Quem já me ouviu falar do que gosto muito no desporto, provavelmente já me ouviu falar do Chinlone, que é o desporto nacional da Birmânia. É um caso de estudo interessantíssimo para o contexto desta crónica. É que trata-se de um desporto de equipa com bola, com mais de 1500 anos, sem competição. Não existe equipa adversária. E não existe pontuação, nem vencedores, nem vencidos. As equipas sucedem-se, mas não existe nenhum sistema de classificação, que determine que uma equipa teve uma performance melhor que as outras. Este vídeo é um excerto do filme Mystic Ball, documentário sobre este desporto, e dá uma ideia sobre o tipo de movimentos dos praticantes e sobre a dinâmica que se estabelece entre os elementos de uma equipa.
Eu não tenho, espero, a atitude desconfiada e moralista de quem considera o desporto de competição inferior ao desporto que é praticado por outras razões. No surf, por exemplo, existe a expressão "soul surfer", amplamente discutida e rejeitada por muitos, para referir os que supostamente praticam surf por amor ao mar e à modalidade e por uma vocação quase espiritual, por oposição aos surfistas profissionais, "vendidos" ao circuito competitivo, aos patrocinadores e às exigências do calendário e dos sistemas de pontuação e de classificação de manobras e estilo. Eu, ao falar aqui de competição e de não-competição, não quero ir por aí. Da boca de surfistas que admiro, como o Laird Hamilton, que menciono muitas vezes, já escutei várias vezes que esse preconceito não faz sentido. Ele já surfou várias vezes com o Kelly Slater e com o Rob Machado (dois nomes grandes do circuito profissional) e garante que são dois surfistas apaixonados pelo mar e tão "soul surfers" como ele ou qualquer amante do mar e que o facto de competirem, no caso deles, permite-lhes fazerem o que mais gostam de fazer na vida.
O Chinlone faz a ligação entre as artes marciais e os desportos de bola com equipa, que, nos dias de hoje, geralmente nos apresentam alguns dos atletas mais bem preparados, quer a nível físico, quer a nível mental, quer táctico, quer ao nível dos automatismos de equipa. Nas artes marciais, também encontramos atletas de um nível físico e mental excepcional. O que geralmente acontece é que não é necessário nenhum estímulo competitivo (no sentido de haver campeonatos organizados) para que surjam atletas com esse nível excepcional. No futebol, no basket, no râguebi, o que dizemos - e penso que com alguma razão - é que campeonatos competitivos produzem mais talento e estimulam bons níveis técnicos; sem eles não teríamos atletas como o Cristiano Ronaldo ou o Michael Jordan. No caso do Chinlone há uma ponte. Porque, embora não haja pontos, classificação, nem vencedores e vencidos, os praticantes estão expostos ao nível dos melhores. Já nas artes marciais, o caminho, a progressão, é mesmo individual. É uma aprendizagem de disciplina, de esforço do indivíduo, em que existe o apoio dos companheiros e a orientação do mestre, mas em que não é o ambiente competitivo (e muito menos o apoio dos adeptos ou a esperança do reconhecimento e da glória) que estimula o crescimento técnico. E a excelência acontece. Os melhores das artes marciais surpreendem-nos, mostram-nos que o corpo humano é capaz de coisas impensáveis.
