Sexta-feira, 3 de Setembro de 2010

crescer também é coisa de adulto

há uns anos, perguntava um entrevistador a António Damásio, seguindo o raciocínio do neurologista, "então pode dizer-se que estamos programados para a felicidade?". Damásio respondeu com a ponderação cautelosa de um cientista, "eu não usaria a palavra felicidade, que não é propriamente um conceito que eu use, em termos científicos; mas diria que estamos predispostos para uma forma concreta e verificável de bem-estar". num apontamento biográfico sobre Gautama, o Buda fundador do Budismo, li que ele trouxe algo de novo ao seu tempo. na altura a tradição bramâne, entre outras, acreditava que a forma de a mente/alma/espírito se libertar era libertando-se do corpo. o corpo era visto como um empecilho, um peso a amarrar-nos ao chão, a impedir-nos de atingir a elevação espiritual. assim, eram comuns práticas de mortificação do corpo. jejuns prolongados, que poderiam durar toda a vida, vários tipos de privação física, incluindo até mutilações, eram meios que se usavam para a libertação dessa âncora obstinada chamada corpo, que precisava de ser vencida, para que o espírito pudesse chegar a alto mar, ou a uma almejada ilha-nirvana. com o budismo, veio a noção de que o bem-estar físico é algo de essencial; mais: que as práticas que levam à emancipação em relação ao sofrimento, à equanimidade da mente, ao equilíbrio espiritual e à conquista de lucidez e sabedoria, são também práticas que promovem e asseguram o bem-estar físico. 

o efeito das endorfinas, da oxitocina, as mudanças que ocorrem no corpo quando rimos, a forma natural com que procuramos o calor, o conforto, a tranquilidade, tornam fácil de acreditar que estamos mesmo predispostos para o bem-estar. o que não é o mesmo que falar do apelo do prazer físico. comer muito, coisas muito calóricas, beber muito, ficar embriagado, entre outras actividades, pode levar ao prazer, mas também pode causar o contrário do bem-estar: a dor, a náusea, a falta de lucidez e equilíbrio. como o bem-estar físico é proporcionado por substâncias como as endorfinas, é fácil preferir o prazer intenso ao bem-estar sereno. é como se parecesse pouco ambicioso sentir um pouco do efeito das endorfinas, quando se pode sentir muito o seu efeito. como se sentir o calor do sol na pele fosse muito inferior a sentir um orgasmo. há ainda a dizer que na busca do prazer, nem sempre se procura sensações que poderíamos considerar como bem-estar muito intenso, ou a amplificação do bem-estar. por vezes o que se procura é simplesmente sensações fortes. o medo e a dor, a confusão e a desorientação, são também emoções que procuramos, com regularidade. muito longe da noção "aborrecida" de bem-estar, procuramos emoções fortes, que nos sobre-estimulem. talvez, como acontece com as drogas, a partir de determinada altura a intensidade do estímulo tenha de subir, para que as sensações continuem a ser suficientemente satisfatórias. talvez haja outras razões mais importantes. o que me parece essencial é a noção, difícil de aceitar, de que devemos aprender o que desejar, que nem sempre temos a intuição, ou os sentidos, afinados para detectar "o que é bom para nós".

