Sexta-feira, 14 de Outubro de 2011

amanhã não estarei sozinho

alimenta-nos, a nós os apaixonados ainda por corresponder, esta matreirice do coração, que, quando lhe convém, sabe ser racional e manhoso. acreditamos que tão grande desejo se converteria em laboriosa competência na felicidade alheia. pensamos, intrigados e revoltosos: como é possível que se desperdice este potencial, esta capacidade de amar, esta aptidão para instigar o prazer em interposto corpo, esta proficiência nas artes amorosas? como é possível que, tão perto da mais absoluta alegria, tudo fique incompleto, irrealizado? a paixão é como um vírus, um microorganismo mutável, que sobrevive às mais inclementes temperaturas, aos ambientes mais adversos; um vírus que toma de assalto as células do coração, para fazer delas as bases para o seu domínio. parece interessar-se apenas na procriação da sua prole, no perpetuar das suas maquinações. e demonstra uma preferência por organismos não apaziguados, desprotegidos e suplicantes. é como se suspeitasse que a consumação a poderia aniquilar. ainda não sabe mudar de hospedeiro. e assim que fique exposta  a anticorpos de corpo desconhecido, adquiridos em festiva troca de fluídos, desintegra-se. devo lembrar-me: a paixão é bicho que gosta de metáforas, aliás, prefere receber a realidade pelo filtro da simbolização, ou através da lupa da mistificação. não lhe interessam as coisas simples, as simples alegrias dos corpos nus. não lhe interessa habitar mente que sinta que a dor é dor e a alegria é alegria. à paixão interessa-lhe alegrar-se na dor, intensificar-se na frustração, chafurdar na solidão. pois eu gosto mais de beijos, do sal do suor, do calor entre corpos despidos, do que da paixão. há até outros sentimentos, outras atitudes do eu amoroso, a que se pode chamar paixão, com toda a propriedade. e que começam, precisamente, quando se consuma o desejo e duas vontades se fundem na partilha do prazer de viver.