No últimos dias tenho andado de bicicleta. Fico feliz com isso. No inverno sou o que, no mundo do ciclismo, se designa pelo nome técnico de, digamos, mariquinhas. Caem dois pingos de água e eu volto para trás e deixo a bicicleta em casa. O que significa que no Inverno, com os primeiros dias seguidos de chuva, acabo por abandonar a bicicleta. Quando não é da chuva, acaba por ser do frio. Ando feliz por ter voltado a pegar na bicicleta e sinto-me grato por ter dias seguidos de um inverno solerango e macio.
A minha bicicleta é uma bicicleta de 180 euros, da marca da Decatlhon, com amortecedores à frente e atrás, uma bicicleta de montanha, embora dizê-lo assim, bicicleta de montanha ou btt, talvez seja lisonjeiro. Quando fui à inauguração da Velo Culture, (a loja fabulosa que o Miguel Barbot abriu recentemente) estava a falar com uns amigos sobre as bicicleta utilitárias e disse algo que, ao escutar-me a mim próprio, me pareceu bizarro. Disse que gosto muito do estilo e que reconheço as qualidades e a eficência de uma bicicleta como esta ou esta, mas que a minha bicicleta de uso diário continuaria a ser a que tenho actualmente, ou uma do mesmo género mas melhor. Que para um uso muito específico, como ir ao pão, ou fazer um percurso em cidade em que o essencial fosse a eficiência, usaria uma bicicleta dessas (imaginando que teria dinheiro para adquirir duas), mas que para o uso diário iria preferir uma bicicleta de montanha com amortecedores à frente e atrás. Isto é absurdo.
O mais razoável é que uma bicicleta para um uso utilitário, para ser usada diariamente como transporte na cidade, seja mesmo uma bicicleta eficiente, sem amortecedores, leve, de pneus finos e com algumas adaptações (que dependem apenas do gosto de quem a usa) para conforto e conveniência, como guarda-lamas ou cestos de transporte. Uma bicicleta como a minha é que tem um uso específico, circunscrito, sai-se com ela quando se vai praticar desporto, ou se vai pedalar em terreno acidentado. Mas, a esta distância da conversa que tive, o que é curioso é que mantenho o que disse e apercebo-me que estou muito longe de ser um ciclista utilitário.
Sempre que pego na bicicleta - e isso ainda não se tornou algo frequente -, o que acontece emocionalmente, mentalmente, é que se acendem todas as memórias e todos os dispositivos mentais que fazem ligação com as horas que passei em cima de uma bicicleta, no passado. E que tiveram dois tipos de uso e de ambiente: lúdico e desportivo. Em criança a bicicleta era um brinquedo e durante a adolescência tornou-se uma ferramenta desportiva. Hoje, assim que desato a pedalar, sinto-me a praticar um desporto e também numa actividade lúdica. Mesmo quando ia para o emprego, vestido já com as roupas de trabalho e no trânsito matinal, era-me impossível não sentir a satisfação de miúdo que sempre senti numa bicicleta. No final de um passeio que subitamente percebo que é alto demais e não tem rampa, simplesmente salto. Eu, ao contrário de um ciclista utilitário, quando vejo que um passeio vai terminar assim, procuro-o, em vez de o evitar, porque vai dar um bom salto. Obviamente que um ciclista utilitário com uma preocupação activista nem sequer anda em passeios, quero deixar claro que tenho noção disso.
Andar na cidade com a minha bicicleta, pelo menos por enquanto, é sentir que estou a percorrer um excitante campo de obstáculos. E os obstáculos são um desafio divertido, fazem parte da satisfação de pedalar. Quando penso na palavra eficiência, quando penso na eficiência que quero na minha bicicleta penso em versatilidade. Quero que a minha bicicleta se adapte a todos os tipos de pisos, que não fique danificada com um simples salto se eu encontrar um desnível de 30 centímetros, ou se, porque não sou nenhum artista das duas rodas, não conseguir evitar embater contra uma lomba ou um passeio, e não quero sentir que a bicicleta se desfaz se descer uma rua de paralelo com velocidade. E quero poder, a qualquer momento, passar do asfalto para a terra, para terreno com buracos. O meu ideal de bicicleta é, tem sido, nos últimos 20 anos, a bicicleta que tenho, com amortecedores atrás e à frente. Comprei esta, curiosamente, entusiasmado pelos meus amigos que usam a bicicleta diariamente como transporte. Mas quando fui a uma loja, nem me passou pela cabeça comprar outro tipo de bicicleta.
Na minha cabeça a bicicleta é algo de romântico, que me traz liberdade, me amplia a capacidade de mover através do espaço. Quando pedalo não sinto que estou em cima de um meio de transporte, como num carro ou num comboio. Um comboio quer-se confortável, amigo do ambiente, eficiente. Os transportes, sim, penso neles como eficientes, a todos os níveis. Só muito recentemente percebi que há milhões de pessoas que pensam na bicicleta nesses termos. Pensava que só os ciclistas desportivos e os fabricantes de bicicletas é que pensavam na performance e usavam essa linguagem. Eu sempre vi a bicicleta como um meio de exercer esforço e, até, um pouco longe desse conceito da eficiência. Na minha adolescência, sempre que pegava na bicicleta o que eu fazia com ela deixava-me por vezes próximo da exaustão - e absolutamente feliz. Quando comprei esta, foi ainda quando estava em processo de emagrecimento (agora estou mais ou menos estabilizado, embora queira perder mais uns quilos). E quando pensei que os pneus grossos e nada lisos iriam aderir ao asfalto e torná-la mais lenta e os amortecedores iriam criar um balanço nada eficiente, rapidamente fiz uma habilidade lógica para desculpar a minha compra ilógica - "porque vou ter de me esforçar mais, gasto mais calorias, e isso ainda é melhor, faço mais exercício". Estou longe, em resumo, de ver a minha bicicleta como um meio de transporte. Vejo o facto de ela me transportar como uma imensa vantagem. Pego nela porque me divirto imenso, porque me faz sentir bem. Poder sentir o que sinto, a caminho do sítio para onde tenho de ir, é um privilégio.
É com alguma preocupação mas também sem grande alarme que vejo que não estou, por vocação, em sintonia com os meus amigos mais activistas nisto do uso consciente da bicicleta. Partilho das suas preocupações em relação à mobilidade das pessoas e eles contribuíram muito para a minha educação quanto ao que pode ajudar à melhoria da qualidade de vida nas cidades. Sei que procuram promover o uso das bicicletas, e um uso cívico e informado, porque conhecem o bem que fez, noutras cidades de outros países, que uma boa parte da população urbana adoptasse a bicicleta como meio de transporte principal. Eu, que sou dono de um veículo de duas rodas sem motor, para já, ainda sou como um puto a quem deram um brinquedo.