às vezes sinto que somos demasiado condescendentes e apologéticos em relação a nós próprios. quando somos crianças, parece natural que sejam os pais a ensinar à criança o que comer, quanto comer, como comer, como comportar-se, o que é saudável, o que é desejável e o que não é. mas em adultos, como passamos a ser responsáveis por nós mesmos e já não são os pais a orientar e educar-nos, fica um vazio. não porque necessitássemos de alguém que continuasse a ensinar-nos como viver, mas porque parece que deixa de fazer sentido ou ter utilidade educarmo-nos ou aprendermos. é óbvio que uma criança tem (quase) tudo a aprender, que os pais têm um papel fundamental ao fornecer aos filhos ferramentas e conhecimentos, orientações e todo o tipo de ajuda para estes se desenvolverem de forma saudável e vigorosa. mas não é nada óbvio (para mim) que um adulto já não precise de aprender, de se desenvolver. nem acredito que haja algum momento da vida em que se possa dizer, "pronto, cheguei, já não há nada de muito importante a aprender." é curioso verificar como nos desembaraçamos de muito (im)pertinentes perguntas de crianças sobre o comportamento dos adultos, "mãe, porque é que o tio fuma?, disseste que fumar é muito perigoso, que faz mal à saúde e se pode morrer mais cedo e sofrer muito"; "porque é que aquele senhor está a gritar e a dizer asneiras? ele não sabe que não se deve falar assim com as pessoas?". eu lembro-me muito bem de ouvir respostas em criança como, "nuno, os adultos às vezes também fazem asneiras". para mim era um conceito revolucionário, a ideia de que os adultos faziam tudo aquilo que a mim não me era permitido, que eles faziam e repetiam tudo o que eu aprendi que era errado. eu acreditara, até aí, que a diferença entre mim e os adultos era que eles estavam sempre certos e eu fazia muitas asneiras. era tão difícil corresponder às exigências dos adultos, como se eu estivesse num plano inferior, dependendo de recriminações e vigilância a todo o momento. havia um temor em relação à autoridade dos adultos, que me impedia de fazer coisas que eles me tinham avisado para não fazer. depois, na adolescência, passei a ver o chegar da vida adulta precisamente como uma procuração, um reconhecer público da minha autoridade em causa própria, da absoluta autonomia da minha vontade, da minha irrevogável liberdade de fazer o que bem me apetecia, incluindo o que os outros poderiam considerar  errado e mau. 

vejo a educação que os pais dão a um filho como orientações gerais, mas muito concretas, sobre o que é mais saudável e desejável. é como se lhe abrissem caminhos que são, segundo o entendimento dos pais sempre limitado pelo seu contexto cultural e circunstancial, os mais seguros, os melhores. a educação é muitas vezes chamada de preparação, de preparação para a vida adulta. talvez devêssemos reflectir melhor sobre o conceito preparação. e ser menos adolescentes na maneira como encaramos a vida adulta, essa entrada nas delícias da liberdade pessoal. dizemos muitas vezes coisas como "ele já tem idade para ter juízo" para recriminar uma decisão ou um acto alheios, ou a insistência de alguém em "não entrar nos eixos", mas também para nos demitirmos de interferir ou desenvolvermos algum tipo de opinião mais controversa. é como se disséssemos "ele é que sabe". ora eu defendo que cada um de nós, a maior parte das vezes, "não sabe". o facto de estarmos, ao que parece e o Damásio sugere, predispostos para o bem-estar, o conforto físico, o equilíbrio, é um bom sinal de que, mesmo sem termos alguma figura parental, algum tipo de autoridade que nos condicione e oriente, é possível chegarmos lá mais ou menos sozinhos. digo mais ou menos porque me parece um desperdício ignorar o que outros descobriram ou a contribuição das pessoas que nos rodeiam. digo sozinhos porque ninguém vai fazer o trabalho por nós, as nossas decisões são sempre nossas, nosso fardo, nossa responsabilidade, são sempre a nossa liberdade, concretizando-se.

Quinta-feira, 26 de Agosto de 2010

saúde sexualmente transmissível

sexual healing, conforto, desafio, prazer, partilha de vulnerabilidades, fusão e harmonia de vontades, luta benigna, espiritualidade material, o sexo é a actividade humana com o maior potencial de liberdade e pura alegria; é ainda uma das actividades mais propiciadoras de contacto íntimo, de diálogo, de comunicação. comunicação que não depende de nenhuma aptidão especialmente desenvolvida em relação à linguagem, nem nenhum tipo de grau académico ou nível superior de inteligência, nem qualquer tipo de estatuto ou talento especial. é também um terreno que abre espaço à partilha de emoções. e é aí que muitas vezes as coisas se complicam. que bom seria se, pelo menos a maior parte do tempo, estivéssemos simplesmente atentos ao nosso corpo, sentindo com ele o bem-estar que lhe oferecemos, que bom podermos fazer nascer emoções do conforto e do prazer físicos, do concreto do momento presente, e não do sótão dos nossos fantasmas. como somos bichos possessivos, complicados e complicadores, temos inseguranças, medos que aprendemos a transformar em armas contra os outros; produzimos inveja, raiva e ciúme, como laboriosas fábricas de ressentimento e culpa. ora, seria demasiado ingénuo pensar que nada disto polui, infecta o sexo. 

