Sexta-feira, 25 de Novembro de 2011

quero não ter por que lutar

Não quero uma ditadura, uma guerra, uma crise, para ter então por que lutar, para me poder então unir ao meu semelhante e, juntos, resplandecermos no nosso melhor. Não quero descobrir, na miséria, a gloriosa capacidade de partilhar o último naco de pão, a generosidade de quem não tem nada, a empatia pelo que sofre a mesma opressão que me aflige. Não quero sentir na pele a urgência de ter que lutar para sobreviver.

E nunca vi na política nenhum vestígio de emoção, dessa emoção de coisa que nos alimenta o espírito, nos lambe as feridas da existência, nos dá sentido às questões mais incómodas e um rumo para as batalhas inadiáveis. A política é um veneno que me contamina. Tudo o que faço, todas as decisões que tomo em sociedade e as que, por descuido ou falta de cidadania, omito, são políticas. A política é inevitável. Não é coisa desejável.

A miséria há-de sempre surpreender-nos a meio do conforto e o sofrimento é uma das verdades fundamentais da existência. Nunca me hão-de apanhar a fazer a apologia do guerreiro, só porque ele luta pela paz. Faço a apologia da paz e não a exaltação das virtudes do guerreiro -  que defendo dever ser o mais temporário possível. Se temos de lutar, que o incómodo, a dor que nos causa ter de o fazer, nos motive ainda mais para que sejamos eficazes e ferozes. Não vejo esta crise como uma oportunidade, detesto esse tipo de linguagem. Estar numa caverna não é uma oportunidade de encontrar uma luz ao fundo do túnel. É estar na merda de uma caverna, à procura de uma saída. E a vida é lá fora. Procurar a saída, bater com a cabeça no escuro, não é ainda vida. Sei que os combatentes, muitas vezes, recordam os momentos em que lutaram como os melhores da sua vida. Tenho todo o respeito do mundo por isso. A questão é que a humanidade deve mostrar a sua gratidão aos guerreiros das boas causas; mas a vocação da humanidade não é - parece-me natural - ser toda ela guerreira, a toda a hora, para toda a eternidade. Os que ocupam Wall Street, os que fazem greve, os que fizeram o 25 de Abril, os que pegaram em armas para derrubar uma ditadura, de certeza que não queriam que todos os dias de todos os seres humanos, para sempre, fossem assim, por muito que ali vivessem a solidariedade em abundância e a luta pelo bem comum. O que eu digo é que a luta de todos eles é para que não seja sequer preciso lutar, para que não haja motivos para se lutar.

O que eu quero não é a luta por um mundo melhor. O que eu quero é um mundo melhor. Quero a paz. E a prosperidade. E a justiça para todos. Duvido muito que seja nestas lutas tão urgentes e inadiáveis (e os adjectivos do costume) que venha ao de cima o nosso melhor. Isso acontecerá com alguns. Creio até que é com a energia de algumas das nossas partes mais obscuras que às vezes encontramos forças para lutar. Eu acredito que o nosso melhor só acontece, só vem ao de cima, quando vivemos em paz e todos são tratados com justiça. Sinto-me grato porque cresci e vivo numa sociedade democrática e em paz. Há tanto que está mal e tanto que preciso de fazer. O que quero é poder contribuir para que os que venham a seguir se possam sentir gratos por não ter que viver com os venenos da política actual a contaminar tudo o que fazem.

Para o meu país desejo décadas de o mais ininterrupta possível boa gestão dos recursos que temos, de um rumo de prosperidade e desenvolvimento em que a economia seja uma base de viabilidade e sustentabilidade e não o santo dos santos e o fim último. Desejo que se chegue a um ponto em que seja quase (repito, quase) indiferente quem ganhe as eleições, porque as instituições funcionam e há justiça social. Um ponto em que, finalmente, a democracia é exercida pelos cidadãos, que participam activamente em todas as esferas da vida em sociedade, no seu bairro, na sua cidade, na sua região. Quero que o meu país deixe de ter cidadãos que precisem de olhar para os políticos com este misto de repulsa, inveja, esperança, masoquismo, complexo sebastianista e sentimento de fillhinho pródigo. Que os passe a ver como funcionários públicos. Que, sei que pode parecer aberrante desejá-lo, o discurso político se esvazie, deixe de pertencer aos políticos, que estes sejam acima de tudo funcionários públicos, bem pagos e extremamente competentes. E, nas associações cívicas, o discurso político seja vibrante, que ali as opiniões e as vontades de decidir colidam e se concretizem. Espero, obviamente, que haja sempre vigilância, que as urnas e as ruas sirvam para se derrubar a incompetência, a fraude e o abuso de poder. Quando digo que espero que os políticos sejam funcionários públicos é porque os quero ver a executar os programas e os orçamentos e não me interessa que me comovam com os seus discursos - esses quero vê-los nos meus bairros, escutá-los dos meus concidadãos. Quero isso, para que a política não seja esta coisa que nos provoca emoções fortes mas que sentimos que é suja e com a qual tantas vezes não queremos ter nada - estou convencido que nos deveríamos apoderar dela inteiramente. Os governantes devem governar. Tudo o resto, que é imenso, tem de ser feito por nós, antes durante e depois de cada eleição.

Sei que nunca poderemos baixar os braços, porque nunca teremos a sombra da utopia para dormir a sesta. quando o Joaquim Sapinho exibiu os Diários da Bósnia num festival de cinema na Coreia do Sul - contou -, foram ter com ele, muito interessados no filme e fizeram muitas perguntas. Ao contrário de outros países, ali a reacção foi, muito claramente, a de que aquilo poderia acontecer ali, na Coreia do Sul, num futuro mais ou menos próximo. O filme não foi visto simplesmente como um documento histórico sobre um outro povo, uma outra realidade. Os coreanos tiveram uma guerra, como povo ficaram separados. Os dos sul têm uma democracia capitalista que podemos considerar próspera, razoavelmente confortável. Seria de esperar que vissem aquele filme com distanciamento, com a empatia que se pode ter por ver seres humanos a passar por algo tão terrível. Mas o que aconteceu foi que tiraram dali a lição de que aquilo que aconteceu nos balcãs poderia repetir-se no seu país, um país próspero, democrático, rico. É isso que espero - não que veja a sociedade sul-coreana como um modelo a seguir - espero que nunca percamos a memória. Que possamos ver o passado como um catálogo dos horrores de que somos capazes, a qualquer momento, de cometer. O que pretendo, do presente, é torná-lo uma página desse catálogo. Para que o futuro tenha mesmo futuro. E não se gastem demasiadas páginas num capítulo tão desnecessário e aberrante da história da submissão dos povos à economia.

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