alimenta-nos, a nós os apaixonados
ainda por corresponder, esta matreirice do coração, que, quando lhe
convém, sabe ser racional e manhoso. acreditamos que tão grande desejo
se converteria em laboriosa competência na felicidade alheia. pensamos,
intrigados e revoltosos: como é possível que se desperdice este
potencial, esta capacidade de amar, esta aptidão para instigar o prazer
em interposto corpo, esta proficiência nas artes amorosas? como é
possível que, tão perto da mais absoluta alegria, tudo fique incompleto,
irrealizado? a paixão é como um vírus, um microorganismo mutável, que
sobrevive às mais inclementes temperaturas, aos ambientes mais adversos;
um vírus que toma de assalto as células do coração, para fazer delas as
bases para o seu domínio. parece interessar-se apenas na procriação da
sua prole, no perpetuar das suas maquinações. e demonstra uma
preferência por organismos não apaziguados, desprotegidos e suplicantes.
é como se suspeitasse que a consumação a poderia aniquilar. ainda não
sabe mudar de hospedeiro. e assim que fique exposta a anticorpos de
corpo desconhecido, adquiridos em festiva troca de fluídos,
desintegra-se. devo lembrar-me: a paixão é bicho que gosta de metáforas,
aliás, prefere receber a realidade pelo filtro da simbolização, ou
através da lupa da mistificação. não lhe interessam as coisas simples,
as simples alegrias dos corpos nus. não lhe interessa habitar mente que
sinta que a dor é dor e a alegria é alegria. à paixão interessa-lhe
alegrar-se na dor, intensificar-se na frustração, chafurdar na solidão.
pois eu gosto mais de beijos, do sal do suor, do calor entre corpos
despidos, do que da paixão. há até outros sentimentos, outras atitudes
do eu amoroso, a que se pode chamar paixão, com toda a propriedade. e
que começam, precisamente, quando se consuma o desejo e duas vontades se
fundem na partilha do prazer de viver.