despirmo-nos, algo tão simples.  devolve-nos a nós mesmos, ao que somos e temos verdadeiramente, sem o conforto simbólico, sem a protecção, sem a encenação que a roupa nos proporciona. despir esse tecido, essa máscara de aconchego e projecção do ego, é regressar ao nosso corpo, de facto, sem qualquer metáfora. a evolução da nossa espécie, pelo menos por enquanto, ainda não nos fez nascer já vestidos. mas comportamo-nos como se a roupa fosse não uma segunda pele, mas a nossa pele principal, aquela que escolhemos, cuja composição e harmonia é da nossa responsabilidade e, por isso, tão absolutamente nossa. não escolhemos a cor da pele ou dos olhos, a altura, os sinais que temos na pele. mas podemos escolher a roupa que usamos, podemos esculpir personagens, tornando-nos marionetas de nós mesmos, bonequinhas em tamanho real, vestidas a preceito, que nos representam. é divertido fazê-lo, confortável. há quem o faça com abundante elegância. há por aí muito charme, muita personagem interessante, muita roupa a assentar lindamente na pessoa que a escolheu vestir. mas melindra-me pensar que isso possa ocupar demasiado espaço, ser importante demais. fico triste com a ideia de que nus nos sentimos despidos não das roupas, mas de nós mesmos, como se tudo o que é personalidade, individualidade, estivesse contido na roupa que tirámos, como se a pele nua fosse um uniforme de carne que nos tornasse cruel e implacavelmente iguais. fico muito triste com essa ideia.

no sexo, despimos, se o autorizarmos a nós próprios, ainda mais do que a roupa. porque muito do que se passa, na permuta de sensações, na sintonia fina das várias danças, na escuta e execuções dos vários andamentos, muito do que se vai aprendendo, sugerindo e aprimorando, não é verbal. ou porque demasiado subtil para a filigrana matemática da linguagem ou porque feito de matéria tão absolutamente diferente do que é significável que não o conseguimos traduzir em semântica nenhuma. gradualmente, ou de súbito, defesas e armas de complicar caem pelo chão, permitindo uma escuta mais próxima, mais atenta, como se entrássemos por um mapa adentro, em descida gradual, ou súbita, percebendo que a costa de um continente não é suave como nos parecia olhando do meio das nuvens, mas está cheia de reentrâncias e saliências, de detalhes agora visíveis; descemos, ou algo sobe até nós, e vamos vendo ilhas onde nos parecia haver só mar, distinguimos as árvores da rocha, a água do gelo. enquanto percorremos com dedos, língua e atenção o corpo do amante, topógrafos em estado de graça calcorreando mapa ignoto para os não iniciados, um outro mapa se vai tornando visível. o que somos vai perdendo não só as roupagens, mas as escamas, as crostas, a sujidade, as ligaduras e a imprecisão de miragem própria de quem vê de longe ou vê no sítio errado.

no corpo um do outro, os amantes podem perder-se, abandonar-se. ao mesmo tempo e reciprocamente. e, maravilha das maravilhas, ao contrário de quem se dispa das roupas publicamente, quem despe roupa e alma e vê e sente corpo e alma do amante sem roupas nem máscaras, em vez de ficar despojado, fica revestido. revestido de uma luz que amplifica a luz do sol sobre a pele. quando não temos mais nada a perder, mais roupa para tirar, mais medos para nos aterrorizar, mais defesas para nos esconder, somos livres. não se trata da liberdade-acto, nem da liberdade-atitude e nem vale a pena entrar na liberdade-carácter. trata-se da liberdade mais primitiva e primordial, mais pura e menos manipulável, menos motivo para ostentações e orgulhos. a liberdade de não nos termos de esconder nem disfarçar, de sermos, finalmente, o que somos. o sexo é, acredito, uma oportunidade e uma via para experimentarmos essa liberdade mais imediata e saciadora em segurança. dois amantes, inteiramente vulneráveis, nos braços um do outro, experimentam a maior das defesas: serem o tesouro um do outro.

O humanismo de Ursula K. Le Guin #2

Filha de um antropólogo e de uma escritora, Ursula K. Le Guin tem, creio não constituir grande ousadia ou originalidade dizê-lo, a humanidade como tema central da sua obra. As várias espécies humanas, descritas no seu Hainish Cycle, representam as diversas questões e os diversos ângulos que as suas histórias nos apresentam como essenciais, ao olharmos o ser humano com atenção e detalhe. Às histórias de Earthsea não me vou referir, visto que li apenas dois romances dessa série.

