Quinta-feira, 7 de Julho de 2011

prepotência = autoridade - lucidez

Autoridade é uma palavra tramada. Gosto de expressões do género, "fulano de tal é uma autoridade no assunto xis". Não sei se é esse o sentido original da palavra, ou se é uma apropriação. Mas gosto de pensar que a boa autoridade é assim. Alguém tem autoridade, não porque simplesmente lhe foi atribuída, mas por reconhecido valor no contexto em que a autoridade pode ser exercida. A hierarquia, só por si, não reveste quem está no topo desse tipo de autoridade. Gosto da expressão inglesa "chain of command" porque me parece enxuta e clara: a hierarquia militar assenta numa cadeia de comando, este obedece a este que manda nele e que por sua vez obedece a um outro que manda nele e assim por diante. Quando alguém pergunta, "com que autoridade é que me estás a mandar fazer isto?", na maior parte dos casos provavelmente estará a querer dizer, "por que é que, não estando eu obrigado a obedecer-te na cadeia de comando estabelecida, ainda assim pensas que podes mandar-me fazer isto?". Eu preferia que, ali, a autoridade fosse a do outro género.

Quem escolhe a vida militar já sabe, e se não sabe aprende rapidamente, que as ordens são para obedecer. Eu, que estou bem longe daquele tipo de ambientes e não fui à tropa, tenho até a ideia que, para um militar, obedecer é uma questão de honra. Obedecer, mesmo não concordando, ou melhor, principalmente quando não se concorda com a ordem, é uma demonstração de honra e rectidão. É como se a farda e a obediência permitissem, com toda a dignidade e mérito que isso envolve, uma heróica emancipação do indivíduo em relação aos caprichos do ego. Porque o soldado traz, para o exercício do seu dever, todas as suas forças e as suas melhores qualidades, abdicando das flutuações da sua personalidade e dos seus apetites e medos, pode superar-se, sendo mais do que um mero indivíduo, passando a ser um órgão, uma peça de uma máquina eficiente e vigorosa. 

Na vida religiosa, há também, pelo menos deste meu ponto de vista distante e leigo, algo dessa abnegação das vontades próprias, para se atingir um estado entendido como melhor. Até eu, nunca tendo feito votos, já senti, quando era um católico praticante, os méritos libertadores da obediência. Ao contrário da tropa, eu, como cristão, escolhia, a cada momento, obedecer. Era um acto de liberdade, ou melhor, eram actos e momentos de liberdade, de escolha consciente, os momentos em que decidia obedecer. E sentia que, ao fazê-lo, me estava a confiar a quem tinha melhor julgamento que eu. A quem tinha, aqui a palavra surge no seu esplendor, autoridade. Imagino um monge a viver isto plenamente: a ser um ser absolutamente livre, porque absolutamente livre do seu ego. Ou, pelo menos, a pôr-se a caminho dessa liberdade plena, ao aceitar a autoridade alheia, confiando nas decisões que lhe forem impostas. Lembro-me de um padre referir uma prática que havia em certa ordem religiosa, que era a de nomear como abade superior justamente o menos dotado de todos, o menos sábio. Isto fazia com que não fosse muito lisonjeiro ser escolhido como líder mas, segundo o padre que me contou isso, era uma forma de levar este acto livre e lúcido de escolher obedecer ainda mais longe. 

Nas empresas existe, geralmente, uma hierarquia definida. Ora, é fácil de perceber que os pressupostos de uma relação laboral são diferentes dos que existem para um soldado (ainda que este seja um assalariado, também) ou para um membro do clero. Numa empresa existe um contrato entre o empregador e o empregado, que vincula ambos aos direitos e deveres que se devem mutuamente. Não há pátria para defender, nem interessam as noções que cada um tem de honra (nesse sentido absoluto, de dever para com uma causa maior). Não existe uma moralidade que se acredita emanar do divino. Como alguém dizia há uns tempos num blogue de direita, nem sequer é apropriado dizer que o empregador "oferece emprego". O trabalho é um bem que é vendido pelo trabalhador. Como concluía o autor desse blogue, o trabalhador vende o seu trabalho, não é o empregador que oferece emprego. Essa troca comercial é definida e balizada pelo contrato de trabalho. E mesmo quem não tem um contrato de trabalho, como é o meu caso neste momento, está ao abrigo dos deveres e direitos que a lei do trabalho estabelece. 

É no contexto das relações laborais que as implicações do conceito de autoridade são mais manhosas. Ao contrário do que acontece na vida militar, em que as ordens são para obedecer, mesmo que nos pareçam pouco razoáveis ou que ponham mesmo a nossa vida em risco, numa empresa, as ordens não são para obedecer só porque sim. Nem todas as ordens devem ser obedecidas, nem sempre, nunca só porque sim. E, mesmo eu, que apresento aqui a minha visão crítica deste assunto, estou contaminado pelo habitual léxico e carga simbólica que o acompanha. "Ordens" nem sequer é a palavra indicada. Um chefe diz o que há para fazer, porque é esse o trabalho que lhe compete. Ao contrário do que pode acontecer quer na vida militar, quer na vida religiosa, a desobediência não deve, quando acontece, ser motivo de escândalo. Um soldado que desobedeça põe em causa a própria noção do que é um soldado. Um monge que desobedeça estará provavelmente a mostrar que não tem as qualidades de humildade e abnegação que são esperadas no tipo de vida que escolheu.

Já um trabalhador que se recuse a fazer o seu trabalho está apenas a incumprir o contrato que assinou (uso esta expressão, mesmo se também me refiro aos que, como eu, não têm contrato). Não está a fazer nada de mais. E é simples, se insiste em não querer fazer o seu trabalho, pode ser despedido por justa causa - isto partindo do princípio que a expressão justa causa não é já um arcaísmo. Chamo a atenção para o facto de eu ter dito, "um trabalhador que se recuse a fazer o seu trabalho" e não "um trabalhador que desobedeça a uma ordem". São coisas muito diferentes. Enquanto, para um soldado ou para um monge, obedecer é, mais que tudo, o seu trabalho e o seu desígnio na vida, para um trabalhador não. Quando um oficial dá uma ordem aberrante e um soldado desobedece ou quando o tal abade superior pouco sábio dá uma ordem desastrosa e o monge desobedece, o escândalo é a desobediência. Numa relação laboral, uma "ordem" aberrante é apenas isso mesmo, aberrante. Cumpri-la é o escândalo. E esse escândalo não diminui por mais que se repita. 

Estamos talvez demasiado habituados a escutar impropérios de um chefe ou patrão que se sentiu "desautorizado". Achamos normal que uma parte do esforço, no local do trabalho, seja lidar com a prepotência desta ou daquela pessoa. Quase que achamos uma qualidade, um ponto a favor no nosso perfil de trabalhadores, sermos como aquelas prostitutas maternais, que fazem as vezes do psicólogo, escutando e suportando a loquacidade e a perversão dos clientes. É como se a capacidade de aturar falta de razoabilidade dos que precisam mesmo é de ir ao psicólogo fosse algo de que nos devemos orgulhar, talvez mesmo colocar no currículo, em "outras habilitações". Ora, o assédio, no local de trabalho, é intolerável, seja de que tipo for. Não há que suportar as diatribes de quem parece precisar da sua dose diária de humilhação do subalterno. Nem nos deve preocupar se o chefe ou patrão humilha porque é pessoa desequilibrada ou porque acha que é privilégio do lugar que ocupa ou porque acha que tem um efeito pedagógico em quem ouve. É simplesmente inaceitável. E só o medo de perder o emprego nos faz aguentar tanta falta de respeito. Ora bem, há momentos em que, por respeito a nós mesmos, temos de enfrentar o medo. E responder com firmeza branda, com silêncio firme, com dignidade, com costas voltadas. Para voltar a fazer o nosso trabalho, em que tanto nos empenhávamos até que nos interromperam para, supostamente, nos pôrem "no nosso lugar". Aconselho a leitura deste post do blogue da Ursula K. Le Guin, em que ela se refere à forma como tratava a sua colaboradora e como tinha sempre presente quão fácil é permitir que as relações entre empregador e empregado favoreçam a desigualdade e a prepotência.

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