Quinta-feira, 17 de Novembro de 2011

moderadamente burro

Isto é uma descoberta recente, sobre mim mesmo, fruto das minhas deambulações racionais, que eu também cedo muitas vezes ao pecado da gula mental. Tendencialmente, dou mais importância a saber "o quê" do que "o porquê". Demorei muito tempo a conseguir sintetizar a coisa assim. Quem me conhece, sabe quem entre os meus parcos talentos, não se encontra o poder de síntese. Talvez por ainda me ser ainda tão difícil manejar a prática de sintetizar, ao comprimir o significado do que descobri naquela expressão, ficou tudo muito hermético. Vou tentar explicar-me.

Não me pergunto tantas vezes, "porque é estou a fazer isto?" como "o que é que estou  fazer?". Não é tão interessante, para mim, a pergunta, "porque é que existem estrelas e planetas?" como "o que são estrelas e planetas?". Aliás, se for mesmo honesto, considero a pergunta "porque é que existem estrelas e planetas?" imbecil. Sei que nos documentários televisivos aparecem simpáticos e sorridentes cientistas com frases que começam precisamente por "então, porque é que existe a via láctea?". Mas a mim parece-me uma pergunta mal feita. Própria de uma criança. Numa criança não tem mal escutar-se "mãe, porque é que existem pessoas más?". Quando uma criança começa a perceber que há pessoas que fazem as outras pessoas sofrer de propósito, é normal e saudável que sintetize o seu aturdimento num vago e carente "porquê?". De um adulto o que eu espero é que ele se interrogue de forma profunda, "o que são pessoas más?"

Eu, o que quero é perceber a natureza das coisas, não é perceber porque é que há coisas ou porque é que elas têm natureza. Ou melhor, não tento evitar saber os porquês, não fujo deles. Só não acho que posso explicar uma coisa antes sequer de saber que coisa afinal tenho à minha frente. Tenho tido alguns desentendimentos que são fruto desta abordagem diferente. Outros serão apenas fruto da minha teimosia e outros ainda do voluntarioso entusiasmo com que falo mesmo dos assuntos de que não percebo nada, o que não abona nada em favor de quem acabou de escrever a frase anterior à frase antes desta.

O meu interesse pelo funcionamento das coisas não é igual ao interesse de quem busca as grandes explicações, isso é claro. Quando eu me interesso pela libertação de um químico no cérebro, e eu interesso-me infinitamente por coisas como a libertação de químicos no cérebro, não estou à procura das mesmas coisas de alguém que quer saber se existe ou não livre arbítrio ou que está interessado em saber porque é que os seres humanos, sendo tão evoluídos, deixaram o planeta neste estado. Eu, quero deixar bem claro, tenho curiosidade pelos grandes temas. Mas como a minha tendência é olhar para os pequenos fenómenos, dou por mim a falar com grande entusiasmo e a dar a entender a quem me escuta que penso que os pequenos fenómenos oferecem de bandeja as grandes explicações. 

De qualquer forma, estudar aturadamente os aspectos funcionais da, por exemplo, fisiologia humana, não é de forma nenhuma tarefa menor, que deva ser encarada como se os seus resultados fossem meramente medições e pesagens. Há um exemplo que gosto de dar: a mera existência do clítoris é um tratado sobre a sexualidade. É que a única função (e usar o nome função já é explicar, porque o corpo não se designa a si mesmo) desse órgão é mesmo proporcionar prazer - e depois ficamos nós a debater-nos com todas as implicações disso, terá o prazer uma função? Terá a evolução dado uma ajuda para favorecer o coito? Quando, ao estudar mais o corpo, alguns sugerem que o clítoris se trata de um pénis que, nos indivíduos de sexo feminino, não se desenvolve totalmente, ainda há mais dados para discutir. Toda essa discussão só é possível porque houve primeiro uma observação. Primeiro "o quê", só depois "os porquês". Quando a biologia, depois de muitos anos de estudo, finalmente estabelece que a oxitocina, por exemplo, desempenha determinada função, isso, só por si, sendo um pequeno fenómeno, não é coisa menosprezável. Eu, que sou bipolar, estou muito grato a que se saiba uma série de coisas que se passam quimicamente dentro do meu corpo, graças a isso, tenho uma vida funcional. Isso não dá um sentido ulterior à minha vida, pois não, cabe-me a mim, encontrá-lo. Mas não é coisa pouca. Por isso, olhar atentamente para um corpo humano, conhecê-lo, não é apenas mera tarefa matemática e contabilística de medição e inventariação. É consciência no sentido da palavra inglesa awareness, de se ter noção do que nos rodeia (e do que está dentro de nós e do que constitui a matéria).

Outra forma de traduzir a hipertrofiada síntese do «dou mais importância a saber "o quê" do que "o porquê"», é dizer que valorizo mais a lucidez que a sabedoria. Ou que, arriscando usar conceitos que podem baralhar um pouco as coisas, que valorizo mais a consciência que o conhecimento. No fundo, ficaria aqui muito tempo, a fazer o que habitualmente faço, que é o contrário da síntese - a minha clássica verborreia que de uma ideia simples faz nascer uma miríade de variações. Eu quero é sentir, estar mesmo presente no momento presente, ter consciência do que me acontece e do que sou e, por extensão, do que é um ser humano, do que é a matéria, do que são as coisas, a vida. Muito mais do que compreender e explicar, ter uma visão do futuro, saber de cor as versões do passado. Atenção que disse "muito mais do que" - é uma preferência apenas, eu gosto mais de courgetes do que de cenouras, mas não quero banir as cenouras. Fica sempre bem dar um exemplo estúpido, para demonstrar a estupidez que a seguir se defende. É que quero concluir dizendo que prefiro ser moderadamente burro e bastante lúcido a ser sábio e louco.

0 comentários: