quem é que ele pensa que é? aquele sorriso feito de charme e malícia, aquelas frases ambíguas, o brilho no olhar depois de me cumprimentar. o que se passa naquela cabeça? quem é que ele pensa que é? se acha que me derreto com as suas maneiras delicadas, a sua voz grave e sossegada, o seu humor preciso e elegante. se acha que me conquista com as entrelinhas dos seus comentários, o sorriso a ecoar a suave gargalhada anterior, a forma atenta e galanteadora de me escutar. se acha que vejo nele um raro cavaleiro andante, um irresistível cavalheiro moderno, tão sedutor como discreto, está muito enganado. por detrás daquela máscara haverá o sórdido, o pouco recomendável, o insuportável. tenho a certeza. por muito que ele se apresente como enigma misterioso digno de abordar com esforço e espírito aventureiro. aquele sorriso luminoso ecoa como uma queimadura solar. por muito que o sol que a provocou tivesse sido apetitoso, fazendo-me fechar os olhos, sonhadora e feliz, é dor e incómodo o que a pele herdou. arde-me a memória dele, as imagens da sua elegância bem-disposta, o delicioso cheiro dele num abraço inesperado, irrepreensível e imperdoavelmente casto, o som do meu riso solto, regado com vinho que ele soube escolher. e a cumplicidade dos amigos, que náusea, como se soubessem que ele é o homem perfeito para mim, muito antes de eu o descobrir, como se fossem cúmplices e megafones do charme dele. que náusea os silêncios colectivos, amplificando um comentário dele, na habitual ambiguidade educada e maliciosa. as combinações ou acasos muitos improváveis, fazendo com que nos encontremos juntos os dois, antes ou depois de virem os outros. e a cumplicidade dele, a candidata cumplicidade dele, a ver se a autorizo e elejo, rindo-se da aparente boa intenção dos amigos, a quererem acasalar-nos, que náusea, a forma como ele adivinha sempre, antecipando-se, o potencial embaraço, e me faz sentir confortável. é como se eu fosse uma sinfonia de emoções que ele conseguisse dirigir e harmonizar. faz-me sentir desconfortável com a sua atenção, mas não demais, e deixa-me à vontade, mas só depois de deixar claro que está no controle da situação, condescendendo no meu conforto porque me demonstrou como me poderia abalar. quem é que ele pensa que é?
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