Terça-feira, 31 de Maio de 2011

texto reencontrado passado meses:

É estranho. A minha forma de procurar a não-dualidade é colocar o corpo no centro de tudo. Dir-me-ão que é reducionista, que cedo à tentação de reduzir o pensamento a processos químicos e eléctricos, de ver a consciência como uma computação subtil e misteriosa, que ainda não conseguimos reproduzir, mas que não passa de computação. Na verdade, talvez a minha necessidade de colocar o enfoque na fisicalidade do nosso corpo de primata se deva, paradoxalmente, à minha percepção da desmesurada importância do pensamento.

Porque me parece que nos vemos como pensadores que habitam corpos, em vez de nos vermos como corpos que também pensam, prefiro centrar-me no corpo. Mesmo quem rejeita a ideia de alma ou de um eu transcendente, espiritual, que ocupa temporariamente um corpo, muitas vezes escorrega nesta ideia estranha e amplamente disseminada de um eu que não está em lugar nenhum. Quando era miúdo, a dada altura comecei a pensar em como era estranho que, ao contrário de todas as pessoas que me rodeassem a dado momento, eu não pudesse ver-me inteiramente. Vejo o tronco e os braços, as pernas, se fechar um olho, vejo o lado do nariz, se esticar a língua consigo vê-la. Mas nunca ao meu corpo inteiro. Restam-me os espelhos. Na altura, só pensava nessa estranheza como algo que decorria do corpo e da posição física dos olhos.

Depois de começar a ler o Livro da Consciência, do Damásio, apliquei essa estranheza à totalidade do que é uma pessoa. Não conseguimos entrar na cabeça dos outros, confirmar empiricamente que possuem um eu. No limite do idealismo, nem podemos garantir que os outros existem. Só temos a experiência de observar, não podemos garantir que há outros a observar. No entanto, do nosso ponto de vista de observador ininterrupto, se nos perguntarmos, enquanto falamos com alguém, "onde está ele?", parece-nos óbvio que está ali à nossa frente.

[encontrei este texto assim, incompleto, e vou deixá-lo assim]

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