a minha mãe também era assim. uma perita da vitimização. era subtil. preferia o ardil ao escândalo. deixava-se ficar, calada e indignada, fazendo com um olhar fulminante e uma palavra envenenada mais do que um discurso apologético poderia fazer. o meu pai caía na armadilha, de cada vez. mais por cansaço e resignação ao papel que o casamento lhe foi designando, do que por ingenuidade. em adolescente, durante os piores anos que presenciei do casamento deles, cheguei a olhar para o meu pai com um respeito espantado. via nele um pilar de paciência, um farol de parcimónia e conciliação. não sei o que mudou mais: a candura do meu olhar sobre a previsível passividade do meu pai, ou a bondade e a substância da sua aparente paciência. acabei por sair de casa, cedo demais, diziam-me os amigos; tarde demais, repetia eu interiormente, no mantra que me consolou, enquanto entrava no comboio, com uma mochila às costas e o eco de um choroso e enfurecido, "já não és minha filha". odiei a inacção do meu pai, demasiado furiosa e magoada para tentar perceber se o seu silêncio era a paralisia de uma dor aguda demais, inesperada demais, ou a habitual resignação aos problemas que os outros traziam à sua quietude. na verdade, seria ele, com a voz mais ternurenta que alguma vez lhe conheci, a contactar-me, a apoiar-me, imune à minha relutância, a ajudar-me a encontrar casa, depois dos problemas com o primeiro senhorio, um lúbrico trintão que não conseguia manter as mãos os bolsos nem evitar falar como um esgoto. tive de suplicar ao meu pai, ao telefone, que deixasse estar, que não queria que ele lhe batesse à porta, para lhe ensinar maneiras. disse-lhe que era normal, revoltante e normal, que eu, nem 17 anos ainda, um olhar de desafio a apontar palavras afiadas e um corpo jovem e enxuto, chamasse a atenção de imbecis como ele. expliquei-lhe, tentando que a minha voz soasse determinada e lúcida, que eu agora tinha de aprender a lidar com estas coisas, que se estava por minha conta, tinha de aprender a safar-me sozinha. o meu pai, no fundo, nunca me abandonou. não lhe quis perguntar se a minha mãe sabia que ele continuava a encontrar-se comigo, a telefonar-me dia sim dia não. sei que ele, naquele primeiro telefonema que me encontrou muito perto do desespero, no quarto alugado ao senhorio abusador, me disse, assim que me perguntou como eu estava, que "nunca, nunca, deixarás de ser minha filha, faças o que fizeres, aconteça o que acontecer". estava tão fragilizada, tão aflita com o mundo dos adultos - mais com os adultos do que com o mundo - que não me ocorreu perguntar-lhe porque não me disse ele isso, porque não me defendeu e apoiou quando a minha mãe fez questão de assegurar que sair de casa não era decisão minha, porque, gritou-me ela, "sou eu que não te quero em casa". aquele pai, aquela voz protectora, era o pai semi-deus da minha infância, multiplicado pelo grau de complexidade que a minha vida tinha adquirido. era o meu pai versão absoluta, infinita. decidi, depois daqueles vinte minutos de conversa, que homem nenhum seria meu dono, homem nenhum, mulher, animal ou fantasma nenhuns, me assustariam ao ponto de me fazer desistir de lutar. nunca imaginei o que seria voltar a casa, muito menos o desejei. mas, dali para a frente, a relação com o meu pai transformou-se no que, creio, não poderia ser na proximidade da minha mãe. não foi preciso dizer-me, cedo percebi que, dali para a frente, ele decidira falar comigo como para um adulto, com a delicadeza de não ser condescendente, não abdicando um milímetro do feroz e tão amável impulso de me proteger, mas sem nunca me fazer sentir incapaz ou idiota, como eu me lembrava de sentir, em casa, em cada jantar em que arriscasse dar a minha opinião. dizem que nos revoltamos contra o pai, que vemos a mãe como rival, que passamos o resto da vida a procurar ou a fugir de homem que nos faça esquecer o pai, por tanto nos lembrar dele. talvez porque ultimamente são as falhas, os defeitos mais mesquinhos que me invadem os pensamentos, encontro mais semelhanças com a minha mãe. e sei, com a mesma certeza com que decidi, há oito anos, num quarto sujo e sem mobília, que nem homem nem bicho, que nada nem ninguém me faria baixar os braços e render-me, sei que ele não é o pai que quero para os meus filhos.
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