Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012

as minhas duas rodas

No últimos dias tenho andado de bicicleta. Fico feliz com isso. No inverno sou o que, no mundo do ciclismo, se designa pelo nome técnico de, digamos, mariquinhas. Caem dois pingos de água e eu volto para trás e deixo a bicicleta em casa. O que significa que no Inverno, com os primeiros dias seguidos de chuva, acabo por abandonar a bicicleta. Quando não é da chuva, acaba por ser do frio. Ando feliz por ter voltado a pegar na bicicleta e sinto-me grato por ter dias seguidos de um inverno solerango e macio.

A minha bicicleta é uma bicicleta de 180 euros, da marca da Decatlhon, com amortecedores à frente e atrás, uma bicicleta de montanha, embora dizê-lo assim, bicicleta de montanha ou btt, talvez seja lisonjeiro. Quando fui à inauguração da Velo Culture, (a loja fabulosa que o Miguel Barbot abriu recentemente) estava a falar com uns amigos sobre as bicicleta utilitárias e disse algo que, ao escutar-me a mim próprio, me pareceu bizarro. Disse que gosto muito do estilo e que reconheço as qualidades e a eficência de uma bicicleta como esta ou esta, mas que a minha bicicleta de uso diário continuaria a ser a que tenho actualmente, ou uma do mesmo género mas melhor. Que para um uso muito específico, como ir ao pão, ou fazer um percurso em cidade em que o essencial fosse a eficiência, usaria uma bicicleta dessas (imaginando que teria dinheiro para adquirir duas), mas que para o uso diário iria preferir uma bicicleta de montanha com amortecedores à frente e atrás. Isto é absurdo.

O mais razoável é que uma bicicleta para um uso utilitário, para ser usada diariamente como transporte na cidade, seja mesmo uma bicicleta eficiente, sem amortecedores, leve, de pneus finos e com algumas adaptações (que dependem apenas do gosto de quem a usa) para conforto e conveniência, como guarda-lamas ou cestos de transporte. Uma bicicleta como a minha é que tem um uso específico, circunscrito, sai-se com ela quando se vai praticar desporto, ou se vai pedalar em terreno acidentado. Mas, a esta distância da conversa que tive, o que é curioso é que mantenho o que disse e apercebo-me que estou muito longe de ser um ciclista utilitário.

Sempre que pego na bicicleta -  e isso ainda não se tornou algo frequente -, o que acontece emocionalmente, mentalmente, é que se acendem todas as memórias e todos os dispositivos mentais que fazem ligação com as horas que passei em cima de uma bicicleta, no passado. E que tiveram dois tipos de uso e de ambiente: lúdico e desportivo. Em criança a bicicleta era um brinquedo e durante a adolescência tornou-se uma ferramenta desportiva. Hoje, assim que desato a pedalar, sinto-me a praticar um desporto e também numa actividade lúdica. Mesmo quando ia para o emprego, vestido já com as roupas de trabalho e no trânsito matinal, era-me impossível não sentir a satisfação de miúdo que sempre senti numa bicicleta. No final de um passeio que subitamente percebo que é alto demais e não tem rampa, simplesmente salto. Eu, ao contrário de um ciclista utilitário, quando vejo que um passeio vai terminar assim, procuro-o, em vez de o evitar, porque vai dar um bom salto. Obviamente que um ciclista utilitário com uma preocupação activista nem sequer anda em passeios, quero deixar claro que tenho noção disso.

Andar na cidade com a minha bicicleta, pelo menos por enquanto, é sentir que estou a percorrer um excitante campo de obstáculos. E os obstáculos são um desafio divertido, fazem parte da satisfação de pedalar. Quando penso na palavra eficiência, quando penso na eficiência que quero na minha bicicleta penso em versatilidade. Quero que a minha bicicleta se adapte a todos os tipos de pisos, que não fique danificada com um simples salto se eu encontrar um desnível de 30 centímetros, ou se, porque não sou nenhum artista das duas rodas, não conseguir evitar embater contra uma lomba ou um passeio, e não quero sentir que a bicicleta se desfaz se descer uma rua de paralelo com velocidade. E quero poder, a qualquer momento, passar do asfalto para a terra, para terreno com buracos. O meu ideal de bicicleta é, tem sido, nos últimos 20 anos, a bicicleta que tenho, com amortecedores atrás e à frente. Comprei esta, curiosamente, entusiasmado pelos meus amigos que usam a bicicleta diariamente como transporte. Mas quando fui a uma loja, nem me passou pela cabeça comprar outro tipo de bicicleta. 

