Terça-feira, 27 de Dezembro de 2011

desporto, competição e arte

Quem já me ouviu falar do que gosto muito no desporto, provavelmente já me ouviu falar do Chinlone, que é o desporto nacional da Birmânia. É um caso de estudo interessantíssimo para o contexto desta crónica. É que trata-se de um desporto de equipa com bola, com mais de 1500 anos, sem competição. Não existe equipa adversária. E não existe pontuação, nem vencedores, nem vencidos. As equipas sucedem-se, mas não existe nenhum sistema de classificação, que determine que uma equipa teve uma performance melhor que as outras. Este vídeo é um excerto do filme Mystic Ball, documentário sobre este desporto, e dá uma ideia sobre o tipo de movimentos dos praticantes e sobre a dinâmica que se estabelece entre os elementos de uma equipa.

Eu não tenho, espero, a atitude desconfiada e moralista de quem considera o desporto de competição inferior ao desporto que é praticado por outras razões. No surf, por exemplo, existe a expressão "soul surfer", amplamente discutida e rejeitada por muitos, para referir os que supostamente praticam surf por amor ao mar e à modalidade e por uma vocação quase espiritual, por oposição aos surfistas profissionais, "vendidos" ao circuito competitivo, aos patrocinadores e às exigências do calendário e dos sistemas de pontuação e de classificação de manobras e estilo. Eu, ao falar aqui de competição e de não-competição, não quero ir por aí. Da boca de surfistas que admiro, como o Laird Hamilton, que menciono muitas vezes, já escutei várias vezes que esse preconceito não faz sentido. Ele já surfou várias vezes com o Kelly Slater e com o Rob Machado (dois nomes grandes do circuito profissional) e garante que são dois surfistas apaixonados pelo mar e tão "soul surfers" como ele ou qualquer amante do mar e que o facto de competirem, no caso deles, permite-lhes fazerem o que mais gostam de fazer na vida.

O Chinlone faz a ligação entre as artes marciais e os desportos de bola com equipa, que, nos dias de hoje, geralmente nos apresentam alguns dos atletas mais bem preparados, quer a nível físico, quer a nível mental, quer táctico, quer ao nível dos automatismos de equipa. Nas artes marciais, também encontramos atletas de um nível físico e mental excepcional. O que geralmente acontece é que não é necessário nenhum estímulo competitivo (no sentido de haver campeonatos organizados) para que surjam atletas com esse nível excepcional. No futebol, no basket, no râguebi, o que dizemos - e penso que com alguma razão - é que campeonatos competitivos produzem mais talento e estimulam bons níveis técnicos; sem eles não teríamos atletas como o Cristiano Ronaldo ou o Michael Jordan. No caso do Chinlone há uma ponte. Porque, embora não haja pontos, classificação, nem vencedores e vencidos, os praticantes estão expostos ao nível dos melhores. Já nas artes marciais, o caminho, a progressão, é mesmo individual. É uma aprendizagem de disciplina, de esforço do indivíduo, em que existe o apoio dos companheiros e a orientação do mestre, mas em que não é o ambiente competitivo (e muito menos o apoio dos adeptos ou a esperança do reconhecimento e da glória) que estimula o crescimento técnico. E a excelência acontece. Os melhores das artes marciais surpreendem-nos, mostram-nos que o corpo humano é capaz de coisas impensáveis.