Aqui interessam-me sobretudo as pontes. No surf, no skate, nas duas rodas, existem imensas pontes entre as competições e o que os praticantes fazem fora das competições. Uma competição tem sempre limitações. Já o disse, não vou falar de purismos, de vender a alma a patrocinadores. É mais do lado técnico. Quando se tem de inventar uma forma de classificar e atribuir uma pontuação a movimentos que começaram por ser muito livres, como movimentos com uma prancha de surf ou de skate, ou movimentos com uma bicicleta, está-se a condicionar o que o atleta vai fazer. Quando se tem uma estrutura e uma filosofia em termos de pontuação, todo o treino e a evolução técnica dos atletas é orientada para se encaixar nessa estrutura. No documentário Dogtown and Z-boys, sobre a equipa de skaters Zephyr, dos anos 1970, é possível ver esse choque. Essa equipa reinventou o skate, ou quase se poderia dizer inventou o skate como o conhecemos hoje. No documentário podemos ver como foram recebidos os seus movimentos inovadores nas primeiras competições em que participaram. Tiveram pontuações péssimas, eram vistos como miúdos que não entendiam o que eram o skate e não queriam dar-se ao trabalho de fazer o que os melhores da actualidade faziam. As pontuações que recebiam (a princípio) eram de esperar. Não havia forma de classificar os movimentos que tinham inventado (e que agora são os movimentos clássicos do skate). O que eles trouxeram para as competições foi fruto de várias coisas: da sua experiência como surfistas - por isso andavam a tentar surfar no asfalto -, da sua experiência de andar de skate em condutas de água, na rua em em todo o tipo de percursos urbanos e de uma cultura de andar sempre com a prancha de skate e de um certo espírito competitivo entre eles, que os fazia querer apresentar aos colegas um movimento inovador. O que levaram às competições foi inteiramente novo. Não tentaram fazer os movimentos para os quais já havia nome e classificação - antes levaram o que tinham desenvolvido eles mesmo na sua experiência de skaters e - isto é muito importante -, cada um deles tinha uma técnica muito distinta, algo muito marcado numa altura em que a modalidade estava a dar os primeiros passos.
Nestas modalidades de perícia individual isto está sempre a acontecer. E.até é bom que os puristas dêem crédito às marcas. São os patrocinadores que ajudam, muitas vezes, a que isto aconteça. São eles que produzem vídeos, a anunciar um novo modelo de patins em linha, ou de sapatilhas para skate, ou de bmx, ou que pagam mesmo uma viagem ao Alaska, para a sua equipa de snowboarders ir descer uma encosta, ou uma semana numa montanha para a sua equipa de btt ir fazer freeride. Isto, que para as marcas é promoção, para as modalidades é ouro. Nestes fins-de-semana, nestas saídas, tal como em todos os momentos não patrocinados, e em todos os casos em que os atletas sem patrocínios (e até com dificuldades económicas) não estão a competir, é tudo liberdade e expressão. Surgem movimentos novos, que não são apenas, mas também são, manobras novas. São aperfeiçoadas a técnica, as transições, as combinações, a fluidez, a parte puramente física, e o que escapa sempre a qualquer sistema de pontuação mas que é, paradoxalmente o ADN destes desportos individuais, o lado artístico, o da expressão individual, próximo da dança, em que o que se faz com o corpo é único e se desenvolve ao longo da vida e continua sempre a fazer sentido, mesmo quando, em idade mais avançada, faltando algum vigor físico (que na competição é imperioso), ainda é possível expressar com uma linguagem tridimensional que não é puramente visual. Porque, para quem pratica, implica um corpo de sangue a ser bombeado, de músculos em actividade, de articulações, de cálculos infinitesimais de distâncias e subtilezas, de mediação entre esforço e graciosidade, de química entre intensidade e suavidade. E porque, para quem vê, é óbvio que o que está à nossa frente é um organismo vivo e não é um organismo vivo qualquer, é o corpo de um ser humano como nós; sabemos que alguns daqueles movimentos estão ao nosso alcance, outros estariam se treinássemos, outros dificilmente. Mas todos esses movimentos, quando deles somos testemunhas, deles participamos, não apenas como um espectáculo visual, plástico, mas como um evento físico, tridimensional e orgânico, químico, material. O nosso sistema nervoso central, os nossos neurónios espelho, o nosso coração mais acelerado, as nossas emoções, a nossa empatia, fazem com que façamos parte do que está a acontecer ali. Isto acontece pela expressão corporal, tal como acontece com a dança. E é, para mim, mais forte ainda do que as emoções de torcer para que a minha equipa ganhe.
0 comentários:
Enviar um comentário