Em "The Left Hand of Darkness", passado em Gethen, os humanos são hermafroditas. Os gethenianos  entram periodicamente em kemmer, uma espécie de cio em que se tornam temporariamente macho ou fêmea. Na presença de um indivíduo em kemmer, outro indivíduo que esteja a entrar em kemmer assume o género contrário, porque o seu corpo detectou as feromonas que accionam a mudança. Alguns gethenianos nascem macho ou fêmea, ou melhor, estão a vida toda em kemmer, com o mesmo sexo. Constituem uma pequena minoria. São considerados anormais, olhados com desconfiança e desprezo, vistos como pervertidos e perigosos, arrumados para papéis na sociedade em que estorvem pouco, se é que chegam a ter algum papel. Tal como nós olhamos tendencialmente com desconfiança e preconceito os hermafroditas e os transgéneros em geral. Nessa história, Ursula K. Le Guin, atira-se para um "tought experiment" em que as noções de masculinidade e feminilidade, o papel da sexualidade na vida social e tudo o que tem a ver com o género é testado, questionado num contexto aparentemente improvável e desligado da nossa realidade. Diz a autora, no texto que introduz a história, "Yes, indeed the people in it are androgynous, but that doesn't mean that I'm predicting that in a millennium or so we will all be androgynous, or announcing that I think we damned well ought to be androgynous. I'm merely observing, in the peculiar, devious, and thought-experimental manner proper to science fiction, that if you look at us at certain odd times of day in certain weathers, we already are. I am not predicting, or prescribing. I am describing. I am describing certain aspects of psychological reality in the novelist's way, which is by inventing elaborately circumstantial lies."

Em "The Dispossessed" ficamos a conhecer os Cetanianos. Este habitam dois planetas: Urras e a sua lua, Anarres. Depois de uma revolução, que teve lugar uns 200 anos antes e foi liderada por uma mulher, Laia Asieo Odo, os anarquistas chegaram a um acordo com os capitalistas. Uma colónia Odoniana foi estabelecida em Anarres, até então desabitado, separando os revolucionários da restante população. Ambas os planetas prosperam, à sua maneira. Urras, como a Terra, está constantemente em guerra, com uma série de países a competir pelos recursos. Existe uma economia de mercado fulgurante e muitas vezes implacável. Anarres consegue estabelecer uma sociedade igualitária, mesmo com muito menos recursos naturais que o planeta à volta do qual orbita, dando primazia à cooperação segundo um modelo que poderíamos chamar de anarco-sindicalista. Um cientista de Anarres, Shevek, é autorizado a viajar até Urras, algo que não acontecia há muito tempo. Os habitantes de cada um dos planetas consideram os habitantes do outro como sendo atrasados e bárbaros e preferem que não haja qualquer tipo de contacto, porque acreditam no perigo de contaminação ideológica e inevitável corrupção de costumes. Shevek assume a vontade de acabar com a separação, acreditando que a ciência e a razão poderão suscitar o entendimento. Ele terá, não digo qual porque desejo que leiam a história, um papel preponderante no fortalecimento dos laços de todos os planetas dos Ekumen.

