Quinta-feira, 13 de Janeiro de 2011

crónicas de uma relação em ruínas III

quando o conheci, atraiu-me a forma como me contrariava. estava farta de pretendentes obsequiosos. de tipos que diziam que sim, é isso mesmo, tens toda a razão, mesmo quando eu os testava, fazendo-me de burra e proferindo imbecilidades. de sorridentes mentirosos - e nem sequer competentes mentirosos -, fingindo interessar-se pelo que eu dizia. ele parecia desconhecer ou desprezar as regras tácitas da sedução que os outros pareciam venerar. dizia com frequência, isso é absurdo, isso que dizes não faz sentido nenhum. e explicava porque é que não poderia concordar com o que eu tinha dito. tão surpreendida fiquei com tão clara recusa das falinhas mansas que me escapou o que deveria ter sido uma evidência. ele não tinha, e se tinha não apresentava, uma única ideia própria. a eloquência com que discursava as suas discordâncias em relação ao que eu lhe dizia, em relação a quase tudo o que eu lhe dizia, era tão grande como a falta de iniciativa em dizer o que pensava. talvez eu tivesse confundido uma mente turva, sem desígnios pessoais claros, com uma personalidade misteriosa. realmente não conseguia, agora os motivos fazem-me sentir envergonhada, perceber o que se passava naquela cabeça. talvez tenha herdado, da agressividade passiva do meu pai, da imobilidade amuada e derrotista com que não enfrentava a minha mãe, um desejo, ainda por realizar, de abraçar o conflito. não é que gostasse muito de discutir, ou tivesse alguma propensão para a agressão e o insulto. e ele até me parecia inofensivo, como um adolescente fora de tempo, que tivesse lido umas coisas e aprendido umas palavras difíceis, para se armar nas aulas de filosofia a ver se impressionava as raparigas mais intelectuais, enfrentando o professor, despertando sorrisos femininos, mesmo quando e principalmente quando dizia uma tolice. havia algo de infantil e quixotesco no tom dos seus discursos. fazia gestos lentos e largos e levantava um pouco a cabeça, como se eu fosse, ao mesmo tempo, um castelo de vento a quem não se verga o olhar e um microfone que amplificasse as suas ideias. ria-me, não conseguia evitar rir-me, mais ainda do seu tom do que do conteúdo do que dizia. sempre que me ria, ele tentava disfarçar o amuo, como criança que insiste em falar com os adultos em tom sério e voz forçadamente grossa mesmo se as suas reivindicações são recebidas com condescendência e mimo. devia ter percebido que, o que quer que ele visse em mim, quando fazia da minha presença público e púlpito, não era a mim que ele via. o primeiro beijo, deve-o à sua loquacidade exasperante. depois de um jantar num restaurante que ele escolheu a dedo, um jantar em que não se calou, de uma ida a um bar em que falou e falou como se a sua vida dependesse disso, depois de um passeio nocturno, através dos 5 quarteirões que distavam do bar à minha casa, em que os seus gestos já eram menos lentos e mais vincados, à luz de um luar em que ele não demonstrava reparar, depois de horas de palavras e palavras e palavras, espetei-lhe um beijo, e depois mais um, e outro, como se o castigasse, em debicadas zangadas. e mais um, demorado. disse-lhe, é a única maneira de te calar. o sorriso que ele fez a seguir conquistou tudo o que os seus discursos estavam prestes a deitar por terra. esperei, silenciosa, fixando-lhe o olhar, para verificar se ele se tinha mesmo calado ou se ia agora desatar a discursar sobre as propriedades românticas dos beijos em noite de luar ou qualquer outra coisa. ele aguentou o meu olhar, o sorriso que o iluminava diluindo-se, suave, pelo rosto todo, cada vez menos corado e cada vez mais tranquilo. aguentou o meu olhar, que é coisa que não posso dizer de muitos homens além do meu pai. e fui eu que falei, boa noite. virei-lhe costas, assumindo eu o lado teatral da noite que ele quase arruinava, inundando-a de palavras, ficando eu agora corada, por me aperceber que ainda faltavam um duzentos metros até minha casa e ele estaria, provavelmente, a olhar para mim, sem perceber que me despedi ali pensando que aquele era o meu prédio. mantive a pose, depois de levantar a cabeça e desperceber onde estava, caminhando em passos largos e pernas o mais firmes que pude, divertida e embaraçada e feliz.

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