não guarda segredo, o meu corpo deseja o teu. não guarda segredo da mente. a mente, insidiosa e clemente, assume uma cumplicidade militante, talvez demasiado industriosa e competente. diz-lhe, ao corpo, sim, o corpo dela seria feliz nos teus braços, os lábios dela proclamando com e sem gramática o delírio do cio. sim, na tua boca uma foz se acenderia, o delta do seu corpo sinuoso alimentando as monções, desobediente das marés, órfã do cosmos reencontrando a fonte de toda a energia vital. sim, diz a mente, desavergonhada e escandalosa, entrarias no corpo dela como uma tempestade fecunda, uma aflição de desejo, um cataclismo de foder. sim, ainda que não te espere ou deseje especialmente, o corpo dela encontraria no teu um novo génesis, uma liberdade nua, uma estrela de alegria. os dois, cantando e fodendo, seriam um exemplo de felicidade animal para o universo, uma esperança para os milénios todos de evolução e morte, renascimento e evolução. eu, quase divertido mas ferido de expectativa e temor, deixo que se entendam. como a um animal de carga que reencontra animais de diferentes donos, junto à água, deixo que relinche e se coce, que beba e descanse. esqueço-me por momentos de que o caminho continua, no seu estático convite, à espera do meu ânimo. esqueço até, por momentos, que é a mente que comenta e escreve, usando do corpo a perícia instrumental da sua solidão de corpo assexuado. esqueço a dualidade, por deixar de a exercer, imaginando tão ardentemente que poderia esquecer o resto, o ego e a saudade, ao mergulhar na praia de seda do teu corpo.
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