No conto "The Matter of Seggri", é descrita uma sociedade em que existem 17 mulheres para cada homem. Uma frase curta do romance, resume os papéis. "Men get all the priviledges, whomen get all the power"; espero que a citação de cor esteja correcta. Os homens não têm instrução, as mulheres sim, e bastante elevada mesmo quando comparada com as civilizações que fazem parte dos Ekumen. Tudo o que é ciência, intelecto, poesia, é "coisa de mulher". Os homens vivem juntos, competindo eternamente em desportos violentos, a que as mulheres assistem, escolhendo parceiro sexual ou campeão que as engravide. Para ter sexo e/ou engravidarem, as mulheres vão até uma "fuckery" onde pagam para se deitarem com um homem. Apenas os que se distinguiram são enviados para as fuckeries e o preço de cada um varia muito, consoante a procura e o seu estatuto de campeão nos vários desportos a que se dedicam os homens. Uma mulher velha e sábia explica a um observador dos Ekumen que não é bom que os homens percam tempo em estudos e assuntos intelectuais, isso enfraquece-os, fá-los perder a masculinidade, o vigor. Apenas as mulheres são consideradas capazes de amor, de se apaixonarem. Quando um certo homem diz que quer ser uma esposa (wive), é ridicularizado - não existe palavra para marido, ele é gozado porque casar é coisa de mulher; as mulheres casam-se entre si, os homens são apenas parceiros ocasionais e doadores de esperma.  Em "Solitude", outro conto de "The Birthday of the World", de novo a separação entre homens e mulheres. Cada pessoa vive sozinha. As mulheres em agrupamentos de casas, em pequenas aldeias, em que partilham  uma  ou outra actividade comunitária, mas vivem o mais possível de forma solitária, não entrando nunca uma mulher adulta na casa de outra mulher adulta. Os rapazes neste planeta, Eleven Soro, à semelhança do que acontece em Seggri, são expulsos da convivência com as mulheres que os criaram (em Seggri, aos 11 anos, em Eleven-Soro por volta dos 15), para irem viver com os outros homens. Vivem em grupos ou sozinhos e são recebidos à pedrada, se tentam entrar nas aldeias onde vivem as mulheres. Já em O, tudo se torna mais complexo e interessante. Existem, usando a nossa terminologia, quatro sexos. Os casamentos, chamados sedoretu, têm dois homens e duas mulheres. Começando pelo princípio e tentando ser claro, cada humano é de um tipo-casta-género de entre dois, ou Morning ou Evening. A população divide-se,  em partes aproximadamente iguais, em cada um dos dois grupos. Existem, então, homens Morning, mulheres Morning, homens Evening, Mulheres Evening. Cada pessoa mantém o tipo-casta-género da sua mãe. Uma mãe Morning dá à luz filhos e filhas Morning, uma mãe Evening, filhos ou filhas Evening. Não existe qualquer julgamento em relação à homossexualidade, que tem exactamente o mesmo estatudo da heterossexualidade, sendo parte de todos os casamentos. Mas é considerado sacrilégio o sexo entre dois Morning ou entre dois Evening. Cada sedoretu tem um homem Morning, uma mulher Morning, um homem Evening e uma mulher Evening. Não é esclarecido se existem e quais serão as diferenças fisiológicas entre os Morning e os Evening, mas é sugerido que se consegue distinguir uns dos outros, simplesmente olhando para eles, mesmo vestidos. Não existe qualquer privelégio ou desvantagem em se ser Morning ou Evening. O casamento dos ki'O é feito, segundo eles, por quatro uniões, que ligam os quatro membros do casamento entre si. O casal homem Morning com mulher Evening chama-se Evening. O casal homem Evening com mulher Morning chama-se Morning. O casal homem Morning com homem Evening chama-se Nigth e o casal mulher Evening com mulher Morning chama-se Day. Cada um tem o seu quarto, é referido um ditado popular que diz de algo que não tem pernas para andar que é como um sedoretu com apenas 3 quartos. É complicado de explicar e as relações são de facto complicadas. Casar, constituir um Sedoretu, é difícil. É preciso que quatro pessoas se entendam, se sintam minimamente atraídas entre si (o que implica que se sentem atraídas por uma mulher e por um homem) e consigam cooperar. Nos locais com pouca população, em que escasseia a escolha, é ainda mais difícil.

