Agradeço, mais uma vez, ao limite de caracteres do twitter por me empurrar para uma crónica. Acho que nunca escrevi sobre isto. Estava a escutar o álbum "Educação Visual", do Valete e agora mudei para "The Love Movement", dos "A Tribe Called Quest". Não percebo metade do que dizem os moços americanos, mas o que percebia da lírica do Valete estava-me a incomodar. A primeira faixa é "Beleza Artificial", e descreve com acutilante sarcasmo o que o rapper português parece ver como um tema importante e essencial: as mulheres que, sem nada na cabeça além do penteado, andam pela vida a usar o corpo e a beleza como argumento principal, já que a inteligência que têm não lhes chega para mais do que escolher a roupa com que irão à discoteca, invariavelmente provocante e indecente. Noutras músicas, mesmo quando não é esse o tema principal, há mais referências à indecência, à superficialidade e à falta de inteligência de algumas mulheres.
É comum ouvir queixumes sobre a burrice dos outros. Curiosamente, são mais frequentes em relação às mulheres que aos homens. Acho, não tenho a certeza, que já escutei uma anedota em que entrava um "loiro burro", mas ainda assim, era uma personagem secundária de uma anedota sobre uma loira burra. Será menos preocupante a burrice masculina? Dir-se-ia que as mulheres estão sempre em falta. Nunca são magras o suficiente, mamalhudas que chegue, super mães suficientemente super. E, pelos vistos, também lhes é exigido que sejam inteligentes, profundas, cultas. Isto faz-me lembrar uma cena do vídeo de "Lôra burra", de Gabriel o Pensador. Ele está sentado numa secretária, a ler um livro e tem óculos "à intelectual". A certo ponto, levanta-se, surgindo detrás da secretária, uma morena boazona, com roupa e óculos de bibliotecária, com um ar entre o atrevido e o apanhada em flagrante, e percebe-se que estava a fazer-lhe sexo oral, de joelhos. É como se ali se dissesse, é possível ter as duas coisas, uma mulher que lê livros importantes e sabe coisas elevadas e que faz broches de primeira, com a perícia e falta de vergonha de uma vadia. As mulheres têm que ser tudo e, frequentemente, coisas opostas: atrevidas e castas, mães e putas, inteligentes e submissas, sensuais e espirituais, irreverentes e recatadas, desinibidas e virginais.
Não quero desviar-me muito do assunto que quis abordar. É simples: quando penso no que me irrita numa mulher (e numa pessoa em geral, mas vamos considerar apenas as mulheres), nunca me vem à cabeça a burrice. Toda a gente me diz coisas como, "o que é que interessa se ela tem um corpo espectacular se quando abre a boca só diz asneira?". Eu mais facilmente penso, "o que me interessa se ela é a mulher mais inteligente que conheço se só me faz infeliz?". Muitos amigos do sexo masculino me dizem, "quero uma mulher que me estimule intelectualmente" e vários desses amigos têm, de facto, mulheres inteligentes e interessantes nas suas vidas. Fico feliz por eles. Mas parece-me que se coloca uma ênfase e uma urgência descabidas numa questão que, na verdade, nem sei se é uma questão verdadeira.
Dá a impressão que anda aí uma epidemia de burrice. Que é necessário alertar toda a gente para este flagelo. Que se não fizermos nada, a burrice pode alastrar e acabam-se as mulheres interessantes. Na verdade, na minha experiência pessoal, cruzei-me com muito poucas mulheres burras - burras ao ponto de só dizerem asneira quando abrem a boca. Se as há, sim, creio que as há. Há pessoas de todos os tipos e quantidades de inteligência. Nesta conversa sobre as mulheres burras, a coisa não se resume só a mais ou menos inteligência, eu sei. Como alerta o Valete, tem a ver com a superficialidade, o materialismo, a excessiva importância dada ao corpo em detrimento dos valores não físicos. Ou seja, quando me dizem, "não suporto mulheres burras", estão-me a dizer (e de facto, às vezes dizem-me mesmo desta forma, mais longa e descritiva), "não suporto mulheres ocas, que só dão importância ao aspecto, não sabem nada sobre o mundo, não se interessam por nada que implique pensar e que julgam que conseguem tudo só por terem um corpinho jeitoso".
O grande argumento é que conviver com uma mulher assim é insuportável. Que mesmo que o sexo com corpo tão atraente fosse meteórico, mais tarde ou mais cedo se teria de conversar e aí não sucumbiríamos à náusea de ter de escutar as maiores enormidades vinda da boca que uns instante antes nos proporcionou tão insofismável deleite. Mais uma vez, quando penso em características que não queria de maneira nenhuma ver numa mulher com quem tivesse de conviver, não é a burrice (materialista e superficial) o que me vem à cabeça. Não queria ter de aturar uma pessoa patologicamente egoísta, ciumenta ou conflituosa. Há ainda outra coisa. Não tenho a certeza que conviver com génios do intelecto (que também os há do corpo) seja assim tão inevitavelmente delicioso. Não acredito que haja uma proporcionalidade directa que implique que, quanto mais profunda e inteligente seja uma pessoa, melhor e mais fácil é conviver com ela.
Dito isto: prezo muito a comunicação. Não me imagino a viver com uma pessoa que não me compreenda nem tenha capacidade de me compreender. Mas, mais uma vez, isso pode acontecer por falta de inteligência, é verdade, mas mais facilmente acontece por falta de carácter ou falta de vontade. Gosto de homens. E de mulheres, ainda mais do que de homens. E não estou nada preocupado com a possibilidade assustadora de me calhar uma pessoa burra, fanática por shoppings e alérgica aos livros. Mais me ocupa a mente a possibilidade de encontrar uma amante do desporto, de músculos ágeis e elásticos, de sorriso fácil, amor às ondas e ao mar e que saiba patinar ou queira aprender. Os livros que lermos, quando descansarmos do sexo, logo se vê.
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