Sexta-feira, 18 de Março de 2011

"agora não posso falar, mas diz"

Há pouco, ao escutar um homem a atender a chamada do seu filho, tornou-se mais evidente algo que tenho vindo a reparar há bastante tempo. Muitas pessoas, quando atendem o telemóvel e falam alto sabendo que estão a ser escutadas, passam a representar, a fazer uma performance de si mesmos. Controlam, afinam, acentuam, escolhem tom de voz, gestos, expressões, mudanças e ritmos do tom do discurso, apresentando-se ainda com mais cor e expressão do que já exibem habitualmente, no que toca à linguagem corporal (que, neste caso tem interlocutores, ou, atrevo-me a sugerir, público, por oposição a uma chamada em que não está ninguém à volta). Representam uma versão de si mesmos, mais vitaminada nas inflexões de voz, mais condimentada nas ironias e subtilezas, mais acutilante nos assentimentos e nas discordâncias, mais astuta no negociar de vontades e disponibilidades. 

Não sei o suficiente, nem por sombras, para poder explicar o fenómeno, apresentando razões para que aconteça e possíveis funções que essa propensão performativa possa cumprir. Mas, dada a ubiquidade dos telemóveis, sou um espectador (de novo, atrevo-me a dizer, público) frequente de tais espectáculos de uma pessoa só. É-me impossível escapar à reflexão sobre este assunto, que me intriga e diverte, prendendo-me a curiosidade. Se, como é meu mau hábito em textos neste blogue, me atrevesse a dar palpites, mesmo depois de dizer que não tenho forma de apresentar uma opinião fundamentada, diria que se pode pensar sobre este fenómeno a partir de dois lados, que provavelmente se confundem e alimentam mutuamente.

Em primeiro lugar, o que o telefonador diz e faz, como se mexe, como fala, o que diz e como, é transmitido às pessoas que estão à volta dele, que não são parte directa do telefonema. Notei como isso pode ser usado para transmitir ideia mais favorável ou vantajosa do telefonador, quando em reuniões com clientes, malcriadamente interrompidas por chamada telefónica de terceiro, o meu ainda há pouco interlocutor agora ocupado com alguém que fala com ele ao telefone, muda de discurso abrupta e despropositadamente. Se comigo era cordial e cauteloso, com uma fabricada delicadeza tímida e uma assertividade atenta, ao telefone transforma-se num feroz decisor, um intransigente líder, um ousado pioneiro. É como se através de uma amostra de como ele lida com situações sérias e profissionais, ele me tentasse transmitir que devo tê-lo em consideração, respeitá-lo, dar-lhe credibilidade.

Por outro lado, e isso foi mais notório na chamada que originou esta reflexão, haver público, do lado de cá da chamada, como que amplia o alcance do que se diz e de como se diz. O senhor que falava ao telemóvel explicava ao filho que algo que ele queria (penso que era que o pai fosse ter com ele) não era possível, que "o pai estava ocupado". Muitas vezes as pessoas, como que criando cumplicidade, fazem gestos, ao "público", deixando claro que essa camada semântica extra é só nossa, só "deste lado" da conversa. Um encolher de ombros, que significa, "estes jovens, querem tudo à maneira deles", por exemplo. Mas não é necessário que haja uma interpelação directa às pessoas do lado de cá da chamada, para que as pessoas do público sejam recrutadas para esta aparente função de júri ou de comité apologético do que o telefonador quer transmitir para o lado de lá.  

Acrescento a minha suspeita de que, mesmo sem um directo e esclarecedor, "estou aqui com umas pessoas", muitas vezes é claro para quem está do lado de lá da chamada que o telefonador deste lado está com outras pessoas. E o telefonador deste lado joga com isso. Neste caso que me serve de exemplo, é como se as pretensões irrealizáveis do filho ficassem expostas, perante mais pessoas e de forma mais clara, como irrealizáveis. Ou como se, no caso de se estar a tentar impressionar o público deste lado (como em contextos profissionais), a pessoa do outro lado ficasse avisada de que qualquer excesso de linguagem ou bizarria de tom se deve ao contexto performativo. O que acho mais intrigante e curioso é que estas coisas, é o meu palpite, são, em grande medida, muito pouco conscientes - não há, palpito, na maior parte das vezes, uma decisão consciente do telefonador de aproveitar a ocasião para a performance. É, na minha opinião palpitante, um comportamento que surge "naturalmente" da frequência com que se fala para alguém que não está, no meio de quem está.

Há ainda outros aspectos interessantes e frequentes. Um daqueles com que já lidei mais vezes é o efeito de domínio, de agregação forçada da atenção alheia. É visível, por exemplo, numa reunião profissional em que alguém, geralmente mais alto na hierarquia, mas pode acontecer ser alguém mais baixo na hierarquia que está a tratar de uma tarefa que é muito importante para os seus superiores. Há uma chamada importante que interrompe a reunião e, no decorrer da chamada, todos se calam, convocados para a prioridade do assunto que é tratado naquela chamada. Todos têm de escutar o que é dito do lado de cá, com um sentimento solene de que é preciso estar atento, para compreender também o que se passa do lá de lá, com um silêncio respeitosamente perturbado por um ou outro sussurrar. 

O telefone, na sua versão móvel, expande a forma como interargimos com os outros, não apenas porque nos permite falar com pessoas distantes. Mas também porque nos coloca perante a oportunidade, se não a inevitabilidade, de adoptarmos outras  formas de interagir com quem está à nossa volta, mesmo se incluídos involuntariamente na chamada.

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