Os tought experiments de K. Le Guin são terreno de experimentação sobre o género, as relações de poder, a política, a organização da sociedade, a história, a civilização. Longe, muito longe do "wish fulfillment" e da ficção de "wray gun" que ela critica, a sua escrita é, como diz Mary Doria Russel, citada na edição de "The Birthday of the World" que estou a ler, «an antropology of the imagination». Não existem julgamentos sobre as soluções de cada civilização descrita. Nisso, a figura dos Hain (e da liga de Ekumen) é preciosa. Os Hain deram origem a todas as civilizações humanas (colonizaram dezenas de planetas, aos quais voltam passados milénios ou milhões de anos). São um povo ancestral e sábio. Quando entram em contacto com um planeta, pela primeira vez, seguem uma política rigorosa de não intervenção. Eles já viram e fizeram tudo, todas as atrocidades e todos os prodígios de que os humanos são capazes, esse povo que viaja a uma velocidade próxima da velocidade da luz, que olha com benevolência e uma muito ampla noção de espaço-tempo  para as civilizações que cresceram sem a sua presença. Quando as visitam, é com um olhar de historiador e académico e com uma verdadeira obsessão em registar e estudar tudo, para que se torne parte do imenso património histórico da(s) humanidade(s). A imparcialidade, assim, é colocada como fardo aos ombros dos Hain, habilidade muito bem engendrada pela autora. Aos lermos as várias histórias dos vários povos, com os seus erros, os seus crimes, sentimo-nos próximos de cada um. É difícil dizer, "que costume bárbaro, como é que alguém é capaz de fazer isto?", sem nos questionarmos a seguir se, na verdade, não fizemos já pior. Não somos Hain. Somos humanos. Temos de errar e crescer sozinhos. Aprender a custo, sobreviver à nossa própria capacidade de destruição. Estranhamente, os livros do Hainish Cycle parecem ensinar-nos a, pelo menos, reconhecermos alguns dos erros mais comuns ou mais graves. É como se, sendo produto da imaginação, fosse de facto antropologia o ofício de Ursula K. Le Guin.

Quarta-feira, 25 de Agosto de 2010

o beijo e o acasalamento

alguém me falou ou li algures (logo, o que direi a seguir tem pouco fundamento) sobre uma das possíveis explicações para este hábito humano de nos beijarmos na boca. talvez as origens do beijo na boca estejam relacionadas com o hábito de cheirar a boca, o rosto, o hálito de outro indivíduo, como acontece com outros mamíferos, como o cão. cheirar a boca, ou seja, cheirar o hálito de um possível parceiro sexual, seria uma forma de detectar algum problema de saúde que se manifestasse em hálito menos fresco. os cães, além de cheirar o hálito de outros cães (e dos humanos com quem vivem) também se lambem, num acto que às vezes designamos precisamente por beijar, dar beijinhos, na nossa compreensível lamechice antropomórfica. vários povos têm cumprimentos específicos, como esfregar a testa, esfregar os narizes, tocar testa com testa, nariz com nariz. tudo gestos que poderiam vir do mesmo hábito que terá dado origem ao beijo na boca. a proximidade dos rostos, das bocas, permite que se verifique o hálito alheio. porque os avisos nos inícios dos textos são facilmente esquecidos, relembro a falta de fundamento para o que escrevo. e deixo o link para o wiki em inglês sobre o beijo, que não refere a explicação para a origem do beijo que aqui exploro.

acho demasiado interessante esta possibilidade de explicação, para que me sinta melindrado por uma frivolidade como a falta de fundamentação científica. ando a ler muita ficção científica, por isso a minha imaginação está bem nutrida e fulgurantemente activa. a nossa boca, os lábios, a língua, são de uma sofisticação deliciosa. a quantidade de músculos e de sensações envolvidas num beijo na boca são impressionantes. se não for verdade que pelo menos parte da origem do beijo na boca seja a necessidade de averiguar a saúde e consequente elegibilidade de um potencial parceiro sexual, o sucesso desta complexa troca de fluídos e sensações talvez deva muito às outras formas de se avaliar a competência alheia para os afazeres do acasalamento. dificilmente, penso eu, acasalamos com alguém cujos beijos na boca não nos agradam. facilmente pomos de parte alguém cujo hálito nos seja insuportável. mas mais rapidamente ainda rejeitamos quem nos "beija mal". há, no acto de beijar na boca, uma tão imensa profusão de subtilezas, de pequenos e maiores movimentos e atitudes, uma tão complexa sinfonia de elementos conjugados com ritmo, melodia, progressão, harmonia, capacidade de surpreender, uma tão inefável forma de comunicação, que ficamos a saber muito sobre a nossa compatibilidade ou o nosso desejo de sermos compatíveis com quem nos beija.

