Sexta-feira, 14 de Outubro de 2011

o presente, a mim pertence

Dizia eu ontem a uma amiga, talvez ainda tentando convencer-me a mim próprio, que a situação é tão instável e as promessas de que piore tão consistentes, que de uma forma perversa e surpreendente, isso até era libertador. Quero lá saber do futuro. Que se foda. Despeçam-me, tirem-me o salário. Já não me sinto ameaçado por isso. Tenho a felicidade de contar com uma família e com amigos que não me deixariam passar fome. De resto, retiro todo o poder a quem me queira contratar o medo. Abandono-o, a como a um dejecto. Posso dar-me ao luxo, é necessário referi-lo, de me sentir livre perante a precariedade, porque não tenho filhos nem pessoas a meu cargo. Mais ninguém depende do meu salário, além de mim.

Já que não controlo tanta coisa, que me concentre naquilo que depende de mim. Posso trabalhar com honestidade e profissionalismo. Posso cuidar das minhas relações pessoais. Posso avançar com projectos pessoais e colectivos. Tudo isto posso continuar a fazer, mais focado ainda no essencial, agora que não me sinto amedrontado. Venha a crise, esta crise de valores (finalmente, uma situação em que uso esta expressão que tanto desprezo), uma crise de valores em que os seres humanos perderem o seu valor, deixaram de estar no centro da construção da sociedade. Claro que sempre estivemos nesta crise. Mas, depois do século XX, tudo parecia encaminhado. Escrevemos os direitos humanos. Passou a existir uma noção de que os estados são o garante (outra expressão que nunca usei) da justiça social, que são mesmo o último reduto dos mais desfavorecidos e que têm como vocação estabelecer as bases para a dignidade dos cidadãos.

Chegámos a uma altura em que Estado Social é palavrão. Proferir Estado Social é trazer quem nos oiça para um imaginário em que há preguiçosos e indigentes a querer viver às custas dos outros e toda a espécie de gente sem nenhum espírito empreendedor que acha que tem direito a que lhe paguem tudo e nem sequer vestígios de responsabilidade e sentido de equilíbrio. Eu, sinceramente, não percebo qual a alternativa a um Estado Social. Um Estado Anti-Social? Deve ser discutido o que é gratuito ou não, o que é da conta do Estado e o que não é, em que medida e por que formas devem ser protegidos os cidadãos. Mas que um Estado democrático do século XXI não tenha Social como principal atributo, parece-me de loucos. O certo é que ultimamente o Estado Social tem sido apresentado como coisa do passado, um arcaísmo, uma utopia em que só os saudosistas mais crédulos ainda acreditam

Eu, repito, deixei de me angustiar pelo futuro. Vou fazer o que possa para melhorar a minha situação e, à minha escala minúscula, a do país. Mas não há patrão, medida de austeridade, imperativo do mercado ou o caralho, que me faça continuar amarrotado e pobrezinho, no meu cantinho, rezando para merecer, pela minha submissão, a migalha que sobrar. Nem pensar nisso. Venham o futuro e as troikas. Cá estarei.