Sexta-feira, 3 de Dezembro de 2010

bichos do sol: cantemos

o sol, o calor do sol, no inverno sabe ainda melhor. é como se a terra, desde os seus humores mais subterrâneos, tivesse bocejado, satisfeita e sonolenta. o seu hálito quente e festivo surpreende-nos a meio de uma desolação resignada e triste. de repente é a roupa que está a mais, a pele quer a luz do sol, sem filtro. o ar surge limpo e luminoso, de novo. nas poças de água que restaram, vemos um reflexo azul, sem vestígios de cinzento. e até as nuvens nos sugerem bom tempo, na sua escala de brancos. sabe-nos bem o calor do sol, ainda com a memória de quanto nos fustigou o vento frio, de quão persistentemente molhada ficava a roupa, sem calor que a secasse. sabe bem, a efémero e glorioso, um interlúdio assim. um pouco de luz e aconchego, que nos alimenta de alegria deliciosa porque de morte anunciada. sabe bem este apaziguamento. já nem a chuva poderemos levar a mal, ou a incapacidade de nos aquecermos, quando longe de um tecto. sabemos que virá, com o frio e o cinzento. e sorrimos, bebendo as últimas gotas deste cálice, apreciando o inverno porque, caprichosamente, nos sabe a verão.