Aqui interessam-me sobretudo as pontes. No surf, no skate, nas duas rodas, existem imensas pontes entre as competições e o que os praticantes fazem fora das competições. Uma competição tem sempre limitações. Já o disse, não vou falar de purismos, de vender a alma a patrocinadores. É mais do lado técnico. Quando se tem de inventar uma forma de classificar e atribuir uma pontuação a movimentos que começaram por ser muito livres, como movimentos com uma prancha de surf ou de skate, ou movimentos com uma bicicleta, está-se a condicionar o que o atleta vai fazer. Quando se tem uma estrutura e uma filosofia em termos de pontuação, todo o treino e a evolução técnica dos atletas é orientada para se encaixar nessa estrutura. No documentário Dogtown and Z-boys, sobre a equipa de skaters Zephyr, dos anos 1970, é possível ver esse choque. Essa equipa reinventou o skate, ou quase se poderia dizer inventou o skate como o conhecemos hoje. No documentário podemos ver como foram recebidos os seus movimentos inovadores nas primeiras competições em que participaram. Tiveram pontuações péssimas, eram vistos como miúdos que não entendiam o que eram o skate e não queriam dar-se ao trabalho de fazer o que os melhores da actualidade faziam. As pontuações que recebiam (a princípio) eram de esperar. Não havia forma de classificar os movimentos que tinham inventado (e que agora são os movimentos clássicos do skate). O que eles trouxeram para as competições foi fruto de várias coisas: da sua experiência como surfistas - por isso andavam a tentar surfar no asfalto -, da sua experiência de andar de skate em condutas de água, na rua em em todo o tipo de percursos urbanos e de uma cultura de andar sempre com a prancha de skate e de um certo espírito competitivo entre eles, que os fazia querer apresentar aos colegas um movimento inovador. O que levaram às competições foi inteiramente novo. Não tentaram fazer os movimentos para os quais já havia nome e classificação - antes levaram o que tinham desenvolvido eles mesmo na sua experiência de skaters e - isto é muito importante -, cada um deles tinha uma técnica muito distinta, algo muito marcado numa altura em que a modalidade estava a dar os primeiros passos. 

Nestas modalidades de perícia individual isto está sempre a acontecer. E.até é bom que os puristas dêem crédito às marcas. São os patrocinadores que ajudam, muitas vezes, a que isto aconteça. São eles que produzem vídeos, a anunciar um novo modelo de patins em linha, ou de sapatilhas para skate, ou de bmx, ou que pagam mesmo uma viagem ao Alaska, para a sua equipa de snowboarders ir descer uma encosta, ou uma semana numa montanha para a sua equipa de btt ir fazer freeride. Isto, que para as marcas é promoção, para as modalidades é ouro. Nestes fins-de-semana, nestas saídas, tal como em todos os momentos não patrocinados, e em todos os casos em que os atletas sem patrocínios (e até com dificuldades económicas) não estão a competir, é tudo liberdade e expressão. Surgem movimentos novos, que não são apenas, mas também são, manobras novas. São aperfeiçoadas a técnica, as transições, as combinações, a fluidez, a parte puramente física, e o que escapa sempre a qualquer sistema de pontuação mas que é, paradoxalmente o ADN destes desportos individuais, o lado artístico, o da expressão individual, próximo da dança, em que o que se faz com o corpo é único e se desenvolve ao longo da vida e continua sempre a fazer sentido, mesmo quando, em idade mais avançada, faltando algum vigor físico (que na competição é imperioso), ainda é possível expressar com uma linguagem tridimensional que não é puramente visual. Porque, para quem pratica, implica um corpo de sangue a ser bombeado, de músculos em actividade, de articulações, de cálculos infinitesimais de distâncias e subtilezas, de mediação entre esforço e graciosidade, de química entre intensidade e suavidade. E porque, para quem vê, é óbvio que o que está à nossa frente é um organismo vivo e não é um organismo vivo qualquer, é o corpo de um ser humano como nós; sabemos que alguns daqueles movimentos estão ao nosso alcance, outros estariam se treinássemos, outros dificilmente. Mas todos esses movimentos, quando deles somos testemunhas, deles participamos, não apenas como um espectáculo visual, plástico, mas como um evento físico, tridimensional e orgânico, químico, material. O nosso sistema nervoso central, os nossos neurónios espelho, o nosso coração mais acelerado, as nossas emoções, a nossa empatia, fazem com que façamos parte do que está a acontecer ali. Isto acontece pela expressão corporal, tal como acontece com a dança. E é, para mim, mais forte ainda do que as emoções de torcer para que a minha equipa ganhe. 

Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2011

der spleen

alguma coisa mudou dentro de mim. depois de apresentar o der spleen com a Sandra Andrade e o Hugo Loureiro no Museu Nogueira da Silva, alguma coisa mudou. só agora começo a perceber. 2010 foi um ano muito difícil. com salários em atraso e coisas para fazer depois do horário de expediente, mais importantes que o emprego, tive de enfrentar a minha habitual personalidade procrastinante. trabalho com amigos há alguns anos. trabalhar com outras pessoas é óptimo. sozinho é bem mais fácil desistir das coisas, porque não há responsabilidade partilhada. mas depois do der spleen, mudei, não sei bem como, nem em quê. há uma forma de enfrentar a execução das coisas, um ir em frente resoluto que não é novo, nem é fruto de nenhum tipo de revelação ou de algum tipo de epifania extraordinária. algo que sempre esteve cá, mas que precisava de ser acordado, ou de ginástica, ou de que eu lhe entendesse o mecanismo. a verdade é que eu não lhe entendo o mecanismo, nem sei se é um mecanismo. sei que não há spleen, boredom, ennui ou tédio que me pegue. e keine angst me tolhe os movimentos, desde me levantei da cadeira de rodas para caminhar de saltos altos.

Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2011

primeiro o corpo

isto talvez ajude a contextualizar a anterior crónica. para mim o ioga, o kung-fu, o bailado, o surf, o sexo tântrico, o sepaktakraw e o futebol fazem parte de uma mesma coisa. e quando falo de uma destas actividades em particular, é sempre ao mesmo que me refiro. ao prazer que tenho em falar do corpo humano, dos seus movimentos, dos seus músculos, da sua agilidade, da plasticidade com que atravessa o ar. e de uma sensualidade mais ou menos subtil que existe quando exercemos o nosso corpo em todo o seu esplendor físico, concreto. é isto que me interessa, sobretudo, no desporto. e foi isto que tive em mente na crónica. como são os atletas que dedicam toda a sua vida à prática das artes do movimento do corpo humano, são apenas eles que me interessam. e interessam-me, obviamente, os movimentos que eu próprio faça com o meu próprio corpo. mesmo muito.

Quarta-feira, 14 de Dezembro de 2011

adepto, nunca

Gosto de comparar o golfe com o remo e o skate com o râguebi. Começo assim para que saibam que absurdos são de esperar e saiam já sem mais escândalo. Se, algo intrigados, permanecerem, lembrem-se da frase inicial desta crónica - que, concedo, não me iliba de nenhuma opinião aqui apresentada.

Desde a adolescência que venho desenvolvendo um crescente gosto pelos desportos individuais de perícia. Como o surf e o skate. Mas fui praticante de desportos de equipa com bola, como o basket e o voley. Cresci a dizer, com alguma arrogância ingénua (que mais tarde continuou a ser arrogância mas já sem ingenuidade) que não gostava de futebol. Agora compreendo o alcance de quando se pergunta (e quando se responde a) "gostas de futebol?". Não é o mesmo que perguntar, "gostas de esgrima?". Pelo menos em Portugal.

Quando alguém pergunta, "gostas de futebol?", ou para que se perceba melhor, quando alguém responde "não gosto de futebol", não está a dizer, "não gosto daquele desporto em que duas equipas de 11 jogadores cada, num relvado de cerca de 100x70 metros, lutam pela posse de bola, tentando marcar mais golos que a equipa adversária". Não. O que quer dizer é que não gosta da cultura futebolística. E até se adivinha que naquele, "não gosto de futebol" há coisas específicas da dita cultura de que não gosta. A saber, do culto à volta dos jogadores de futebol e dos seus salários milionários, das cumplicidades entre dirigentes e poder político local, da demasiada importância que se dá ao fenómeno e até a uma certa narcose social em momentos de crise, da histeria nacionalista mais ou menos naif quando joga a selecção nacional e outras coisas. É como se não gostar de futebol fosse tudo menos não gostar de futebol. Não gostar de esgrima é simplesmente não gostar de esgrima. E isto é algo que pude verificar junto de alguns amigos. Tenho amigos que gostam de futebol e amigos que não gostam de futebol. E experimentei perguntar aos que não gostam de futebol o que queriam eles dizer com isso, e é como acabei de explicar: eles não têm nada, absolutamente nada contra o desporto. Num exemplo muito próximo, uma amiga minha, que não gosta de futebol, até jogou futebol quando era miúda. Ela não gosta de futebol nesse sentido da cultura do futebol. Quando perguntei aos meus amigos que gostam de futebol, eles concordaram que era assim, geralmente é disso que se trata, de uma rejeição do, digamos, mundo do futebol em geral, não do desporto. E no meu caso, era também isso que eu rejeitava, acima de tudo, com a minha arrogância. O que me aconteceu, entretanto, é que passei a gostar do desporto. Não estava nada à espera disso. Vi alguns jogos de futebol simplesmente sensacionais. E vi que ali, naquele relvado enorme, podiam acontecer coisas realmente incríveis.

