um dia, talvez nos cruzemos, cada um na sua bicicleta. um sorriso rápido assinalaria a surpresa. hesitaríamos, atrapalhados, mas talvez seguíssemos os nossos próprios caminhos, como temos feito. hoje, senti o vento no rosto, à vinda para o trabalho. como tu, imagino, sentes todos os dias, nesse rosto lindo de que os teus caracóis abundantes são coroa. uso umas molas para prender as calças e protegê-las do óleo da corrente. sempre que as coloco, lembro-me das últimas calças que te vi usar, justas e de aspecto confortável e elástico. tentei afastar os olhos das tuas nádegas rapidamente, para que não me apanhasses a indiscrição. contigo, nunca me aconteceu esquecer as feições, como sucede com pessoas a quem não vejo há muito tempo. e é como se todo o teu corpo fosse o teu rosto. reconheceria tão bem o teu sorriso sério, o teu olhar a direito, a tempestade do teu cabelo preto, como os teus ombros fortes e suaves, a vertigem da curva das tuas ancas, o desenho elegante das tuas pernas, o contorno de volúpia das tuas mamas. és todo o teu corpo e mais o movimento que o anima. lembro-me de ti inteira. e junto-lhe a bicicleta, a essa imagem de quem passou veloz por mim, antes sequer de ser semeada a saudade.
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