Terça-feira, 18 de Janeiro de 2011

desde há quinze verões atrás

foi no verão anterior à minha entrada na universidade. o meu avô, homem de poucas e ponderadas palavras, perguntou-me, sem aviso, "mas afinal o que queres fazer na vida?". demorei, a responder, menos do que o meu ligeiro nervosismo faria adivinhar. "avô, eu quero escrever". assim, uma resposta sem nome de profissão, sem designação de carreira. se ficou surpreendido, não o mostrou, abrigado na sua habitual reserva. "mas, para isso, era preciso que já escrevesses há muito tempo". ganhei confiança, num estremecimento de responsabilidade, por não receber, do meu avô, nenhum tipo de condescendência ou de reprovação. o meu avô era austero e justo, intransigente muitas vezes, mas perspicaz e exigente. alguns anos mais tarde, não foi preciso explicar-lhe, ele percebeu que eu tinha crescido, politicamente, muito à esquerda. quando um político falava, na televisão, era como se ele percebesse, antes de eu falar ou sequer mexer um músculo, qual o ângulo de onde eu olhava para a realidade política. nunca me levou isso a mal, embora imagine que poderá ter sentido alguma desilusão. ali, na quinta, à porta de casa, provavelmente vindo de apanhar ameixas com o meu avô, tremi um pouco e usei como coragem a fragilidade que subitamente me preenchia totalmente. percebi que aquilo era sério, que a minha resposta teria de ser séria. que o meu avô me perguntava que rumo, que horizonte eu tinha para a minha vida e com que bagagem, com que sandálias eu pretendia pôr-me a caminho. não consegui dizer mais que, "mas avô, eu já escrevo há muito tempo". entrámos em casa, sem falar mais sobre o assunto. como muitas vezes fazia, o meu avô tinha-me deixado a reflectir nas minhas próprias palavras. por dentro, via imagens do meu quarto na figueira da foz, eu de joelhos, debruçado sobre a cama, a posição em que escrevi durante anos, revia os primeiros poemas que a minha adolescência produzira, as primeiras crónicas, na mesma altura. as primeiras experiências com narrativas, contos muito curtos. reflectia, severo e frágil, sobre as palavras que tinha escrito nos últimos anos, inseguro, receoso de que, afinal, não houvesse potencial talento que justificasse a minha insistência em querer que a minha vida fosse escrever, independentemente de empregos e carreiras. essa reflexão, essa auto-análise, começou verdadeiramente com as duas frases do meu avô, naquele agosto, há mais de quinze anos. nunca mais parou. e cada vez há mais palavras a rever, cada vez é maior o percurso, são mais diversas e numerosas as experiências a escrutinar, são mais complexas e sólidas as dúvidas. o que agora sustenta e ampara quer as dúvidas quer a vontade de as derrotar, é um corpo textual, um rasto de palavras, uma constelação de frases que, muito mais que os poemas iniciais, que cintilam ainda na constelação, como estrelas que sabemos mortas, muito mais que as primeiras tentativas de originalidade - que não passavam de aglomerados de clichés presunçosos e ignorantes -, muito mais do que o que tinha escrito até então, essa massa feita de palavras e sentidos forma, no meu íntimo, um cosmos de significação. apenas com a escrita, e isto cada vez é mais evidente e claro para mim, consigo expressar, perante mim próprio, o que de outra forma ficaria oculto e turvo, inatingível e desconhecido. a escrita é a única forma de expressão em que consigo, profundamente, ir mais longe dentro de mim, como num mergulho profundo de onde regresso, ofegante e veloz, com impulso suficiente para sair do abismo, uns instantes, para sair de mim, uns centímetros em direcção ao céu.

1 comentários:

Anónimo disse...

The HIV virus can be passed on through oral sex. Oral hygiene and safe sexual practices can help stop it being transmitted.