Na minha cabeça a bicicleta é algo de romântico, que me traz liberdade, me amplia a capacidade de mover através do espaço. Quando pedalo não sinto que estou em cima de um meio de transporte, como num carro ou num comboio. Um comboio quer-se confortável, amigo do ambiente, eficiente. Os transportes, sim, penso neles como eficientes, a todos os níveis. Só muito recentemente percebi que há milhões de pessoas que pensam na bicicleta nesses termos. Pensava que só os ciclistas desportivos e os fabricantes de bicicletas é que pensavam na performance e usavam essa linguagem. Eu sempre vi a bicicleta como um meio de exercer esforço e, até, um pouco longe desse conceito da eficiência. Na minha adolescência, sempre que pegava na bicicleta o que eu fazia com ela deixava-me por vezes próximo da exaustão -  e absolutamente feliz. Quando comprei esta, foi ainda quando estava em processo de emagrecimento (agora estou mais ou menos estabilizado, embora queira perder mais uns quilos). E quando pensei que os pneus grossos e nada lisos iriam aderir ao asfalto e torná-la mais lenta e os amortecedores iriam criar um balanço nada eficiente, rapidamente fiz uma habilidade lógica para desculpar a minha compra ilógica - "porque vou ter de me esforçar mais, gasto mais calorias, e isso ainda é melhor, faço mais exercício". Estou longe, em resumo, de ver a minha bicicleta como um meio de transporte. Vejo o facto de ela me transportar como uma imensa vantagem. Pego nela porque me divirto imenso, porque me faz sentir bem. Poder sentir o que sinto, a caminho do sítio para onde tenho de ir, é um privilégio.

É com alguma preocupação mas também sem grande alarme que vejo que não estou, por vocação, em sintonia com os meus amigos mais activistas nisto do uso consciente da bicicleta. Partilho das suas preocupações em relação à mobilidade das pessoas e eles contribuíram muito para a minha educação quanto ao que pode ajudar à melhoria da qualidade de vida nas cidades. Sei que procuram promover o uso das bicicletas, e um uso cívico e informado, porque conhecem o bem que fez, noutras cidades de outros países, que uma boa parte da população urbana adoptasse a bicicleta como meio de transporte principal. Eu, que sou dono de um veículo de duas rodas sem motor, para já, ainda sou como um puto a quem deram um brinquedo.

Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2012

falar demais, escrever de menos

Há uma solidão que é irremediável. Não havendo cura, há um paliativo: a escrita. Falo naturalmente muito. Em alturas em que escrevo pouco, falo demais. Esta solidão de que falo não tem a ver com estar-se só, com o abandono, com falta de amigos ou de companhia. E, no fundo, há um conflito interno que alimento: gosto dela, tenho-lhe afeição, mas quero acreditar que tem cura. Escrever é, ao mesmo tempo, alimentá-la e tentar derrotá-la.

Isto de querer ser escritor é, creio, querer ser lido. Quando digo que falo demais quando ando a escrever pouco é porque, creio, ando em fase em que tenho poucas oportunidades para me expressar. O que tenho dificuldade em explicar, nesta minha solidão, é que, mais importante do que as ideias que eu tenha para expressar, é a vontade, o impulso, a necessidade de me expressar. Isso faz toda a diferença. Numa conversa equilibrada, num diálogo com um amigo, os dois falamos e escutamos, damos e recebemos. Quando alguém tem o infortúnio de me apanhar numa dessas alturas em que estou verborreico e carente, eu só quero dar, quero expressar. E apenas isso: expressar, nada em particular - embora fale de coisas muito específicas.