o beijo na boca é, para a maior parte dos povos em que é reservado aos amantes (há culturas em que é usado como cumprimento entre amigos e/ou familiares), uma forma de confirmarmos a intimidade física com o parceiro. um casal que continua a beijar-se depois de anos de vida em comum, é visto, geralmente, como um casal que manteve e desenvolveu essa e outras intimidades - costumamos dizer, para simplificar, "continuam apaixonados". há todo o tipo de beijos na boca, entre amantes. os cumprimentos de "cheguei a casa, olá", de "vou partir, então, com saudades tuas", de "tens toda a razão, amor", de "foi por esse sentido de humor que me apaixonei", de "podes contar comigo", de "bom dia, dormiste bem?". há os beijos mais demorados e fogosos, com que surpreendemos o parceiro, quando ele esperava apenas um beijo-cumprimento rápido e seco. há os beijos-sedução, com que procuramos apelar à libido do parceiro, para que as roupas caiam e toda a pele fique disponível para os lábios. há ainda os beijos-territoriais, que alguns dão para mostrar a terceiros que já existe acasalamento e é melhor manterem-se longe. há os dentes, as gengivas, a saliva. há os beijos que gravitam à volta da boca, no pescoço, nas faces, na nuca, nos lóbulos. há os beijos que migram, desde o meio do corpo até aos lábios a norte, trazendo o sabor a sal e a cio às duas bocas. há o sabor e o cheiro do ar, à volta dos lábios quentes de beijar, há o hálito, os hálitos misturados, o nosso próprio cheiro no lábio superior do amante, que sentimos nas narinas com prazer. há os beijos sessenta e nove, cada um com o sexo do amante na boca, sentindo no seu corpo o prazer que se instiga no outro corpo. os beijos invertidos, lábio superior com lábio inferior do amante. os beijos roubados. beijos furtivos. beijos debaixo de água, em cascata, no duche, à chuva. beijos no mar, salgados. beijos a seguir ao banho, beijos no banho. quase que acredito que poderíamos prescindir da linguagem verbal, desde que mantivéssemos os beijos. e, pensando melhor, talvez não fosse boa ideia: de que outra forma, além do uso de palavras, nos poderíamos consolar da saudade de beijar na boca?

Sexta-feira, 20 de Agosto de 2010

O humanismo de Ursula K. Le Guin #1

No seu Hainish Cycle, Ursula K. Le Guin apresenta-nos um tempo e um espaço em que os Hainish, uma raça ancestral de humanos - na verdade, os humanos originais -, se apresentaram às restantes raças. Hain é uma civilização com muitos milhões de anos. Todo o tipo de guerras, de sistemas políticos, de conflitos e de soluções foram experimentadas. Nos vários livros que compõem a série, ficamos a conhecer alguns planetas e seus habitantes de entre os que acabarão por pertencer à League of Worlds, refundada como Ekumen. Esta liga, fundada pelos Hainish, pretende unir todos os humanos, de entre mais de 80 planetas. Foram os Hainish os primeiros humanos. Há muito tempo atrás, espalharam-se por outros planetas, para além do seu planeta de origem. Os terráqueos são um de entre muitos grupos de descendentes da linhagem Hain. Durante milénios, milhões de anos, os Hain deixaram que as civilizações se desenvolvessem sozinhas, sem intervenção. Num ou noutro planeta, a população que os Hain estabeleceram era produto de engenharia genética, como no caso dos hermafroditas do planeta Gethen.

Nos livros, ficamos a conhecer a forma como os Hain se apresentam aos seus "filhos". Primeiro enviam ao planeta observadores que, durante algum tempo, registam todos os dados relevantes sobre as civilizações que o habitam. Aprendem a(s) língua(s) e os costumes dos habitantes e enviam relatórios extensos e detalhados. A seguir, e podem passar dezenas ou centenas de anos até este próximo passo, enviados dos Hain desembarcam no planeta já previamente estudado. Apresentam-se às autoridades. Tentam, com todas as dificuldades óbvias, explicar que vêm da parte de um povo chamado Hain, que há muito tempo atrás, colonizou o planeta em questão e que agora volta, para estabelecer laços e formar alianças. À medida que os Ekumen se desenvolvem, os Hain fundam escolas nos planetas que já fazem parte da liga, centros de treino, onde se aprende a língua Hain e a história dos vários planetas habitados e das várias culturas humanas. Nesses centros, são formados e treinados observadores e enviados. Assim, em Gethen (onde se passa "The Left Hand of Darkness) e em Aka (onde decorre "The Telling"), o enviado dos Hain é terráqueo, treinado pelos Hain, para ficar ao serviço dos Ekumen.