Mas isto, enquanto cada vez gostava mais de desportos individuais. Desde miúdo que digo que sou do Sporting. Não levo isso muito a sério. Devo isso, e quando digo devo é porque me sinto mesmo grato, em dívida, aos meus pais, que são do Porto, sem o levarem muito a sério e nunca me fizeram aquela coisa irritante que se faz às crianças pequenas, "qual é o clube mai lindo do mundo, qual é?". Cresci sem ter adultos a educarem-me numa cultura clubista, em que um clube de futebol fosse coisa importante, parte da minha identidade, algo que me constituísse, que se me fosse retirado me deixaria incompleto. Estou imensamente grato aos meus pais por me terem educado com essa enorme liberdade. Devo dizer, em relação ao parágrafo anterior, que de toda a cultura do futebol e - porque esta crónica é sobre o desporto e não especificamente sobre o futebol - dos desportos de equipa é esta a parte que me aflige mais. Não os salários milionários. Não a corrupção dos dirigentes, que penso ser terrível mas é assunto da política e do poder económico e não coisa específica do desporto. Não o culto das celebridades, que, de novo, não é específico do desporto. É mesmo a parte dos adeptos. E é aqui que costumo pôr-me a jeito de apanhar porrada. Porque é costume dizer-se mal do avançado que ganha milhões e chuta ao lado, mas dizer mal do adepto que ganha o salário mínimo e paga a custo um bilhete caríssimo para ir ver o seu clube do coração e durante duas horas esquecer as agruras da vida e viver colectivamente toda uma palete de emoções com gente da sua cor... isso já parece coisa de quem não tem vergonha na cara ou noção do que está a dizer.

A minha intenção aqui não é dizer mal dos adeptos. É falar de desporto. Na minha visão romântica do desporto nem sequer há adeptos. Por isso, tudo o que possa dizer sobre os adeptos que existem, vai soar muito mal. Mas não posso, de maneira nenhuma, pedir desculpa por isso. Porque, usando linguagem romântica, me apaixonei por esse desporto chamado futebol há uns 10 anos, tenho de levar com a cultura do futebol. Porque sou o tal tipo que compara golfe com esgrima, não consigo mesmo evitar pensar em coisas absurdas, como futebol sem adeptos. Sim, esta é outra deixa para que, quem queira fazê-lo, se sinta compelido a abandonar o texto aqui. Seguem-se as minhas ideias peregrinas sobre desporto.

O que quero dizer sobre futebol sem adeptos não é que o desporto não teria adeptos, idealmente. Isso seria muito triste e mesmo impossível, numa modalidade com momentos tão espantosos como o 4-1 do Porto - Lazio da era Mourinho para a Taça Uefa ou o 5-4 Do Barcelona contra o Atlético de Madrid de há uns 10 anos. Vou fazer uma das minhas comparações. Um dos meus atletas favoritos é o Laird Hamilton. Que eu saiba, nunca entrou em competições, mas não posso jurar porque isso não é importante e eu não sou fã, por isso não sei a história detalhada da vida dele. Mas é uma figura importante para o surf. Ajudou a criar e a desenvolver o tow-in surf, juntamente com o Keith MacNamara (que recentemente surfou uma onda gigantesca no Canhão da Nazaré) e mais alguns. Foi ele que inventou o foil-surf e nos últimos 15 anos tem feito pela modalidade no seu todo, pelo surf, e pelo surf em ondas grandes em particular, um trabalho incrível. Tem-no feito enquanto atleta, a surfar. Quero deixá-lo claro. Não o faz enquanto personalidade, ou conferencista, mas enquanto atleta. Ele impulsionou a modalidade, reinventou-a várias vezes. Nos últimos anos ressuscitou o stand-up paddle surf, por exemplo, tornou-o moda. Ele é um atleta incrível, tem 47 anos e tudo indica que tem ainda uma longa carreira à sua frente. O seu preparador físico, Don Wildman, já passou dos 75 anos e está rijo (fez tow-in surf pela primeira vez, depois de Hamilton o convencer, já depois dos 70 e os dois conheceram-se porque Hamilton viu Don Wildman a fazer snowboard e foi falar com ele para lhe elogiar a técnica). Eu admiro o Laird Hamilton. Mas nunca diria "eu sou do Lard Hamilton". No entanto eu digo "sou do Sporting". E digo-o com diferentes graus de admiração em relação à equipa de futebol do Sporting. Actualmente a equipa de futebol anda a jogar bastante bem. Mas nem sempre é assim. É este o ponto a que quero chegar. O adepto de um clube é adepto do clube. Não é adepto da modalidade, ou é-o, mas primeiro é adepto do clube e depois da modalidade, mas não é adepto da equipa, que é coisa transitória. É disto que não gosto. E é aqui que choco com a cultura à volta dos desportos de equipa.

