero dizer, é a necessidade de dizer, de gravar no branco o preto dos grafemas, com fúria, frustração, bondade ou esperança. por vezes apetece-me escrever como se fosse uma criança que ainda não aprendeu a escrever. matraquear as teclas sem qualquer sentido, entusiasmando-me com as letras que surgem no ecrã, mais preocupado em fazê-las aparecer em abundância e delírio, poluindo ludicamente o branco, do que com o que os adultos pensam que vêem nelas. e, no fundo, seria simples apontar onde me dói a alma. é por birra em relação às palavras que não lhes dou a satisfação de me explicarem. zango-me com elas, antes de elas sequer me desiludirem. não lhes concedo o papel que me sugerem: tornarem claro o que se vai atolando no silêncio controverso do íntimo. apetece-me suar, usar os músculos até me doerem. e, porque aprisionado nas tarefas do dia, transmito aos braços, às mãos, aos dedos, a energia indomada que me invade a tranquilidade. é também comigo que me zango, aflito de raiva por ser tão incompetente na gestão da minha mente. furioso com o ruído interior que não controlo, venho para aqui papaguear o que me ocorrer, usando o texto como esponja ou como minério onde descarregar a electricidade acumulada.
sábado, 29 de Maio de 2010
o elogio dos amigos - isabel m
acima de tudo, as nossas almas entendem-se. nenhum dos dois saberia dizer com clareza científica o que é uma alma e como se manifesta. mas ambos acreditamos no que, sendo invisível, se sente. habitas o meu íntimo, misturando-te nas minhas memórias e nas minhas emoções. já me viste a rir e a chorar. já me confortaste, já adormecemos a conversar e já discutimos. gosto de viajar contigo, mesmo se encontramos pequenos conflitos com que nos entreter. gosto do carinho com que me acolhes, fazendo-me sentir o lar nos teus olhos. a tua felicidade faz parte da minha, intimamente. tens uma forma apaixonada de viver a vida, encontrando nas coisas aparentemente simples significados profundos, e nas coisas aparentemente complicadas desafios improváveis. os teus filhos são lindos. mostram, nas suas qualidades, que ser mãe é a tua mais perfeita obra-prima. gosto de te ver dançar. há uma noite, em que festejávamos o teu aniversário, que lembro com entusiasmo. o DJ passava rock calminho, morno e a pista era quase inteiramente composta dos amigos que reuniste. um de nós foi pedir que passasse Ramstein e veio dizendo que o DJ disse que não era possível, que não se enquadrava. mas uns minutos depois, lá vinha a música, e a tua euforia dançante. acima de tudo, é com o coração que comunicamos. o tempo que passamos juntos cura as feridas e as dores, como um beijo de mãe ou um pôr-do-sol no verão ou um sono embalado pelo som de um riacho. lembro-me tão bem do dia em que nos conhecemos, da primeira conversa que tivemos. e custa acreditar que tanto tempo passou. ao mesmo tempo, parece-nos improvável que não sejamos amigos desde sempre, desde a criação do universo. estás nas minhas orações, no meu sorriso, no calor que sinto no peito quando penso no que me faz feliz.
segunda-feira, 24 de Maio de 2010
pessoas
é difícil de acreditar que existe sofrimento, aqui à sombra dos pinheiros, perante o mar da palha, afagado pela brisa tépida, enquanto escuto címbalos e sons que o vento produziria se fizesse música e me distraio com a conversa de uma criança com a sua mãe. dir-se-ia que a terra, preguiçosa, deixou de girar e nem o dinheiro, que decerto desapareceu, conseguiria impôr-lhe algum movimento. uma moça bonita, de vestido curto, azul, e sandálias pretas, afasta-se e aproxima-se do namorado, mostrando-lhe as pernas e um sorriso interrogativo enquanto levanta o vestido e se afasta e abraçando-o com um beijo em salpicos, quando se aproxima. tem cabelo preto encaracolado e parece feliz. entretanto mais pessoas se aproximaram. deitou-se um rapaz perto de mim, depois de uma rapariga lhe tirar uma foto, em que eu talvez tenha sido incluído acidentalmente. Gabriel, não!, diz uma outra mãe a uma outra criança. Que idade tem?, pergunta a primeira mãe. Faz dois anos em julho. Sim, dá uma ao gabriel a ver se ele gosta, diz a primeira mãe à primeira criança. Ele já tem dentes? Sim, diz a segunda mãe. É bom, filho?, disseste obrigado? os teleféricos são silenciosos. lembro-me que pairam por cima de mim, porque lhes vejo passar a sombra silenciosa, sobre o Tejo. Olha, dá mais uma batata ao gabriel. tenho três manchas gordas, de chocolate, nas calças. formaram-se enquanto comia um gelado, de onde pingaram. tenho um pouco de vergonha de me levantar assim. umas minúsculas aranhas passeiam, apressadas, sobre o caderno. perto, alguns espanhóis matraqueiam o seu chorrilho de perro, baixinho, como se se esquecessem de ser como os ruidosos espanhóis do estereotipo. gosto desta cidade, deste rio, desta luz. de ver turistas europeus e asiáticos a passar, africanos e indianos a viver cá. é fácil acreditar que daqui saíram barcos para o fim do mundo, na esperança de empurrar o fim do mundo para mais longe, estendendo o espaço e ligando os povos. é difícil, dizia, acreditar que existe o sofrimento, o racismo, a violência. está calor e o dia sorri.
terça-feira, 18 de Maio de 2010
disponível para beijar
no inverno lamenta-se os amores perdidos, escreve-se cartas sem destinatário à luz da vela, escutando o uivar do vento, chora-se à chuva. fica-se ardendo, no silêncio ruidoso da solidão, como se ao nos consumirmos, consumíssemos a dor a que nos ancorámos. no inverno, borda-se a saudade, em cicatriz e infecção. no outono, há uma promessa de renovação, adivinhada no húmus e no orvalho. a nudez das árvores promete já o aconchego que ansiamos. é primavera e tenho sede. no voo das aves, vejo a leveza lúdica que me apetece. como espuma de ondas sem ritmo nem maestro, o meu corpo é atraído pela maré, impelido pela canção lunar que me aquece o sangue. vejo passarem outros corpos e sinto que é altura de voar. é tempo de perfumar o corpo de volúpia e alguma ferocidade florida. o sol namora a pele e as cores todas uniram-se para nosso assombro e deleite. há que deixar cair as roupas no chão como as folhas caíram no outono. é primavera e somos a saciedade uns dos outros.
sábado, 8 de Maio de 2010
o elogio dos amigos - afonso p
gosto das nossas conversas. de como tens os assuntos bem pensados. de como consegues ver e apresentar-me o contexto e as implicações do que discutimos. gosto de falar contigo sobre a vida, a indústria da música, o estado do jornalismo e as mulheres. tens essa abordagem às coisas humanas a partir do lado psicológico, comportamental, que, não sendo a minha e por isso mesmo, complementa e desafia a minha abordagem primária, física, animal. eu vejo a mente como algo de físico, que está alojado no cérebro. para ti a mente é mais do que uma série de processos fisiológicos, químicos, eléctricos. para ti o pensamento é um espaço de liberdade, de conflito e de energia criadora. é a morada do humano. creio que nunca ninguém me falou de Freud e de Nietzsche como tu. e estou certo de que há muito poucas pessoas cujas sugestões sobre música a ouvir eu leve tanto a sério. noutros tempos da nossa juventude, vivíamos os dois noutra cidade e ligavas-me, de vez em quando, para ir até tua casa, bebíamos umas cervejas e ias-me mostrando músicas. colocavas o CD e dizias, escuta, ouve esta canção, escuta com atenção. e eu escutava, sabendo que iria ouvir algo de espantoso. não separas a erudição, o intelectual, do prazer. e não creio que sejas hedonista ou epicurista ou adepto de qualquer outro ismo. antes vês a mesma beleza e a mesma flagrância do que é evidente e real numa passagem genial de um ensaio e num céu cheio de estrelas num acampamento. talvez a magia seja isso, a capacidade de a realidade nos surpreender e questionar até ao tutano das nossas certezas precisamente porque é real, por mais improvável e assombrosa que nos pareça. gosto da forma como falas da natureza, de como lhe vês, no que é telúrico e primordial, a nossa própria natureza. nos autores que lês, no alimento para o intelecto que procuras, não encontras afastamento dessa nossa natureza primordial. pensar não te distancia da vida e do concreto. é um regresso ao humano, um reconhecimento, uma descoberta do essencial, o que procuras e encontras. é disso que gosto muito em ti. a mente não é uma abstracção, um estéril campo de batalha feito de lógica e raciocínio. é o meio pelo qual contactamos com o mundo, transformando-o, é a nossa ferramenta mais íntima e poderosa e o lar da nossa personalidade. sinto que, ao me falares de uma exposição, de um objecto artístico ou da curva de um rio, dos lobos a uivar, me estás a falar de uma mesma coisa. estás-me a mostrar como a consciência não é, afinal, um fardo tão insustentável.
quinta-feira, 29 de Abril de 2010
quarta-feira, 28 de Abril de 2010
recordo esta formulação de há dois anos, que ainda mantenho
os meus princípios religiosos
com o Yahoo! Answers, vejo-me benignamente obrigado a expressar-me de forma clara. e como o faço em inglês, acabo por ser mais formal e estruturado do que seria, provavelmente, em português. o que é bom. tenho percebido que os meus princípios religiosos são simples e pouco numerosos. se os enumerasse, seria algo assim:
- o sofrimento existe e é possível lidar com ele
- ser feliz e ser bom são conceitos gémeos
- a felicidade dos outros é tão importante como a minha
- o amor liga-me a todos os outros seres, liberta-me do meu ego, ilumina-me
- amar = ser bom = ser feliz
- a lucidez é tão importante como a bondade
- a existência/inexistência do sobrenatural não é uma questão essencial, mas sou curioso
- a razão não é adversária das emoções, é o complemento, o árbitro, o botão de sintonizar
- a saúde mental e a saúde física são alicerces da saúde espiritual
Jericó e as vizinhanças da felicidade
"São Sete Voltas P´rá Muralha Cair", http://www.youtube.com/watch?v=1TtR5fVtXAs o episódio de Jericó e a sua lição para o presente.
A queda das muralhas de Jericó é 1 dos momentos nas narrativas bíblicas que mais gostei na catequese. a canção do Guillul seria mt bem-vinda
gosto muito da ideia de que andamos já nas imediações da terra prometida. e que com a oração, caem as muralhas e podemos entrar
claro que não vejo as orações como lengalengas da nossa aflição, como repetições de preceitos e regras nem como fórmulas pr' afastar o medo.
vejo as orações como conversas entre o nosso pensamento e o nosso coração, mantras íntimos que simbolizam e afinam a forma como vivemos.
sexta-feira, 23 de Abril de 2010
o elogio dos amigos - eva m
gosto de implicar contigo, tenho de admitir. demorei algum tempo a percebê-lo, porque nunca foi algo muito consciente. as tuas opiniões interessam-me. e se por vezes as tento contrariar com argumentos e outras futilidades, é porque lhes dou muita importância. interessa-me mais a pessoa que és, quero que saibas. és linda. e uma giraça, que não é propriamente sinónimo de linda mas também é bom. tens esse hábito que vens contrariando com eficácia intermitente, de chegar com um atraso elegante, suficiente para que todos possamos usufruir da tua entrada, vestida ao rigor que te apetecer, conforme o dia e a ocasião. gosto de como há uma sugestão de narrativa, nas roupas que escolhes. quando fomos à manifestação contra as touradas, a roupa e o penteado escolhidos tinham algo de sevilhana ou de noiva de toureiro, o que produzia um belo efeito de provocação estetico-política. gosto de quando vens vestida à amish-cool, que não é tão sexy como o teu figurino recorrente de eva emancipada do éden em fato de colegial, mas tem muito mais, como dizer, personalidade jurídica. tenho saudades das tuas histórias, das tuas personagens, que o curso com o valter me apresentou e que espero reencontrar desde então. duvido um pouco que não tenhas tempo nenhum para escrever. quero acreditar que seria possível permitires-te voltar a escrever, que encontrarias um pouco de tempo e motivação. gosto da forma como contas os filmes que viste. de novo, és imensamente narrativa, mesmo a contar os filmes que têm pouco de narração. penso que é esse teu olhar de menina que vê o mundo de uma forma científica. contas histórias como as crianças o fazem, quase a reinventar o mundo, fazendo-o evoluir com o motor do sonho e da imaginação, como no poema. e dás-lhe essa abordagem de análise e contexto, de hipótese comprovada, de relatório. fazes a ponte entre a matemática e a arte, como se uma fosse a linguagem da outra, o que é bonito e produtivo. gosto da tua companhia. uma vez, chegaste com a Maria, as duas deslumbrantes em início de noite, brilhando deliciosas nos vossos vestidos e trazendo no sorriso essa disponibilidade para o ócio que é tão boa de partilhar. trocámos de lugar, para que eu conduzisse o carro até ao porto. e, sem querer, o teu carro estava mesmo em frente ao café onde me conhecem de comprar tabaco. viram-me a entrar num carro com duas beldades e eu senti um orgulho imenso de rapaz armado em macho. o teu lado subversivo, ia mesmo dizer perverso, é divertido e pertinaz. talvez seja, no fundo, uma boa razão para gostares tanto de regras e de método. em cada lei, existe a possibilidade da sua transgressão. eu não sou muito de valorizar a moralidade nem, por consequência, a transgressão. mas a ti fica-te bem esse lado de pecadora que gosta de pecar, exactamente por não acreditar no pecado. ainda não te disse, mas gostei muito de te ver de sapatilhas no outro dia, caminhando sobre as ervas e respirando connosco o ar do monte. e, já te disse mas repito, ao ver-te em cima do cavalo, naquele memorável passeio pelo Gerês, compreendi e passei a admirar esse teu lado de princesa que nasceu fora de tempo.
quinta-feira, 22 de Abril de 2010
o elogio dos amigos - maria r
o teu sorriso, dir-se-ia, alimenta. como uma vitamina em estado puro e abundante concentração, ou a visão de um campo de flores ou de um pôr-do-sol em agosto. gosto de contar-te anedotas, de trocá-las contigo, como os miúdos trocam cromos. e sei que muitas vezes te tento impingir um cromo repetido. sabes, acho que és fotógrafa, mesmo quando não trazes a câmara. isto é um parêntesis. acabei de responder, enquanto escrevia, a uma sms tua, com um smiley. acho que foste a primeira e a única pessoa a dizer-me essa evidência, "tu usas e abusas dos smileys". talvez seja isso, e isto sou eu a fechar o parêntesis, o que quero dizer ao chamar-te de fotógrafa. és uma excelente detectora de evidências. sei que soa mal. mas há evidências que nem sempre se detectam e que são, precisamente, as que importa notar. a beleza de um objecto vista a partir de determinado ângulo. o movimento de um corpo, observado a partir da sua fixação num único momento. a forma como as cores se sobrepôem aos contornos, como os extravasam ou vincam ou os confundem. essas coisas que, numa fotografia, se tornam flagrantes, apenas desde que foram apontadas por um olhar atento. tens um desses olhares atentos de artista, que também os há de cientista e de comerciante. tens esse olhar que recria, anima, interpreta. és linda. sabes usar a roupa que escolhes. assenta-te como se o estilo te fosse muito confortável, como se os tecidos namorassem a tua pele e dialogassem com os músculos. e digo estilo à falta de melhor palavra. gosto das flores da tua roupa. e da forma como te mexes. gostava que publicasses poesia, que arriscasses escolher, organizar a tua poesia e fazer um livro. suspeito que não seria o único, bastava que começasses. já não te falo disso há algum tempo, parece-me. ainda não consegui explicar-me bem, quando me refiro a essa coisa da gramática e dos significados e da forma como dás a volta às coisas que as palavras sugerem, surpreendendo-me. no fundo, não faz sentido tentar transformar essa qualidade da tua escrita numa formulação. imagino-te a viajar pelos continentes e pelos mares, penso em ti dessa forma, ainda que falemos na esplanada da brasileira. tens a leveza dos viajantes, essa prontidão serena de quem não tem uma âncora ferrugenta a prender os pés. desde que te vi a saltar por entre o tojo, menina e gazela, quando o resto de nós já arfava de esforço, compreendi mais um pouco porque gosto tanto de ti. fazes a minha vida mais bonita e alegre. em ti é clara essa verdade fundamental das amizades: não importa muito o que fazemos, com quem dançamos, quanto bebemos, importa apenas estarmos juntos. e dito isto, fica a saber que hei-de dançar muitas danças bonitas em lugares especiais, ir a sítios longínquos e mágicos, beber coisas exóticas e deliciosas, ver o mundo e as pessoas que o habitam a teu lado.
quarta-feira, 21 de Abril de 2010
o elogio dos amigos - nuno g
gosto da tua liberdade comprometida. diria mesmo, engajada, se não fosse o medo de ser esse um adjectivo de origem espanhola. não fazes fretes, nem toleras tretas. não és rude, ainda que te ficasse bem. tens uma delicadeza do imediato, feita de coragem e humor. e fazes cara zangada se alguém estaciona a sua falta de civismo no quintal dos outros. gosto quando as tuas piadas falham, como aquela que improvisaste quando te apresentei um amigo, que agora também é teu amigo, dizendo que era um amigo do coração. e dissestes, como que para quebrar o gelo que não existia, "um amigo decoração?". gosto de ouvir-te falar dos discos que andas a ouvir, dos livros que andas a ler, dos filmes que têm deixado marca. e fazes da arquitectura uma coisa essencial, até para um leigo tão leigo como eu, quando a apresentas, no que te inspira. gosto muito muito de quando barafustas, enfrentando a ignorância ou a má vontade dos que não conhecem a matéria em questão tão bem como tu. um dia até vieste em meu socorro, entrando nos comentários de um blogue onde me acusavam de ser paneleiro, como se isso fosse insulto. não me defendi da acusação, nem tu, na verdade. mas mandaste vir, rosnaste em palavras que barbaridades são barbaridades e que devem ser digeridas e não vomitadas. um dia, vou andar num comboio, num percurso, que tu ajudaste a criar. e vou oferecer os teus livros aos meus filhos, quando tiverem idade, para que se iniciem na literatura portuguesa da melhor maneira possível. e vou, acima de tudo, jogar muitas vezes ao pião contigo.
terça-feira, 20 de Abril de 2010
diuscutir não é incutir
aceito o desafio. nunca mais discutirmos. vai ser difícil para mim. vejo as discussões como a forma de testar o que penso, como forma de detectar as falácias das minhas conclusões e de corrigir as falhas da minha argumentação. não dou grande valor às minhas ideias até que elas se confrontem com formas de pensar diferentes. sei que para ti uma discussão é uma zanga. e olha que eu também não gosto nada de zangas. e muito menos de berros e agressões. quando uso a palavra discussão, penso noutras coisas. para começar, nem acredito ser possível uma discussão a sério se os debatentes não se respeitarem, se não se quiserem ouvir, se abdicarem da honestidade intelectual - basta ver a maioria dos debates entre políticos. numa discussão a sério, existe coragem intelectual. exponho o que penso dispondo-me a ver a minha forma de pensar derrotada. exponho-me sabendo que pode ficar demonstrado que o que eu pensava era falso, errado, ridículo mesmo. mas nem é isso que importa. não importa ganhar ou vencer. é outra coisa em que pensamos de maneira muito diferente, minha amiga querida. não vi as vezes em que ficou claro que eu estava errado como uma derrota. se eu descobri que acreditava em equívocos, então saí a ganhar. queria que soubesses que não pretendi, nunca, demonstrar que havia menos legitimidade na tua opinião que na minha, menos valor na tua inteligência, menos autenticidade na tua forma de ver o mundo. tenho até dificuldade em perceber como se podem pôr as coisas dessa forma. eu aceito que estou errado em muitas coisas e que nas outras o meu entendimento é muito incompleto e deformado. aceito que é assim para a maior parte das pessoas. por isso incluo-te nessa dificuldade, que partilhamos, em perceber o mundo. o que importa numa discussão é essa inestimável oportunidade de entrar em diálogo, verdadeiro diálogo. evitar as discussões, quando há controvérsia e diferença, é preferir o monólogo do nosso isolamento, é decidir ficar no nosso cantinho sem que nos tirem o sossego ou que perturbemos o sossego alheio. eu não quero ficar no sossego do meu cantinho. respeito, obviamente, quem queira ficar no seu. aceito o desafio, repito. fui eu que o lancei. deve ter-te passado despercebido, mas disse e repeti que o aceito com bastante tristeza. vou tentar honestamente não discutir nunca mais contigo. e de cada vez que falhar, quero reparar na falha de imediato e travar a discussão logo à nascença, distinguindo o que me levou a falhar e evitando-o da próxima vez que falarmos. é triste, mas acho que vou conseguir. basta estar muito, muito atento a todas as conversas em que venha ao de cima uma das nossas discordâncias, que são muitas. sinto-me mesmo muito triste.
segunda-feira, 19 de Abril de 2010
carta aberta
querida arauta da primavera,
agradeço-te a forma como me fizeste despertar de alguma lassidão a que me vinha habituando. foi bom recuperar o gosto em me arranjar antes de sair de casa, retomar o hábito de ter a barba e o cabelo impecáveis, de sentir-me inteiramente confortável com a roupa e o calçado que escolhi. essa atenção comigo próprio renasceu e já não depende de ti. não ligo a essas coisas e ao valorizá-las estou apenas a valorizar-me a mim próprio. obrigado por este paradoxo que melhorou o meu humor e as minhas saídas. estou grato, de igual forma, por teres acendido a cidade, como a uma lâmpada que eu pensava fundida. já não é o mesmo percorrer braga. cada rua, cada café acende na minha emotividade memórias de histórias ou desejo de narrativas ainda por contar. na verdade, já vinha notando que passei a habitar, de facto, a cidade onde moro. mas graças a ti, esses afectos urbanos foram realçados.
custa-me a compreender o que se passou. ou melhor, sinto-me no escuro, quando tento adivinhar porque falhou a nossa aproximação. nunca esperei nada de ti. não quero nada que seja teu. apenas julguei que as nossas vidas se cruzariam, verdadeiramente. afinal, apenas passámos, muito rapidamente, um pelo outro. porque fico deste lado do silêncio, já sem esperar explicação ou conforto, aceito esta ignorância espinhosa. talvez tenhas pensado que me ias desiludir, que me magoarias por não corresponderes ao que imaginaste que eu queria que correspondesses. talvez te fosse desconfortável incluíres-me na tua vida, ainda que de forma discreta, sem que eu tomasse muito espaço. talvez estejas numa altura em que há muito a repensar, em que a vida se redefine ou sintoniza melhor. talvez haja, no teu coração, sentimentos contraditórios em relação ao que poderia ser a nossa história. talvez eu não te tenha agradado tanto como o gesto que nos aproximou subtilmente. ao falares comigo, se calhar pareci desinteressante e desatraente. e, por delicadeza, deixaste de me contactar, mantendo-me na ignorância do teu desinteresse por mim. talvez tudo isto não faça sentido. e simplesmente tens um ritmo próprio, sem a aceleração da pressa. talvez não queiras que avance depressa demais o que imaginas que possa avançar. ou talvez me queiras apenas como uma recordação bonita, a ideia doce e morna de um tipo que te escreveu umas coisas e ousou entregar-te um envelope.
sabes, evito perder-me em conjecturas. tal como reservava para os textos sobre ti o que a minha imaginação queria inventar, agora reservo para estes momentos palavrosos o que o meu coração quer imaginar que correu mal. na verdade, não posso jurar que alguma coisa correu mal. são doces as memórias dos momentos breves em que estivemos próximos. e as mudanças discretas que inspiraste vão-se tornando mudanças mais consistentes. não o deveria dizer aqui, mas apaguei tudo o que tinha, sms's e números de telefone. aceito a dissonância aparente dos nossos caminhos. achei que poderia dizer-te ou que adivinharias que a tua amizade seria bem vinda, que não formatei de nenhuma forma a relação que poderíamos ter. nunca disse que não a uma amizade. e nunca tive medo de me apaixonar. dispus-me a uma e outra coisa, contigo. e talvez nenhuma das duas se tenha concretizado, afinal.
para fechar este ciclo, falta-me entregar-te umas coisas. é uma prenda que transporto comigo, da qual já te falei, e mais umas coisas que preparei com carinho pensando que gostarias de as receber. não faço ideia se te esqueceste, se já não queres recebê-la ou se a pouca vontade de te encontrares comigo te impede de a receberes. sei que se me cruzar contigo, vou tê-la à mão, para te oferecer o que restou de uma quase-amizade, de uma proto-paixão.
acima de tudo, é importante que saibas que não sou de transformar emoções boas em ressentimento. não há nada que tenha amargado, nem o mel pode degenerar em veneno, nem um sorriso será recordado como um esgar trocista. tudo o que ficou é bom e luminoso. e o que nasceu daí é a importância que a tua felicidade tem no meu mundo de afectos. como a alguém muito querido, desejo-te todo o bem do mundo. não te desejo que cristalizes numa solidão romântica de donzela azarada. quero saber-te feliz e bem acompanhada. que a tua vida tenha amigos e amantes em abundância e qualidade que suplantem os teus melhores sonhos e que a tua vida seja um banquete chamado felicidade.
um abraço amigo feito de palavras,
nuno
melhorar o mundo, orgasmo a orgasmo
a cultura, a arte, o pensamento, a filosofia e até a religião, humanizam-nos, mais e mais, afastando-nos de uma animalidade perdida. sentimo-nos mais próximos de nós próprios, quando um livro, um quadro, uma peça de teatro nos comunica o que nem sabíamos procurar. tentamos compreender a vida à força de pensarmos muito nela ou de lermos e vermos o que outros sobre ela pensaram. complicamos tudo. insistimos em perguntar porquê. no fundo, não queremos saber porquê. nem sabemos bem o que perguntamos. apenas queremos ser sossegados, tranquilizados. como uma criança que pergunta aos pais porque é que as pessoas morrem. e não está à espera de compreender a morte, apenas de receber um abraço carinhoso, de ser reconfortada. até no sexo somos diferentes dos animais. há milénios que o estudamos. ligámo-lo à espiritualidade. abordámo-lo a partir da psicologia. e fomos insistindo com uma irritante eficácia nesse hábito de o vestirmos de tudo o que não está com ele relacionado. castigamos o parceiro, negando-lhe sexo, porque amuámos. premiamos o parceiro com sexo, porque ele finalmente nos concedeu um desejo. transportamos, celebrando, os nossos medos para o sexo. carregamo-lo com o peso dos nossos traumas, tornando-o um espaço de terapia fetichista. inventamos proezas, para as contarmos aos amigos, mas no fundo amedronta-nos a possibilidade de termos uma fraca performance. vemos o sexo como uma performance. falamos imenso de sexo, indo na corrente de uma sociedade hiper-erotizada que, no fundo, tem pouco interesse na prática do sexo, apenas na exploração do seu potencial simbólico. relacionamo-nos mal com o corpo, esquecendo-nos que o corpo é corpo e não a sua representação simbólica. o corpo não é imagem, fotogenia, imagem. é carne, músculos e ossos, força, agilidade e movimento. da mesma forma o sexo não é poder de sedução, estatuto, moeda de troca. o sexo é corpo, é diálogo entre corpos. numa espécie tão afundada em cultura, conceitos e abstrações, o sexo é a ligação mais directa e vigorosa ao concreto, à realidade. num beijo não interessam os conceitos sobre o beijo. nus, estamos despidos da personagem que costumamos construir com a roupa. a nudez partilhada e o sexo são uma oportunidade de deixarmos de ser apenas discurso e pensamento. um corpo amado, que nos deseja, a sua pele nua e os seus beijos dispensam e tornam ridícula qualquer pergunta que comece por "porquê". o prazer gerado a dois faz dos amantes artesãos da felicidade, construtores e habitantes da morada essencial do nosso ser: o corpo.