Num diálogo produtivo as duas pessoas querem transmitir mensagens específicas, geralmente com simplicidade, há menos ruídos, e os dois escutam-se. Mas, no fundo, a linguagem verbal é o menos importante. O que quer que digam, por palavras, são as emoções, os gestos, o tom de voz, as expressões faciais que estão realmente a comunicar. E dizem, tenho empatia por ti, escuto-te, sinto o que estás a dizer, escuta-me, percebo-te, isso tem piada. Passam mensagens muito simples, de teor sobretudo emocional, empático. Já num dos meus monólogos que despejo sobre alguém, o que quero transmitir é sobretudo a urgência que tenho em me expressar, é, no fundo, uma mensagem muito simples, preciso de dizer coisas, estou só, quero gritar, não ando a escrever e sinto que vou rebentar, não tenho quem me ouça, estás aqui à minha frente e não me aguento. Mas, o que acontece é que, ao contrário de um diálogo, em que há empatia e toda a linguagem não verbal liga as duas pessoas, perde-se essa ligação. A pessoa à minha frente está a enviar-me sinais de que não está interessada, através dos gestos, e emocionalmente não estamos em sincronia. O que passa é apenas verbal - com um  reforço emotivo, pela intensidade com que digo as coisas -, e trata-se de uma divagação minha sobre determinado tema. Para a outra pessoa é, penso, aborrecido e irritante e até bizarro que um tema, por vezes um tema claramente menor, possa provocar-me tão grande excitação. E a intuição dessa pessoa está correcta.

O que me tem faltado é simples. Escrever. Acredito, quero acreditar que esta solidão, que se trata de saber que nunca, nunca terei um interlocutor, tem cura. Como todas as carências, o que é necessário é tratar de mim, para que eu deixe de sentir essa carência. E não ver a carência como se fosse uma sede natural e eu precisasse realmente de beber. Ou seja, eu, na verdade, por muito que me custe, por enquanto, aceitar isso, não preciso realmente de um interlocutor. Preciso é de crescer, para que não haja um turbilhão de ideias em guerra dentro de mim e a minha mente seja um lugar tranquilo de onde possam erguer-se pensamentos límpidos. A dificuldade que sinto é que me agradam estas tempestades mentais. A solidão de navegar através dessas tempestades é agreste, é verdade. Mas ainda tenho apego a uma ideia romântica de mim enquanto o escritor solitário que enfrenta o fardo e pensa o mundo, carregando o mundo turbolento do seu pensamento. Tenho medo de que se acabe a solidão e também o vento que impulsiona a vela. E fique o barco parado no meio de um belo mar calmo e desolado.

Terça-feira, 27 de Dezembro de 2011

desporto, competição e arte

Quem já me ouviu falar do que gosto muito no desporto, provavelmente já me ouviu falar do Chinlone, que é o desporto nacional da Birmânia. É um caso de estudo interessantíssimo para o contexto desta crónica. É que trata-se de um desporto de equipa com bola, com mais de 1500 anos, sem competição. Não existe equipa adversária. E não existe pontuação, nem vencedores, nem vencidos. As equipas sucedem-se, mas não existe nenhum sistema de classificação, que determine que uma equipa teve uma performance melhor que as outras. Este vídeo é um excerto do filme Mystic Ball, documentário sobre este desporto, e dá uma ideia sobre o tipo de movimentos dos praticantes e sobre a dinâmica que se estabelece entre os elementos de uma equipa.

Eu não tenho, espero, a atitude desconfiada e moralista de quem considera o desporto de competição inferior ao desporto que é praticado por outras razões. No surf, por exemplo, existe a expressão "soul surfer", amplamente discutida e rejeitada por muitos, para referir os que supostamente praticam surf por amor ao mar e à modalidade e por uma vocação quase espiritual, por oposição aos surfistas profissionais, "vendidos" ao circuito competitivo, aos patrocinadores e às exigências do calendário e dos sistemas de pontuação e de classificação de manobras e estilo. Eu, ao falar aqui de competição e de não-competição, não quero ir por aí. Da boca de surfistas que admiro, como o Laird Hamilton, que menciono muitas vezes, já escutei várias vezes que esse preconceito não faz sentido. Ele já surfou várias vezes com o Kelly Slater e com o Rob Machado (dois nomes grandes do circuito profissional) e garante que são dois surfistas apaixonados pelo mar e tão "soul surfers" como ele ou qualquer amante do mar e que o facto de competirem, no caso deles, permite-lhes fazerem o que mais gostam de fazer na vida.

