Segunda-feira, 28 de Novembro de 2011

o pior e o melhor

Talvez não seja tão estranho assim. No que toca à criação artística, 2011 tem sido o melhor ano da minha vida. Dizê-lo assim, numa frase clara e inequívoca, sabe-me particularmente bem porque em 2011 trabalhei sobretudo fora da área em que poderia sentir-me mais confortável, a escrita. Apresentei, com a Sandra Andrade e o Hugo Loureiro, o espectáculo "Der Spleen". Com o Rui Almeida e a colaboração da Maria Oliveira, editei o álbum "glass over water under light". Com estes dois amigos, vou apresentar no próximo dia 17 o espectáculo sonoro "Vidro Água", que terá já consideráveis evoluções em relação ao espectáculo original que foi apresentado na Casa do Professor. Organizo com o Nuno Gomes Lopes, e anteriormente também com o Afonso Pimenta, as Conversas no Tanque. 

Estas são algumas das acções públicas de maior fôlego, os projectos com rosto mais visível. Mas desde há dois anos que se tem concretizado, de forma deliciosamente fragmentada, a natureza irrequieta da minha criatividade. Ter amigos com uma imaginação que se traduz de forma prática ajuda-me muito a passar à acção, em vez de me ficar só pelo rebuliço mental das ideias. Elencar, no parágrafo anterior, algumas das coisas que tenho feito, é muito importante para mim. 2010 foi um ano desastroso em termos financeiros, em que acumulei salários em atraso, e o que ganhava, se me pagassem, era o salário mínimo. E 2011 o ano em que tudo culminou num despedimento, sem que tenha direito ao subsídio de desemprego. Estes dois anos foram também o culminar de um percurso de uma década de transição, desde o curso de jornalismo, do desejo vago de escrever e do contacto cada vez maior com pessoas ligadas à expressão artística. Principalmente nos últimos quatro anos, fui muito estimulado por esse contacto com a criatividade dos outros. Se fui perdendo capacidade de me sustentar, e no emprego tudo se foi degradando, fora do emprego as coisas iam melhorando, o trabalho foi sempre surgindo, de um projecto nascia outro, um amigo apresentava-me outro, de uma ideia que não resultava surgia a ideia de experimentar uma solução diferente.

Não, não é assim tão estranho. O dinheiro não me comanda a vida. O dinheiro paga as contas. E é só. A vida não me corre mal. Sou precário, se pensar nessa parte da minha vida, e trata-se de uma parte importante. Mas tudo o resto é robusto e saudável. A minha rede de afectos e as minhas relações familiares não são precárias. Tenho uma vida estimulante. E o ano de 2012, ainda falta mais de um mês para começar, já está bastante preenchido. Acredito que será um ano muito bom, de facto, não me lembro de ter, antes de um ano começar, tão bons motivos para estar optimista. Pode parecer estranho, mas não é. Fui despedido, mas acaba por ser um pormenor. É um pormenor preocupante, mas é um pormenor.

0 comentários: