contigo, as palavras não me saem aos tropeções, escapam-me como se me esquecesse de toda a gramática. apenas emoção e impulso. claras e incendiadas, intensas mas ainda assim leves, como se nem o seu som eu pudesse prever. antes de qualquer pensamento, preso nos teus olhos, sai-me um disparate ou uma verdade emocional. e o meu desejo, ali, denunciado no meu olhar e nas palavras que não consigo evitar.
troblogdita
Domingo, 6 de Maio de 2012
Quarta-feira, 2 de Maio de 2012
ceci n'est pas une ode
"Todos os dias, tomamos o pequeno-almoço e saímos para escalar. Não fazemos mais nada.", tremi, ao escutar aquilo. A afirmação é de Daila Ojeda, num documentário sobre Chris Sharma. Na altura em que o documentário foi feito, estavam juntos há dois anos. Sharma dizia que, depois de tantos anos a viajar pelo mundo, a escalar em tantos locais diferentes, ter encontrado um poiso na Catalunha (que tem alguns dos melhores locais para escalada) tinha sido muito bom, agora tinha um lar. Saíam os dois, todos os dias. Quando um escalava, o outro segurava a corda, cá em baixo. Não sei o nome técnico para isso, mas pelo que pude ver no documentário, é um papel importante, quer em termos puramente técnicos e de segurança, quer pelo importante apoio psicológico. Este casal tinha uma vida bastante simples. Todos os dias saíam, para um dos diferentes 50 locais de escalada, na Catalunha, e eram o apoio um do outro, em terra, quando, à vez, um deles subia uma parede.
Imagino que uma parede, ao ser escalada, tenha imensos desafios. Sharma falou em três pontos essenciais: o ângulo da parede, o tamanho dos apoios para as mãos (quanto mais pequenos, mais difícil) e a distância dos apoios entre si (quanto mais afastados, maior a dificuldade). Há apoios tão pequenos que só há espaço para um dedo, há zonas numa parede em que só há mesmo um apoio e se fica, por instantes, pendurado por um dedo. Há paredes verticais, obviamente, mas há muitas zonas em que a parede faz um ângulo que cai sobre o escalador, obrigando-o a um esforço maior, para se suster, mesmo parado. Há apoios tão separados que os movimentos para passar de apoio em apoio têm de ser amplos, precisando o escalador de grande flexibilidade e, por vezes, de dar pequenos saltos, para alcançar o apoio seguinte.
Mas os desafios não se resumem a estes três pontos. À medida que se sobe, aumenta o cansaço, físico e mental. E a dor. Os músculos ficam invadidos de ácido lácteo. Os dedos, obrigados a suportar o peso do corpo, ficam doridos. O fôlego vai faltando. Torna-se mais fácil cometer erros. As dificuldades e os desafios técnicos dos três pontos referidos no parágrafo anterior agigantam-se. Cada escalador terá, também, as suas fragilidades, as suas dificuldades. E haverá pontos no percurso em que será necessário usar uma técnica, ultrapassar um obstáculo, enfrentando uma fragilidade conhecida. O desafio é, já escutei vários escaladores falarem disso, em grande medida, mental. Enfrentar a dor e o medo, manter a concentração e, acima de tudo, a lucidez, ter a noção dos limites físicos e do que se consegue fazer, sabendo bem o que é apenas um reflexo do medo que é necessário superar e o ponto em que seria já loucura não ter a coragem de engolir o orgulho e desistir, tudo isto se joga ali, longe do chão, numa situação em que a mente precisa de gerir um corpo bem treinado e nutrido que está a ser levado a um esforço extremo. Recentemente vi imagens e escutei as palavras de um atleta que juntou a escalada ao base jumping. Chama-se Dean Potter e tem feito escaladas com um paraquedas. Não faço ideia se é, no mundo da escalada, um nome conceituado (O Chris Sharma é consensualmente considerado um dos melhores de sempre e tem apenas 31 anos) mas gosto da sua ideia de juntar as duas coisas, para poder escalar paredes impossíveis, ainda que o resultado seja quase sempre uma queda, com paraquedas.
Quando, cá em baixo, a segurar a corda e a dar palavras de incentivo, está a pessoa com quem partilhamos a nossa vida, a escalada, sendo "a única coisa que se faz", é quase um resumo de toda a vida. Resumo não é a palavra adequada. Para aquele casal de escaladores, a escalada é mesmo a vida deles, sem figuras de estilo. Ando a ler a Genealogia da Moral, de Nietzsche, estou agora no terceiro ensaio. E ele parece ter uma visão muito crítica da vida ascética, da ideia de deserto e dos ideiais que andam à volta desse imaginário, que ele considera levar ao nihilismo. É como se tudo o que se possa fazer, longe do mundo, da sociedade, fosse, inevitavelmente, fuga. Ontem, a ver aquele documentário, estava a pensar nisso. Ali está um homem a escalar uma parede. Não está a produzir nada. Não está envolvido em nenhuma discussão sobre a sociedade. Está longe da cidade, a subir um calhau. Porquê e para quê? Estava ali a olhar para o esforço dele e achar aquilo a coisa mais bela e mais grandiosa e com mais sentido que se pode fazer na vida. Não de um ponto de vista estético, dos ideiais, mas do que se estava de facto a passar no corpo e mente do Chris Sharma, e no casal que ele e a Daila Ojeda formam. E, ao mesmo tempo, a perceber a naturalidade com que qualquer pessoa poderia dizer, muito razoavelmente, "isto é inútil, é um gajo a subir uma rocha, para quê?".
Enquanto pensava nisto, a Daila Ojeda, a segurar a corda, diz, "o Chris, quando escala, é um animal, toda a gente sabe que ele está a escalar, ele berra, salta, urra, é um felino, para mim, é como um tigre", disse-o com um sorriso firme, como uma constatação segura, de quem sabe que está com a pessoa certa, na sua vida. Aqui podemos vê-la a escalar, na sua própria animalidade felina. Não consigo ver isto, este reencontro com a nossa animalidade, como uma fuga. Este reconhecimento de algo que nunca, na verdade, deixámos de ser. Um bicho vigoroso, capaz de se mover com agilidade, tenacidade e uma ferocidade corajosa, digna, na face da dificuldade, um desejo de enfrentar o medo, de se superar, de cooperar, em casal, de conhecer os limites, mantendo ainda lucidez, não desistindo perante a dor e a fragilidade. Se as maquinações da sociedade são mais reais que isto, não sei. Podem ser mais úteis. Mas nem sequer as reconheço como necessariamente mais humanas. Para onde quer que se fuja estamos sempre connosco próprios. A nossa mente, o nosso corpo, vão sempre connosco. O Chris e a Daila, diariamente, enfrentam-se e vão-se conhecendo, na dureza concreta de cada desafio e na ternura amorosa de segurarem, um pelo outro, a corda que os liga à terra.
Quinta-feira, 26 de Abril de 2012
ir à Es.cola aprender Abril
Antes de começar a escrever, fui dar uma olhadela às notícias e fiquei triste, embora não muito surpreendido. A "Escola da Fontinha volta a ser entaipada", noticiou a Lusa. Aliás, agora que reflito um pouco nisso, o triste é que só havia uma notícia da Lusa, com copy e paste no site da RTP e noutro site. Ontem, dia 25 de Abril, havia câmaras fotográficas por todo o lado e câmaras de televisão, havia jornalistas e um interesse mediático numa "história" que estava ali à mão de se contar. Hoje, que havia de facto uma história à espera de se escrever, porque era previsível que a Câmara do Porto fizesse alguma coisa, foi a Lusa lá. E as redações, muito preguiçosamente, lá fizeram o seu copy paste. Imagino que à noite, ainda se mostrem, no noticiário as imagens do dia de ontem.
Não acompanhei o processo nem sei tudo nem sequer muito sobre o que está em causa. Simplesmente fui para o Porto, porque uma amiga, de outro país, queria celebrar o 25 de Abril comigo. Fez-me apanhar o comboio de Braga para o Porto, ontem. Ela sabia que havia um protesto da malta da Es.cola e estava genuinamente entusiasmada com a coragem e a determinação dos portugueses. Eu disse-lhe que gostaria que tivéssemos mais iniciativa e ela respondeu-me que talvez actos destes inspirassem outras pessoas. Ver alguém de fora a olhar de fora para o meu país e para os meus concidadãos foi importante. Ela comprou dois cravos e eu, pela primeira vez na minha vida, desfilei com um cravo na mão. Segui, com a multidão, até à Fontinha. A polícia não entrou no bairro.
Cruzei-me com conhecidos, com amigos, com colegas da faculdade, com todo o tipo de pessoas, uma amiga e colega da faculdade levava a filha de ano, ano e meio às cavalitas, vi dois ou três dos convidados das Conversas no Tanque lá, pessoas da vida da cidade. Não sei bem que imagem se tenta passar do movimento e da ocupação daquele edifício, mas posso atestar que as pessoas que ontem se juntaram ao protesto eram bem diversas. Imagino que no bairro haja opiniões divididas. Eu fui-me embora cedo, deviam ser uma 19h30 e enquanto lá estive não testemunhei nenhuma discussão ou conflito com os habitantes do bairro, nem nenhuma recepção eufórica. Algumas pessoas, à janela, à porta das suas casas, estavam visivelmente felizes, comovidas até, com a chegada da multidão, com a reocupação, mas eram pouco numerosas. Muitas talvez estivessem misturadas na multidão e eu não conseguiria distinguir quem era e quem não era do bairro.
A minha opinião, mesmo sem conhecer todos os pormenores, é simples. A explicação espero que também o seja. A Câmara exerceu a sua autoridade e expulsou pessoas de um edifício que não pertencia às pessoas que o ocupavam. Isto dito assim parece relativamente inócuo. A questão é que a Câmara, o Estado, todos os governantes, todas as instituições representam-nos, apenas. Não são, como no tempo das monarquias absolutas, nossos donos, nossos amos, nem nós somos seus servos. Cada pedaço de terra, cada edifício público, é nosso, de todos. É da nação, é dos cidadãos. Compete às instituições, aos governantes, fazer dos edifícios e de cada pedaço de terra bom uso, a favor dos cidadãos.
Aquele edifício não estava a ser usado. E houve cidadãos que, voluntariamente, sem esperar que o Estado fizesse o seu papel, trabalharam comunitariamente e desenvolveram algo a favor da comunidade local. Porque legalmente se levantam questões, é óbvio que pode haver conflitos, e uma ocupação gera problemas legais. Mas aqui, os governantes não podem simplesmente achar que a autoridade é um valor em si mesmo. Que se tem de exercer a autoridade só para dar o exemplo porque se isso não for feito então os cidadãos ainda pensam que são livres e que podem fazer o que bem entenderem. A autoridade implica responsabilidade. E quando é usada, principalmente quando é usada contra os cidadãos, restringindo liberdades, é porque algo mais importante está em causa. Neste caso, para expulsar aquelas pessoas, teria de haver um motivo importante para o fazer. Um uso urgente para o edifício, algo assim. E que fosse um uso mais importante do que aquele que estava a ser dado.
Quando se decide usar a força - quer força física, quer força legal, quer força moral -, é porque se chegou a um ponto em que não há outro meio a usar. E não acredito que ali se tenha chegado a esse ponto sem retorno. Não se estava a lidar com criminosos perigosos, com pessoas que estavam a fazer alguma actividade que punha em perigo a sociedade ou a comunidade em que se estabeleceram. Nem sequer, pelo que pude perceber, com pessoas completamente fechadas ao diálogo. A força foi usada, tudo indica, simplesmente para se mostrar que se tem força. Para se dar um sinal.
Foi tudo muito feio. Acusados de que só sabem protestar, de que já não têm ideologia, de que não têm iniciativa, de que não sabem trabalhar colaborativamente, de que esperam que o Estado faça tudo, estes portugueses deitaram por terra todas estas acusações, não com palavras mas com os seus actos, com o seu trabalho. E não se fecharam numa comunidade utópica, vivendo numa harmonia fechada, só deles. Foram para um bairro esquecido pela cidade, e trabalharam para a comunidade que ali vivia. Não esperaram subsídios nem apoios oficiais. Este tipo de tratamento das autoridades da cidade para a qual trabalharam gratuitamente é obsceno. E não há fuga possível à violência que foi exercida. Por muito que se procure escudar atrás da lei, dizendo mil vezes, o edifício não lhes pertencia, o poder, sr. Rui Rio, não lhe pertence. A autoridade, sr. Presidente, é-lhe atribuída por mandato, para servir o povo.
Segunda-feira, 16 de Abril de 2012
ainda que tentasse fugir-te
diz-me ao ouvido que não te importa o dia de amanhã. e agarra-me, com força. não me deixes fugir, para que ainda cá esteja amanhã. talvez nem seja necessário dizer muito. os beijos, sem ritmo de música e baralhando até o compasso da respiração, vão abolindo serenamente a sofreguidão das palavras. a música, podemos pedi-la emprestada. mostrar um ao outro que coisas andámos a ler, o que gostaríamos de escutar em conjunto, e dançar até no silêncio. ou esquecer, nestes primeiros momentos de revelação e euforia biológica, o que os lares têm para mostrar das vidas de cada um. simplesmente vaguear um pouco, à beira da luz, em direcção ao mar, ou perto de árvores, ou pelos cafés. temos o tempo todo que quisermos, como a uma ampulheta cuja única função é ser atirada ao chão, para lhe lermos os sinais oraculares na areia espalhada pelo chão. as dúvidas são pequenos demónios que podemos atrever-nos a espantar a dois. são bichos que mordem, é verdade, mas têm ouvidos sensíveis e não suportam o riso. quero que me conheças como a um corpo. com o teu corpo vivo, pensante. sabendo bem que não somos narrativas, nem ideias, nem a diplomacia precária com os outros, nem um desejo expectante de concretizar a nossa auto-imagem no futuro. somos estes corpos que também pensam. sem livros de instruções, sem peças nem maquinaria, por muito que se estudem dessa forma. quero, no fundo, que me recebas e me exerças, como a uma função não programada do teu próprio corpo, numa estranha fusão entre impulso e vontade. que o teu desejo seja o pensamento e o organismo bem cúmplices, a preparar todas as armadilhas para que eu não consiga escapar, mesmo que o desejasse.
Terça-feira, 27 de Março de 2012
sobre lugares numa esplanada
Se estamos sozinhos, a escolha de um lugar numa esplanada é reveladora. É, de facto, uma escolha. Escrevo este texto na esplanada da Brasileira, em Braga. E a minha escolha foi clássica. Estou numa das extremidades, virado para a Rua do Souto, de costas para o resto da esplanada. É como me sinto mais confortável, ignorando toda ou grande parte da esplanada. Duas outras escolhas clássicas, pelo que tenho notado, são, para muitas pessoas, um lugar num canto, virado para o resto da esplanada, ou um lugar no meio, onde já estejam muitas mesas ocupadas. Há os que parecem sentir-se confortáveis numa posição em que conseguem observar toda a gente mas nem toda a gente os consegue observar. E há os que dão a ideia de que se sentem melhor se se misturarem, para poderem passar despercebidos.
Isto tudo noto melhor quando estou num grupo. Sozinho, gosto mais de ver as pessoas que passam na rua e esquecer-me de quem está nas mesas. Muitas vezes, há poucas escolhas. A mesa que me calha está numa configuração menos favorável. Como leio, acima de tudo, e escrevo, às vezes, são só os momentos iniciais que custam, como se o lugar estivesse demasiado exposto ao sol, ou estivesse vento demais. Em grupo, basta que haja cadeiras em número suficiente. Havendo escolha, escolhe-se o melhor lugar, serenamente. Mas o critério terá mais a ver com conforto e conveniência.
Acho muito interessante esta variabilidade das aptetências goemétricas. Haverá, não duvido, quem simplesmente se sente. Mas talvez essa segurança ou indiferença se deva a uma ainda maior sintonia e precisão. Talvez essas pessoas nem precisem de pensar ou escolher o melhor lugar. E para elas seja algo imediato e natural, "aqui está o meu lugar". Algumas pessoas serão mais seguras da sua individualidade do que eu, que me sento de costas, ou do que os que se sentam no canto, ou do que os que se tentam misturar. Alguns, creio, onde quer que se sentem, não se sentem mesmo ameaçados. Nem pela sua solidão, nem pelos números dos seus vizinhos. E simplesmente sentam-se, e são vizinhos e sozinhos. E tão indivíduos. Sem que isso ameace ninguém.
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