O desporto, e lembro que só estou a falar de desporto, é feito dos desportistas. Os adeptos dos clubes gostam imenso de fazer-lhes sentir que estão ali de passagem, quando as coisas correm mal, que o clube é centenário, que é coisa maior do que eles. É isto que me aflige. É que uma instituição como um clube é realmente mais importante que um médio ofensivo, por mais caro que seja, que um bota de ouro, que um Eusébio. E, escândalo dos escândalos - para mim - pertence aos sócios. Há toda a legitimidade em que uma associação desportiva, ou qualquer outra associação pertença aos seus sócios. A questão aqui, para mim, que estou a falar de desporto, é que tudo fica de pernas para o ar. São os adeptos que são os donos do clube. E eu, atenção, não estou a pôr isso em causa. Pelo contrário. Estou a dizer que é mesmo assim e que é essa a causa da minha aflição. Eu nunca poderia ser dono do Laird Hamilton. E ainda bem. Nunca poderia ser dono de um jogador de golfe, ou de um skater, ou de um par de patinadores no gelo. Mas os adeptos sentem-se e são, de facto, donos da equipa de futebol, do clube de que são sócios. Quando os jogadores da sua equipa jogam mal e, aparentemente, é porque não se aplicam, os adeptos/sócios sentem-se defraudados. Mais ainda do que um patrão. Porque não é simplesmente uma relação de empregador/empregado, um clube é uma instituição com um imenso valor simbólico, tem um passado, representa para os seus sócios uma série de valores, em que a honra, a combatividade, a coragem de enfrentar as adversidades, de ganhar os desafios contra adversários à partida mais fortes, de erguer a bandeira, de representar a região, do amor à camisola, de tudo isso está em jogo, sempre que se entra em campo. Não é brincadeira nenhuma vestir a camisola do clube. Se o Laird Hamilton, ou um skater, ou um jogador de golfe tiver saído até mais tarde na noite anterior, ou estiver num dia mau, e a sua performance for má, e eu estiver a ver, posso ficar desiludido, mas não levo, nem eu nem ninguém, aquilo a peito. Não é algo que me fizeram a mim, à minha honra, à minha cor, à minha camisola. É isto que me aflige. Num desporto de equipa em que há uma legião de adeptos/sócios a seguir um clube - a constituir, como se diz com toda a propriedade, a "massa associativa" de um clube" - os jogadores apenas estão transitoriamente na equipa e os adeptos são infinitamente mais importantes que os desportistas. Fica tudo do avesso.

