Quinta-feira, 25 de Agosto de 2011

o fim do regabofe

Muito graças ao meu amigo Afonso, tenho sido obrigado a considerar as (enormes) desvantagens que os downloads ilegais acarretam. Ia acrescentar, "para quem cria e quer viver do trabalho que faz". Tradicionalmente, tenho tentado uma ponte por aí, dizendo ao Afonso que percebo e estou solidário com a situação de um músico que se quer dedicar exclusivamente à música e, hoje em dia, dificilmente consegue fazê-lo. E depois, tradicionalmente, digo: mas a partilha global de música beneficia claramente a música, ainda que não beneficie quem esteja a tentar viver segundo um modelo que já não funciona há uns 10 anos.

Mas tenho de admitir a possibilidade de os downloads prejudicarem, de forma mais alargada, a própria música. Custa-me fazê-lo, e parece-me artificial, como se procurasse pensar segundo um tipo de raciocínio que não é o meu. Na minha forma de ver as coisas, a música é das actividades artísticas mais ancestrais, muito anterior à possibilidade de se gravar som para reproduzir mais tarde, muito anterior à capacidade de se produzir em massa uma fita magnética, um vinil, uma cassete, um mini-disc, um CD, etc. Costumo dizer que nós é que já só conseguimos pensar na música enquanto indústria da música e não enquanto arte. Insisto que não se consegue ser dono da música, que sempre se reproduziu e partilhou, antes mesmo de se poder registar. Que uma melodia escutada era uma melodia tocada de ouvido noutra situação. Que basta ter uma pauta para tocar uma obra com centenas de anos. Uso um outro argumento que considero o mais importante - e que é, sem dúvida, aquele que tem mais peso para mim. 

Nas últimas décadas, quase o século XX inteiro, foi a indústria da música que comandou as operações, em relação ao que se ouve, ao que é popular, ao que é entendido como moda e até ao que é entendido como contracultura. O que mudou mais foi esse paradigma: uma editora sabia, com um nome como a Madonna ou o Michael Jackson, que gastava bastante dinheiro na produção do próximo álbum e mais dinheiro ainda na sua promoção mas que tinha retorno quase garantido. Havia, sempre havia, flops, álbuns que não vendiam, que davam prejuízo. Mas sabia-se que, feitas as contas, no final havia lucro, muito lucro. O argumento que uso é que isso ter ficado em ruínas é maravilhoso, é óptimo para a música. E continuo a acreditar nisso.

Uma das coisas que gosto mais nisto de se poder, por enquanto, fazer o download de tudo e partilhar tudo é que as editoras perderam muito do poder de influenciar o que se ouve. Por muito dinheiro que gastem no novo vídeo dos Tokio Hotel ou da Lady Gaga, não é garantido que vendam. E não é a parte de não venderem que me agrada (não tenho nenhum ódio de estimação às editoras), é mesmo a parte de não se escutar o que as editoras querem que me agrada imenso. Não há campanha publicitária que garanta que determinada música irá ser escutada pelas massas e adoptada como seu hino. Isto, repito, vejo como algo de maravilhoso. Ninguém sabe o que irá ser escutado, nem como influenciar (com resultados garantidos) a fugidia dinâmica que o estabelece.

Também repito que não me parece mal, pelo contrário, que quem está a começar na música não tenha ilusões e saiba que dificilmente terá uma banda que será os novos Rolling Stones. Não me parece que à música, a arte, não a indústria, façam realmente falta fenómenos como os Rolling Stones ou os Beattles. Tenho até uma visão negativa desses fenómenos, de bandas que foram absolutamente influentes - porque se tornaram fenómenos de sucesso. Isto faz com que as bandas a seguir sejam influenciadas pelo sucesso que determinada fórmula teve e não, como antes da indústria e da possibilidade de gravar e distribuir em massa, pela música em si. Isto foi bom para as editoras, que sempre procuraram o novo filão (o rockabilly, o punk, o post-rock, o grunge, o nu-metal, etc.) e ajudaram a produzir fileiras de bandas a reproduzir um género de sucesso. E a história da música popular do século XX foi feita assim, e contamo-la com ignorância ou hipocrisisa: como se a influência de uma banda fosse sobretudo mérito artístico, e não resultado de marketing e estratégia empresarial. O fim disto, como podem adivinhar, vejo-o com muito bons olhos.

A questão que me preocupa é que há, de facto, uma crise grave, que dura pelo menos há 10 anos e se vem agravando continuamente, na indústria da música e que, isso é que é terrível, pode mesmo prejudicar quer os músicos quer os que escutam música. Não porque seja, para mim, um problema que uma banda não se possa tornar nos próximos Beattles. Mas porque se perdeu quase por completo a noção de que o trabalho de um músico tem valor e deve ser pago. E isso, inevitavelmente, afasta da música pessoas que poderiam fazer um trabalho de grande qualidade. Eu gasto mais dinheiro em música do que nunca. E quanto mais downloads faço, mais música conheço e mais dinheiro gasto. Mantenho, em relação a alguns músicos, a excitação de ter saído um novo álbum, e vou à loja comprar. Em alguns casos, depois de já ter a música no computador, vou à loja comprar, porque quero dar dinheiro àquele músico. Mantenho o prazer de me perder numa loja de música e acabar por sair de lá com um álbum que não fazia ideia que ia comprar. Ou melhor, o correcto é dizer, descobri estes prazeres com os downloads, já que quando era adolescente gastava zero em música, copiava tudo em cassete. E escutava meia-dúzia de bandas, e agora estou sempre a descobrir música nova, que é potencialmente música que quero comprar. Quando falo de dowloads, não falo apenas em obter música de graça. Nem é isso a parte melhor. A parte melhor é ter facilmente acesso a música rara, é, a partir de um artista ou um álbum, descobrir todo um género ou uma década ou um movimento, ou um instrumento. A parte melhor é essa possibilidade de navegar pela história da música e - acima de tudo - poder escutar mais música. Isto funcionaria mesmo sem downloads gratuitos. Bastava que a música estivesse online, se pudesse escutar antes de comprar e fosse muito barata. Não, não me digam que isso acontece já. Nem todos estão no Myspace. Talvez até por causa dos downloads ilegais, ou por vontade de contrariar a aceleração da tecnologia, muita música boa só está mesmo disponível em downloads ilegais, que melómanos partilham com o mundo. Tentem encontrar música do Keith Rowe, por exemplo, ou do Fennesz, ou das Afrirampo. É estranho e terrível, a tecnologia que permite que se conheçam os músicos mais incríveis que existem no mundo, não lhes dá, a seguir, meios de se sustentarem. É triste e não há, de momento, uma solução que seja boa para os músicos, para a música e para quem escuta.

Esta crise, começo a temer, vai cair em cima dos que escutam música, depois de já ter abalado os que a fazem. Não acredito que isto se mantenha assim indefinidamente. Não me parece possível acabar com os downloads. Há até, nos últimos anos, quem se ande a dedicar a criar programas mais blindados, com sistemas de encriptação muito difíceis de contornar, como o OneSwarm, projecto de uma universidade americana, porque se prevê que o tráfego dos utilizadores de internet seja espiado, à procura de ilegalidades. Quando a lei se tornar persecutória (e temo que se vá tornar persecutória), haverá tecnologia (já existe) para escapar à vigilância. Mas, parece-me, não será possível fazer downloads com a facilidade que se fazem agora. O medo levará a que não se partilhe e que fique muito pouco disponível - e, tragicamente, só os nomes mais conhecidos e comerciais é que estarão disponíveis, prevejo.  Tenho receio quanto ao futuro. Não tanto por achar que grandes músicos não vão poder ter uma vida de rock star, como desejariam, mas porque me parece que no futuro não vou poder escutar tanta música como escuto agora. E isso prejudica os músicos, não os grandes nomes, mas os outros. Comprei música das OOIOO graças aos downloads. Num futuro sem downloads, eu nem sequer ouvirei falar de uma banda como as OOIOO. Estou já triste pelo futuro adivinhado. É terrível pensar que, num futuro próximo, não me vai acontecer o que aconteceu no passado recente: descobrir um Zakir Hussain, um Derek Bailey, uns tUnE-YarDs, uns Hella, uns Hanatarash, umas Afrirampo. Estou triste e preocupado. Um futuro em que só os ricos se podem dar ao luxo de ser melómanos é um futuro feio.