o músculo chamado coração
por vezes é assim. em pleno caminho cruzamo-nos com outra pessoa. porque vamos beber à mesma fonte, procurando revigorar a força que precisamos para caminhar, porque nos soube bem uma conversa depois de muitas luas em silêncio, porque no sorriso alheio vimos uma luz que nos apetecia receber mais um pouco, porque permitimos ao tempo que repousasse connosco, enquanto recuperávamos a força, porque parámos um pouco; por momentos a nossa vida esteve em contacto com outra. por vezes é assim, parece-nos que o encontro nos vai mudar de alguma forma. a conversa gera afinidade e a afinidade desperta o sonho. por vezes, acreditamos que o caminho fez sentido precisamente porque chegámos ali, àquele sorriso que ameaça deixar de ser desconhecido. por vezes pensamos que encontrámos alguma coisa. mas logo começa a anoitecer e há um caminho longo pela frente. evitando dramatismos, partimos sem despedidas. para trás fica o breve sonho, o vislumbre de felicidade. e depois de passar uma e outra estação, nem a nostalgia nos sobrou. continuámos caminhando, como que a fugir da estagnação. é o que fazemos agora, depois de enchermos os cantis, de lavarmos os pés do pó e a cara do sono, seguimos, cada um para seu lado.
sexta-feira, 16 de Abril de 2010
quarta-feira, 14 de Abril de 2010
ou procurar, b fachada, ou procurar
a vida é demasiado real para que prefira sonhar. à leveza erodida de um sonho, prefiro o sabor acre de um dia que anoiteceu cedo demais. sonhar é coisa que faço para que me seja mais fácil viver. não há conflito. desperto para entrar na lucidez. abrir os olhos sabe bem porque vejo o que não é construção minha. e que será o lar em que vivo, ampliando mais e mais a distância entre as paredes, sempre construindo e redecorando. a realidade é demasiado concreta para que prefira os conceitos que a namoram, os devaneios que a evitam. não entraste nas minhas fantasias, porque não o quis permitir. permaneceste real e distante. nos meus sonhos, de que sou pastor e artesão, consigo voar, modifico o espaço e o tempo porque me apetece, imaginar é fazer, nem respirar é necessário se assim me parecer mais agradável. em tal cenário do meu poder, a tua liberdade não existiria, possibilidade que me horroriza e põe alerta. de olhos abertos, tenho recebido a noite, com a sua luz em segunda mão, o sol dormindo do outro lado. os meus passos na cidade têm flutuado, como se as pegadas fossem bolhas de sabão desprendendo-se do arfar de um minotauro sonhando a sua feliz e impossível humanidade. as conversas, os aromas a primavera, o ar, tudo parece revestido de irrealidade e esperança. não sei que desejos me povoam os sonhos quando durmo, mas conheço bem os anseios do meu corpo acordado, as efabulações da minha mente. passeio-me assim pela paixão, cuidadoso para que o meu peso não destrua a jangada em que vagueio. ultimamente, sou leve e sorridente, como se desconhecesse a dificuldade de viver. fez-me bem alimentar-me desta forma dos frutos suculentos do enamoramento. agora, os músculos atrevem-se a nadar até à praia. não espero encontrar-te. essa fantasia em que não entraste, vejo-a, na sua precariedade, empurrada pela maré, confundindo-se mais e mais com o horizonte. os pés descalços demoram-se um pouco por aqui, descansando onde a espuma se oferece à areia. assim que o sol suba o suficiente, faço-me à estrada com o mapa da curiosidade e sede como bússola. imagino-te longe, a caminho de outra realidade: a tua. eu regresso ao leme da minha.
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