Nem sei por onde começar. Qualquer pessoa que me conheça vagamente sabe que detesto o Facebook. Não gosto de nada do que o Facebook oferece. O Facebook é como o capitalismo, uma força totalitária em expansão, que sei que, por mais que não acredite nele, tudo indica que irá prevalecer. Acabei de criar uma conta, depois de ter apagado a que tinha, há algum tempo. E fi-lo porque a política totalitária e sinistra do Facebook prevaleceu. Sinto-me derrotado e irado.
Independentemente da minha opinião, que conta pouco, o Facebook está a tornar-se como o telemóvel. Não adianta não gostarmos de o utilizar, sermos contra, etc. Temos de o usar. Profissionalmente, preciso de usar o Facebook. Mas os sacanas, e é por isto que o Facebook cresceu tanto, obrigam-me a abrir uma conta pessoal, para poder gerir uma página não-pessoal. É cosmicamente pior que a obrigação de usar telemóvel. Se uma empresa me "oferecer" um telemóvel e me obrigar a tê-lo sempre comigo e ficar disponível para atender chamadas, a TMN não me obriga a ter outro telemóvel, pessoal.
Tive um trabalhão para mudar todas as definições da conta. Os sacanas do Facebook tornam a vida muito fácil a quem quer partilhar tudo - é só clicar num botão. A quem não quer partilhar nada, dificultam bastante a vida. É preciso ir item a item, clica-se uma vez e não fica logo disponível a opção "apenas eu", é preciso clicar uma segunda vez, em "alterar", e só depois clicar a terceira para confirmar.
Considero o Facebook um gigante controlador, que envergonha qualquer empresa com ambições anarco-capitalistas. A ambição do Facebook é clara: ser o fim de tudo. O Facebook quer-se substituir a tudo: a fóruns (para quê escrever num fórum, se se pode escrever no Facebook), a blogues (para quê escrever em ou ler blogues), ao mail (que seca, nem saber se a pessoa está online), a páginas institucionais (são muito mais eficazes as páginas de fãs no Facebook). Nisto, até pode ficar perto de bem sucedido. A maior parte das pessoas vê a possibilidade de usar apenas um serviço em que esteja tudo como uma enorme vantagem e um passo de gigante na evolução da web.
Isto nunca aconteceu antes. A Microsoft, ao pé do Facebook, é uma instituição de caridade. O curioso é que, em relação ao Facebook, não há alarme, nem creio que passe a haver. Foi um escândalo de morte quando a Microsoft fez coisas como ferir a compatibilidade de alguns produtos seus com os da concorrência, para que estes não funcionassem e as pessoas fossem obrigadas a escolher os produtos da Microsoft. Mas nunca estivemos neste estado de coisas. Qualquer pessoa, se não gostasse da Microsoft, poderia usar outro sistema operativo. E não interessa, para quem comunica connosco, que sistema operativo se utiliza: não estamos isolados. Eu uso o Ubuntu e comunico com pessoas que usam outros sistemas operativos.
Com o Facebook o cenário é muito mais assustador. Os fóruns, à excepção dos fóruns técnicos, estão moribundos. Os blogues, estranhamente, aguentam-se, embora quase sem leitores. Muitas organizações e eventos já só têm presença no Facebook. E já conheço pessoas que estão a deixar de usar o mail. E que consideram mesmo uma valente seca que nem todos os seus contactos usem Facebook. Muitas pessoas estão ansiosas para que o sonho totalitário do Facebook se transforme em realidade, transformando a realidade. É esta a força da maior rede social online do mundo. As pessoas desejam a sua expansão, desejam que absorva, derrotando, tudo o que existe. É isto que é perverso. Ao contrário da Microsoft, o Facebook não precisa de mexer muitos cordelinhos nos bastidores, basta-lhe alimentar a preguiça e a falta de imaginação dos seus utilizadores. Pois eu odeio isto que está a acontecer. Sinto-me estúpido, por devotar o meu ódio a algo que não me devia ocupar muito tempo. Mas, envergonhado e imbecil, aqui estou eu, a vomitar os sentimentos negros que isto me provoca.
Pessoas que eu considero sensatas e mais sábias que eu, dizem-me que isto é moda, que a situação vai acalmar um pouco e a expansão do Facebook vai abrandar, talvez mesmo retroceder um pouco. Mas parte do mal, a parte pior, já está feito. As pessoas já deixaram de achar razoável espalharem os vários serviços de que precisam na internet por várias empresas, várias ofertas. Acham que isso é detestável, perda de tempo, incompetência, atraso. E, por isso, são como a população de um país que está em ponto de rebuçado, no ponto exacto para um ditador chegar e triunfar. Que exagero, dirão. Sim, as emoções, como catalisadoras de crónicas, levam à hipérbole. Mas é só uma questão de intensidade. Acredito profundamente nos perigos que enunciei. Cada um julgará se são perigos mais ou menos urgentes, mais ou menos negligenciáveis.