À semelhança do que ocorre na Terra, nos outros planetas habitados por humanos, as mesmas questões se colocam em relação à gestão dos recursos naturais, às guerras, aos sistemas políticos. Quase todos os planetas se debatem com problemas, com os grandes problemas da humanidade. Os Hain têm uma filosofia, uma política de não intervenção. Mesmo quando chegam a um planeta e o sistema político vigente é uma ditadura, não intervêm. São historiadores compulsivos, laboriosos, obcecados. Querem registo de tudo o que é humano, todas as línguas, todos os traços culturais, todas as pequenas e grandes histórias de todas as civilizações. Além disso, partilham todo o conhecimento científico e tecnológico que acumularam ao longo de milhões de anos. Isso fez com que, em alguns casos, houvesse planetas que passaram de um estado pré-industrial para uma era em que existem naves espaciais, em relativamente pouco tempo. Algumas culturas conseguiram adaptar-se melhor do que outras a mudanças tão drásticas e aceleradas.

A partir da altura em que se passam os eventos narrados em "The Dispossessed", a humanidade (e relembro que humanidade, no universo de K. Le Guin, significa o conjunto de todas as civilizações humanas em todos os planetas habitados) passou a dispor de um aparelho de comunicação assombroso, que mudou tudo. O ansible, com direito a Wiki e tudo e já usado e referido por outros autores noutros romances, permite a comunicação através de grandes distâncias (milhares de anos-luz) de forma instantânea, quando até aí todas as comunicações eram lentas - uma resposta poderia demorar a chegar 50, 100 anos e mais. Muda a comunicação, pondo em contacto toda a humanidade, que ocupa um espaço-tempo de muitos anos-luz, podendo as naves em viagem comunicar com qualquer um dos planetas habitados e qualquer um dos planetas habitados contactar qualquer um dos outros, em tempo real. Não muda a relativa lentidão das viagens. As viagens interestelares  são realizadas em naves denomidadas pela sigla NAFAL (Nearly as Fast as Ligth). Mas mesmo quase à velocidade da luz, tudo é distante, em relação ao tempo de vida de um humano. Em "The Telling", Sutty, a enviada dos Hain, chega a Aka e descobre que, aparentemente, tudo o que tinha aprendido sobre aquela civilização tinha sido abolido ou destruído. Especialista em literatura e linguística, Sutty tinha estudado durante anos a escrita ideográfica Akaniana, a sua poesia, a sua cultura. Tinha aprendido a língua. Quando chega ao planeta, um regime totalitário estava no poder há muitos anos, tendo abolido as línguas antigas, substituindo-as por Dovzan, a língua do regime, todos os livros tinham sido queimados e a escrita ideográfica tinha sido proibido, sendo adoptado um alfabeto. Além disso, quando Sutty parte em viagem, sabe que não voltará a ver os pais. Mesmo se para ela só se passarem meia dúzia de anos, entre a viagem de ida e o regresso, na Terra terão passado muitas dezenas de anos.

Esta dimensão temporal, que aumenta o espaço de acção humana, muda a forma como as pessoas encaram a vida. Como no caso de Sutty, o tempo de uma vida humana é ínfimo comparado com o tempo de uma viagem, de uma civilização, de uma história. Mas é talvez por isso mesmo que a vida humana, a vida de um humano em particular, passa a ser mais do que a quantidade de anos vividos. O facto de um humano poder viajar para um planeta distante e regressar a casa e ver que passaram trezentos anos e tudo mudou, faz com que as acções humanas ganhem outra perspectiva. Um regime político autoritário que dure dezenas de anos, por exemplo, deixa de parecer tão absoluto. Duzentos, trezentos anos são um instante. E agora, pela primeira vez, os seres humanos podem experimentar esse instante. Podem viajar, colocando-se num tempo diferente, podem regressar e ver como, de facto, se tratou de um instante o que lhes parecia absoluto, quase eterno, ao saírem. Os Hain há muito que se habituaram a ver os acontecimentos, a civilização, com esta perspectiva maior. E é algo que todas as civilizações humanas podem experimentar, à medida que se vão aliando aos Ekumen e tendo acesso à tecnologia que lhe permite viajar grandes distâncias, viajar "no tempo".