depois disso, tornou-se cada vez mais difícil que ele olhasse para mim, verdadeiramente, a direito. durante bastante tempo, guardei aqueles segundos de silêncio e de olhares ancorados um no outro como um momento especial, imaginando que ele fazia o mesmo e desculpando-o até, quando falava sem olhar para mim, como se ele estivesse a proteger a magia daquele olhar. o pendor discursivo foi perdendo a graça, como as crianças tagarelas e mal-educadas perdem a graça quando se percebe que não entendem nem querem entender, ao centésimo aviso, o que os adultos lhes dizem quando lhes dizem que, agora, é preciso estar calado. uma simples decisão, a compra de uma estante, uma ida ao supermercado, era motivo para torrentes de argumentação. acabei por decidir e fazer muitas dessas coisas práticas, urgentes e de importância menor, sozinha. algo que ele, se reparou que aconteceu, nunca referiu nem agradeceu. estranhamente, era um amante competente, atento e paciente, inventivo e até, por vezes, surpreendente. se, com o primeiro beijo, consegui calá-lo, com as primeiras noites de sexo ele conseguiu apaziguar as minhas dúvidas e angústias. durante os primeiros meses, procurei o sexo como um elixir cada vez menos eficaz, uma poção mágica, que me fizesse sentir mais próxima e em sintonia, uma oportunidade para deixar de pensar, um terreno de alguma liberdade e sossego, onde não tinha de o ouvir e me podia concentrar apenas no prazer. fiquei magoada quando ele começou a dizer que não tinha vontade. e, nessa altura, começou a revelar-se o seu lado mais cruel e mesquinho. cruel porque mesquinho. quando, antes de adormecer, lhe beijei o pescoço e percorri o peito e o ventre com a mão, ao fim de um dia de discussões, ele disse, mais com ferocidade do que com desinteresse, não me apetece. retirei a mão, mas mantive-me próxima do seu corpo, encaixada nas suas costas, ainda grata pelo calor que transitava entre nós. ele repetiu, quase de seguida, não me apetece, levantando um pouco a voz e acentuando muito as sílabas. cometi o erro feliz, porque o fez revelar-se, de brincar, com voz exageradamente dengosa, o que foi, já não te sentes atraído pela tua mulher? não, disse secamente, estás gorda. era patético, infantil e cruel. sou magra, um pouco magra demais, até. ele usou o que, na sua cabeça, poderia magoar qualquer mulher. mais do que rejeitar-me, usou uma fórmula universal para magoar. e magoou-me. magoou-me saber que ele queria que eu ficasse magoada. de manhã, acordei com ele em cima de mim. lambia-me o pescoço e tirava-me a roupa interior, apressado, a respiração forte, como a de um animal. baralhei as imagens do sonho de que ele me tinha acordado, em que estava nua, ao sol de uma praia deserta, com o cheiro dele, o calor da fricção das suas mãos. voltei a fechar os olhos, e deixei-o servir-se de mim, alegre e confusa. foi mais rápido do que o habitual, sem se preocupar comigo, acelerando em direcção ao seu próprio orgasmo, com fúria e, parece-me agora a esta distância, alguma frustração. a sua erecção não era muito forte. compensava com a força com que me agarrava e a rudeza de palavras pouco habituais na nossa cama. vieram-me à cabeça as imagens das discussões dos últimos dias. comecei a insultá-lo, primeiro a inumerar os palavrões de que me ia lembrando, forçando-me a dizê-los, um por um, depois, completamente solta e zangada. antes que ele o fizesse, cheguei ao orgasmo, agarrei-me com mais força a ele, disposta a esquecer, por momentos, as imagens que trouxeram a paixão da ira, mas ele começou a mover-se mais devagar, até que parou, deixando-me suspensa no seu pescoço, olhando-me nos olhos a direito, pela segunda vez, mas por um brevíssimo instante. levantou-se e foi tomar banho e saiu de casa. nunca falámos dessa manhã. talvez o devêssemos ter feito. de qualquer forma, marcou um período de alguns meses de sintonia. nem eu nem ele procurávamos o sexo. dormíamos cada um para seu lado, sem nos tocarmos, chegando mesmo a afastar o corpo, alguns centímetros, quando a pele de um sentia ao de leve a pele do outro.
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