O Chinlone faz a ligação entre as artes marciais e os desportos de bola com equipa, que, nos dias de hoje, geralmente nos apresentam alguns dos atletas mais bem preparados, quer a nível físico, quer a nível mental, quer táctico, quer ao nível dos automatismos de equipa. Nas artes marciais, também encontramos atletas de um nível físico e mental excepcional. O que geralmente acontece é que não é necessário nenhum estímulo competitivo (no sentido de haver campeonatos organizados) para que surjam atletas com esse nível excepcional. No futebol, no basket, no râguebi, o que dizemos - e penso que com alguma razão - é que campeonatos competitivos produzem mais talento e estimulam bons níveis técnicos; sem eles não teríamos atletas como o Cristiano Ronaldo ou o Michael Jordan. No caso do Chinlone há uma ponte. Porque, embora não haja pontos, classificação, nem vencedores e vencidos, os praticantes estão expostos ao nível dos melhores. Já nas artes marciais, o caminho, a progressão, é mesmo individual. É uma aprendizagem de disciplina, de esforço do indivíduo, em que existe o apoio dos companheiros e a orientação do mestre, mas em que não é o ambiente competitivo (e muito menos o apoio dos adeptos ou a esperança do reconhecimento e da glória) que estimula o crescimento técnico. E a excelência acontece. Os melhores das artes marciais surpreendem-nos, mostram-nos que o corpo humano é capaz de coisas impensáveis.

Aqui interessam-me sobretudo as pontes. No surf, no skate, nas duas rodas, existem imensas pontes entre as competições e o que os praticantes fazem fora das competições. Uma competição tem sempre limitações. Já o disse, não vou falar de purismos, de vender a alma a patrocinadores. É mais do lado técnico. Quando se tem de inventar uma forma de classificar e atribuir uma pontuação a movimentos que começaram por ser muito livres, como movimentos com uma prancha de surf ou de skate, ou movimentos com uma bicicleta, está-se a condicionar o que o atleta vai fazer. Quando se tem uma estrutura e uma filosofia em termos de pontuação, todo o treino e a evolução técnica dos atletas é orientada para se encaixar nessa estrutura. No documentário Dogtown and Z-boys, sobre a equipa de skaters Zephyr, dos anos 1970, é possível ver esse choque. Essa equipa reinventou o skate, ou quase se poderia dizer inventou o skate como o conhecemos hoje. No documentário podemos ver como foram recebidos os seus movimentos inovadores nas primeiras competições em que participaram. Tiveram pontuações péssimas, eram vistos como miúdos que não entendiam o que eram o skate e não queriam dar-se ao trabalho de fazer o que os melhores da actualidade faziam. As pontuações que recebiam (a princípio) eram de esperar. Não havia forma de classificar os movimentos que tinham inventado (e que agora são os movimentos clássicos do skate). O que eles trouxeram para as competições foi fruto de várias coisas: da sua experiência como surfistas - por isso andavam a tentar surfar no asfalto -, da sua experiência de andar de skate em condutas de água, na rua em em todo o tipo de percursos urbanos e de uma cultura de andar sempre com a prancha de skate e de um certo espírito competitivo entre eles, que os fazia querer apresentar aos colegas um movimento inovador. O que levaram às competições foi inteiramente novo. Não tentaram fazer os movimentos para os quais já havia nome e classificação - antes levaram o que tinham desenvolvido eles mesmo na sua experiência de skaters e - isto é muito importante -, cada um deles tinha uma técnica muito distinta, algo muito marcado numa altura em que a modalidade estava a dar os primeiros passos. 

