Eis que me aconteceu também a mim: radicalizei-me. Durante anos, no fundo acreditava no que Zizek denuncia como "Capitalismo de face humana". Eu não o dizia dessa forma, dizia antes que, num sistema "como o nosso", há liberdade para cada um viver como quiser e acreditar no que quiser, desde que cumpra a lei e deixe os outros acreditarem e viverem como quiserem. Dizia eu que desconfiava dos diagnósticos que a direita fazia, sugerindo que "basta" resolver os problemas económicos, para se criar uma sociedade próspera, em que todos vivam com dignidade. Afinal, parece-me, queria ser confortavelmente de esquerda. Viver num mundo inóspito e injusto, para poder denunciar-lhe as maldades, ter uma democracia onde barafustar, mostrando-me indignado e convencido de não estar a participar nas injustiças que a afligiam.
Mas, tão certo como ter percebido o paradoxo em que vivia, deixei de acreditar nessa possibilidade: chamemos-lhe a "redenção da democracia liberal". Não. Não creio que seja possível nem desejável crescer-se sempre economicamente, nem sempre, nem todos ao mesmo tempo. A economia alimenta-se e alimenta desequilíbrios, cabe-nos a nós geri-la e conduzi-la e não ficar a prestar-lhe tributo, passivos e temerosos, como se fosse alguma divindade que se pudesse zangar com o nosso mais insignificante olhar de dúvida. Não creio que os mercados tenham seja que espécie for de sabedoria dinâmica e autónoma, que corrige o que está a mais e expõe o que está a menos. Não. A economia não nos libertará. E não! Não posso viver descansado com a minha higiene mental e política, sonhando como todos com o euromilhões, achando que são os outros que estragam isto tudo e que se fosse rico, não sofreria. Não! O neo-liberalismo é que nos quer convencer a partilhar de um suposto e inevitável cinismo que rosna, "o mundo é mesmo assim, ninguém dá nada a ninguém; não sejas parvo e trabalha, porque ao menos podes ser tu quem está no topo da pirâmide". Não! Não podemos todos enriquecer, nem é tolerável um mundo em que a maioria esteja condenada a ser explorada por uns quantos, nem sendo-nos dada uma hipótese remota de pertencer à minoria favorecida. Não e não.
Seja democracia, seja outra coisa, acredito que é preciso um sistema em que sejam os cidadãos a escolher e decidir - o nosso tem essa forma, mas a sua engenharia interna está enferma. É preciso que estejam criados os mecanismos profiláticos para evitar concentrações de poder mas, acima de tudo, abusos de poder. E nisto é preciso incluir as empresas. Como me costuma avisar um amigo próximo, há pessoas que têm uma desconfiança militante em relação ao Estado, achando sempre que o Estado se intromete na sua vida privada, que decide e intervém demais, mas depois não usam a mesma dúvida sistemática em relação às empresas. Há que fazer um esforço sério, perdendo a inocência e a hipocrisia, para colocar as pessoas no centro de tudo. Tem de haver partidos e pluralidade, não abdicaria nunca disso. E a educação de todos deve ser um desígnio global, urgente. Entretanto eduquemo-nos nós, adultos - e eduquemos as crianças - para olhar de forma crítica para tudo, para ver o poder como coisa complexa, que exige cautela e moderação. Eduquemo-nos para contestar em nós mesmos a passividade e o egoísmo que nos leva a ser o servo fiel, para ver se somos favorecidos em relação aos demais escravos.
E chega de medo. Ninguém é dono da minha dignidade. Nenhum patrão, nenhum político, nenhum decisor ou chefe consegue quebrar a minha vontade, para melhor se servir da minha precariedade. Acima de tudo, não tenho de, como trabalhador precário, deixar que toda a minha vida seja precária, como se estivesse numa prisão em que só sendo muito amável para com o guarda da cela pudesse sonhar em receber a dose de pão e água do dia. Não, não e não. Chega de medo, desse medo mesquinho e ridículo dos submissos em tempos de paz. Nada de essencial me falta para que me convença que têm poder sobre mim. Chega. A minha vida é o que eu fizer dela ou, se me render à apatia, o que deixar que façam dela. A escolha é minha.