Segunda-feira, 25 de Julho de 2011

daqui até ao futuro

Há pouco, tive de escrever uma biografia, que me foi solicitada a propósito de umas traduções. Uma autobiografia, convém especificar. O currículo que apresento normalmente numa entrevista de emprego é curto, cabe numa página. Não estão lá todos os empregos que tive. Escolhi apenas aqueles, e vou mudando, que penso ser mais vantajoso mostrar. Por vezes sinto-me um pouco embaraçado por ver e apresentar a minha vida assim tão resumida, como se ali se esgotassem as minhas experiências e os meus talentos.

Ora uma biografia não é um currículo. Os elementos pessoais contam. Como não tenho um emprego na minha área há bastante tempo, mais de dez anos, habituei-me a separar a minha vida assim. Uma coisa é o que um empregador quer saber, outra coisa é a pessoa que sou verdadeiramente, as coisas que sei fazer, as que quero fazer e as que já fiz. Ultimamente, tem estado mais presente o CV que uma (possível) Bio. Afinal, percebi ao elaborar esta, já fiz bastantes coisas que sinto prazer em apresentar e que constatam, para mim mesmo, que a experiência da minha vida não se resume, nem de perto nem de longe, aos três ou quatro empregos que costumo exibir num curriculum vitae.

Há vários momentos importantes na minha vida, que vieram a alterar rumo, motivações e atitude. O último grande momento de mudança é também dos mais importantes. Há uns quatro anos, estava eu a trabalhar em Braga, inscrevi-me e frequentei um curso de escrita criativa com o valter hugo mãe. Vim a conhecer alguns dos amigos mais importantes da minha vida. Essas pessoas não só cuidaram dos meus afectos como me estimularam a ser o que sou e que sozinho me custa mais descobrir. Na Censura Prévia, companhia de teatro que existia junto à Estação da CP em Braga, ousei, porque me desafiaram ao colocar em mim uma inesperada confiança, participar em várias peças de teatro. Aquele E S P A Ç O seria terreno da afirmação e do exercício dos meus afectos e da minha criatividade, junto de quem inspirava e acolhia o melhor de mim. 

As amizades que nasceram no curso de escrita criativa consolidaram-se na frequência do E S P A Ç O. Ali fiz várias coisas pela primeira vez: conceber uma peça de teatro, trabalhar num bar, expor uma instalação feita de desenhos pendurados do tecto. Mais recentemente, com a Sandra Andrade e com o Hugo Loureiro, voltei a trabalhar de forma intensa na concepção de um espectáculo, Der Spleen, que teve apresentação única no Museu Nogueira da Silva.

Ao escrever a minha bio, incluí andar de patins e tocar guitarra. Desde o curso, repetiu-se um fenómeno maravilhoso: alguns dos meus amigos tornaram-se amigos de amigos meus e os amigos deles meus amigos também. Isto aconteceu em todas as direcções, formando uma verdadeira rede social analógica, biológica, material e muito importante. Um dos amigos que fiz, que conheci por ser amigo de uma amiga, cometeu a proeza de me inspirar a voltar a tocar guitarra. Resgatou o prazer de tocar com outras pessoas, e tenho trabalhado com ele e também sozinho. 

Isto que se passou comigo, perceber que a minha vida é uma história complexa com pessoas dentro, passa-se, creio, com qualquer pessoa que olhe de forma atenta para as suas memórias durante uns minutos. Ninguém nos consegue resumir a um CV. Não somos apenas o emprego, nem o curso, nem o nome de família, nem a terra em que crescemos ou vivemos. E nem sequer somos só o nosso passado. As memórias, tão importantes, servem apenas para saber de onde vimos. O resto, daqui até ao futuro, é connosco e com o momento presente.