Nestas modalidades de perícia individual isto está sempre a acontecer. E.até é bom que os puristas dêem crédito às marcas. São os patrocinadores que ajudam, muitas vezes, a que isto aconteça. São eles que produzem vídeos, a anunciar um novo modelo de patins em linha, ou de sapatilhas para skate, ou de bmx, ou que pagam mesmo uma viagem ao Alaska, para a sua equipa de snowboarders ir descer uma encosta, ou uma semana numa montanha para a sua equipa de btt ir fazer freeride. Isto, que para as marcas é promoção, para as modalidades é ouro. Nestes fins-de-semana, nestas saídas, tal como em todos os momentos não patrocinados, e em todos os casos em que os atletas sem patrocínios (e até com dificuldades económicas) não estão a competir, é tudo liberdade e expressão. Surgem movimentos novos, que não são apenas, mas também são, manobras novas. São aperfeiçoadas a técnica, as transições, as combinações, a fluidez, a parte puramente física, e o que escapa sempre a qualquer sistema de pontuação mas que é, paradoxalmente o ADN destes desportos individuais, o lado artístico, o da expressão individual, próximo da dança, em que o que se faz com o corpo é único e se desenvolve ao longo da vida e continua sempre a fazer sentido, mesmo quando, em idade mais avançada, faltando algum vigor físico (que na competição é imperioso), ainda é possível expressar com uma linguagem tridimensional que não é puramente visual. Porque, para quem pratica, implica um corpo de sangue a ser bombeado, de músculos em actividade, de articulações, de cálculos infinitesimais de distâncias e subtilezas, de mediação entre esforço e graciosidade, de química entre intensidade e suavidade. E porque, para quem vê, é óbvio que o que está à nossa frente é um organismo vivo e não é um organismo vivo qualquer, é o corpo de um ser humano como nós; sabemos que alguns daqueles movimentos estão ao nosso alcance, outros estariam se treinássemos, outros dificilmente. Mas todos esses movimentos, quando deles somos testemunhas, deles participamos, não apenas como um espectáculo visual, plástico, mas como um evento físico, tridimensional e orgânico, químico, material. O nosso sistema nervoso central, os nossos neurónios espelho, o nosso coração mais acelerado, as nossas emoções, a nossa empatia, fazem com que façamos parte do que está a acontecer ali. Isto acontece pela expressão corporal, tal como acontece com a dança. E é, para mim, mais forte ainda do que as emoções de torcer para que a minha equipa ganhe. 

Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2011

der spleen

alguma coisa mudou dentro de mim. depois de apresentar o der spleen com a Sandra Andrade e o Hugo Loureiro no Museu Nogueira da Silva, alguma coisa mudou. só agora começo a perceber. 2010 foi um ano muito difícil. com salários em atraso e coisas para fazer depois do horário de expediente, mais importantes que o emprego, tive de enfrentar a minha habitual personalidade procrastinante. trabalho com amigos há alguns anos. trabalhar com outras pessoas é óptimo. sozinho é bem mais fácil desistir das coisas, porque não há responsabilidade partilhada. mas depois do der spleen, mudei, não sei bem como, nem em quê. há uma forma de enfrentar a execução das coisas, um ir em frente resoluto que não é novo, nem é fruto de nenhum tipo de revelação ou de algum tipo de epifania extraordinária. algo que sempre esteve cá, mas que precisava de ser acordado, ou de ginástica, ou de que eu lhe entendesse o mecanismo. a verdade é que eu não lhe entendo o mecanismo, nem sei se é um mecanismo. sei que não há spleen, boredom, ennui ou tédio que me pegue. e keine angst me tolhe os movimentos, desde me levantei da cadeira de rodas para caminhar de saltos altos.

Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2011

primeiro o corpo

isto talvez ajude a contextualizar a anterior crónica. para mim o ioga, o kung-fu, o bailado, o surf, o sexo tântrico, o sepaktakraw e o futebol fazem parte de uma mesma coisa. e quando falo de uma destas actividades em particular, é sempre ao mesmo que me refiro. ao prazer que tenho em falar do corpo humano, dos seus movimentos, dos seus músculos, da sua agilidade, da plasticidade com que atravessa o ar. e de uma sensualidade mais ou menos subtil que existe quando exercemos o nosso corpo em todo o seu esplendor físico, concreto. é isto que me interessa, sobretudo, no desporto. e foi isto que tive em mente na crónica. como são os atletas que dedicam toda a sua vida à prática das artes do movimento do corpo humano, são apenas eles que me interessam. e interessam-me, obviamente, os movimentos que eu próprio faça com o meu próprio corpo. mesmo muito.