Isto acontece em geral com os desportos de equipa. E acontece em particular com qualquer desporto de equipa que seja mais popular e que tenha um campeonato minimamente competitivo (bastam duas ou três equipas para haver já rivalidade e identidades bem definidas, por confronto). E é natural, até a mim me acontece. Eu projecto-me no que acontece dentro do campo. Os jogadores combatem por mim. É como se suassem por mim e eu vivesse por eles, emocionalmente, o que eles vivem fisicamente. Eles vestem a cor que simboliza o lado com que eu me identifico. É natural que, se isto se tornar um fenómeno de muita gente, a coisa adquira uma grandeza espantosa. Mas tudo isto tem muito pouco a ver com o desporto. Repito-o, porque, para mim é mesmo importante. Ver bailado tem pouco a ver com bailado. Ver um filme com o Lard Hamilton não é surf. Ir ao estádio Alvalade XXI não é futebol. Desporto é praticar desporto. Simples. Quem gosta de desporto (e penso que todos os adeptos gostam, à sua maneira, e a maioria até gosta muito), é porque vive intensamente (com a ajuda das emoções e dos neurónios espelho) o que a biomecânica e a inteligência dos atletas exprime, o que a estratégia e o colectivo estruturam e tornam complexo e o que o confronto entre as equipas torna tão interessante e entrópico, potencialmente caótico, no limite entre o aleatório e o previsível, sempre à beira da úlcera dos treinadores. Mas isso, ainda assim, não é desporto. É assistir, é emocionarmo-nos com o desporto dos outros. Desporto é praticar desporto.

Não proponho que se acabe com os clubes. Pelo contrário. Que fique tudo como está. Mas sou um verborreico inveterado. E a maior fonte das minhas divagações é a minha lista de birras. Tenho uma birra com este assunto. Quem visita o blogue, já o sabe. E não foi a última vez que falei disto. Na próxima crónica provavelmente irei falar de como prefiro uma equipa, completamente orientada para e por atletas, e darei exemplos de modalidades em que isso acontece naturalmente - felizmente não preciso de inventar ou imaginar nada. Não gosto da figura do adepto (entenda-se, adepto do clube, como por exemplo eu, sportinguista). Gosto muito, muito de desportistas. Porque são quem pratica desporto, que é actividade de que gosto bastante. Não gosto nada de como os adeptos vêm os desportistas, num estádio, como macaquinhos amestrados, muito caros, que fazem habilidades muito elaboradas, que no entanto têm de ser eficazes, além de entreterem. E de como as equipas são apenas um aglomerados de talentos transitórios que representam uma instituição que é muito maior que os desportistas, e que agregam uma série de coisas simbólicas, que une toda uma nação de adeptos da mesma cor. Aliás, gosto pouco do simbólico. Gosto do concreto do suor, do movimento, da força dos músculos, da agilidade. E de que sejam, sempre, sempre os desportistas os protagonistas, sem dono.

Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2011

frugal e bem nutrido

Haja dinheiro para pagar uma renda e comprar comida. Se houvesse já casa e alguma comida se arranjasse da que se plantasse, então talvez nem fosse preciso tanto dinheiro. Haja o dinheiro necessário para se pagar as contas. A vida neste século é negociar-se o tempo. Quanto tempo queremos, podemos, temos de abdicar para ganhar o dinheiro que precisamos para usufruir do tempo que nos sobra.

Quanto a ocupar o tempo, geri-lo, sabê-lo e fazê-lo precioso, é comigo. Dos que lidam com o dinheiro, dos que estão dispostos a comprar-me o tempo, em troca do meu trabalho, só preciso que me digam quanto tempo querem e que tarefas precisam, que até sou moço bastante versátil, experiente e com uma aptidão enorme em aprender coisas novas.

Há muito que me deixei de dramas. Não preciso que o tempo gasto a ganhar dinheiro coincida com o tempo em que acontecem os grandes momentos da minha vida. Em que me realizo plenamente e sinto o fulgor da felicidade. Sei aplicar-me e atingir objectivos. Sei fazer coincidir a minha necessidade de sobreviver e ganhar sustento, essa imensa motivação, com a necessidade de quem me emprega em ver cumprida a tarefa e os objectivos contratados.

A vida, simples ou complicada, acontece a cada instante, seja qual for a filosofia com que a expliquemos. Hajam amigos, eventos e ferramentas com que exercer a criatividade. Haja tempo, não o gastemos todo no afã de ganharmos dinheiro para podermos viver. Haja onde dormir e o que comer. Cuidadas as necessidades primárias, podemos passar à conjugação da felicidade.  Financeiramente frugais, mas abastecidos de vigor, temos afiada a atenção ao momento ali presente, ao instante em que vivemos. Porque não estamos na precariedade de quem faz tarefa ingrata que só tem sentido uma vez por mês, mas, muito pelo contrário, executamos algo que se realiza em si mesmo, e nos satisfaz inteiramente. O que Csíkszentmihályi chama Flow.