Segunda-feira, 6 de Junho de 2011

à nossa

passámos tão perto um do outro. falo do outro dia, não do ano passado. falo literalmente. passámos, pedalando, a uns escassos metros um do outro. ou melhor, passaste pedalando, perpendicular à minha trajectória descendente. eu não pedalava, deixava a inércia actuar, cansado e feliz, no fim de tarde de um dia em que fiz mais de 20 quilómetros. tem sido duro, sabes. não tenho a mesma forma de há 10, 15 anos atrás. como mantenho o prazer da exaustão, do esforço físico (quase) extremo, não desisto com facilidade. ou melhor, mais facilmente caio de cansaço do que desisto de um esforço físico extenuante. e o meu corpo, um pouco deformado pela idade e pela gordura que ganhou algum terreno em relação ao músculo, tem andado aceso de cio, de energia e entusiasmo pelo verão, que ainda não chegou mas é como se já tivesse chegado. sei que não se nota, mas sou energia e vigor e funciono. os corpos são coisa tridimensional, engenharia animal, são movimento e força, agilidade e perícia. não são apenas objecto para representações visuais, manequins de carne para explorações estéticas. o meu corpo não tem competência fotogénica, mas funciona bem, no que lhe compete enquanto agente de prazer alheio e próprio. e eu sou, por mais que fale e escreva, um corpo que não aspira a muito mais do que ser um corpo cheio de vitalidade e manha cinética. sou bicho do verão. do suor e do sol, da água a escorrer pelo pescoço, a transbordar da boca. nasci em agosto. e foi nesse mês que me iniciei em quase todas as actividades de que mais gosto na vida. ou melhor, talvez não seja assim, não tenho forma de o confirmar, porque não guardo registo. mas, tal como festejo o aniversário em agosto e vivo todo o ano, apetece-me atribuir a agosto a cumplicidade toda do meu prazer, a culpa toda da minha felicidade. é a altura de comemorar. este ano, antecipo as festividades, visto-me de alegria e pólen. e gostava de fazer um brinde contigo.

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