Há uma solidão que é irremediável. Não havendo cura, há um paliativo: a escrita. Falo naturalmente muito. Em alturas em que escrevo pouco, falo demais. Esta solidão de que falo não tem a ver com estar-se só, com o abandono, com falta de amigos ou de companhia. E, no fundo, há um conflito interno que alimento: gosto dela, tenho-lhe afeição, mas quero acreditar que tem cura. Escrever é, ao mesmo tempo, alimentá-la e tentar derrotá-la.
Isto de querer ser escritor é, creio, querer ser lido. Quando digo que falo demais quando ando a escrever pouco é porque, creio, ando em fase em que tenho poucas oportunidades para me expressar. O que tenho dificuldade em explicar, nesta minha solidão, é que, mais importante do que as ideias que eu tenha para expressar, é a vontade, o impulso, a necessidade de me expressar. Isso faz toda a diferença. Numa conversa equilibrada, num diálogo com um amigo, os dois falamos e escutamos, damos e recebemos. Quando alguém tem o infortúnio de me apanhar numa dessas alturas em que estou verborreico e carente, eu só quero dar, quero expressar. E apenas isso: expressar, nada em particular - embora fale de coisas muito específicas.
Num diálogo produtivo as duas pessoas querem transmitir mensagens específicas, geralmente com simplicidade, há menos ruídos, e os dois escutam-se. Mas, no fundo, a linguagem verbal é o menos importante. O que quer que digam, por palavras, são as emoções, os gestos, o tom de voz, as expressões faciais que estão realmente a comunicar. E dizem, tenho empatia por ti, escuto-te, sinto o que estás a dizer, escuta-me, percebo-te, isso tem piada. Passam mensagens muito simples, de teor sobretudo emocional, empático. Já num dos meus monólogos que despejo sobre alguém, o que quero transmitir é sobretudo a urgência que tenho em me expressar, é, no fundo, uma mensagem muito simples, preciso de dizer coisas, estou só, quero gritar, não ando a escrever e sinto que vou rebentar, não tenho quem me ouça, estás aqui à minha frente e não me aguento. Mas, o que acontece é que, ao contrário de um diálogo, em que há empatia e toda a linguagem não verbal liga as duas pessoas, perde-se essa ligação. A pessoa à minha frente está a enviar-me sinais de que não está interessada, através dos gestos, e emocionalmente não estamos em sincronia. O que passa é apenas verbal - com um reforço emotivo, pela intensidade com que digo as coisas -, e trata-se de uma divagação minha sobre determinado tema. Para a outra pessoa é, penso, aborrecido e irritante e até bizarro que um tema, por vezes um tema claramente menor, possa provocar-me tão grande excitação. E a intuição dessa pessoa está correcta.
O que me tem faltado é simples. Escrever. Acredito, quero acreditar que esta solidão, que se trata de saber que nunca, nunca terei um interlocutor, tem cura. Como todas as carências, o que é necessário é tratar de mim, para que eu deixe de sentir essa carência. E não ver a carência como se fosse uma sede natural e eu precisasse realmente de beber. Ou seja, eu, na verdade, por muito que me custe, por enquanto, aceitar isso, não preciso realmente de um interlocutor. Preciso é de crescer, para que não haja um turbilhão de ideias em guerra dentro de mim e a minha mente seja um lugar tranquilo de onde possam erguer-se pensamentos límpidos. A dificuldade que sinto é que me agradam estas tempestades mentais. A solidão de navegar através dessas tempestades é agreste, é verdade. Mas ainda tenho apego a uma ideia romântica de mim enquanto o escritor solitário que enfrenta o fardo e pensa o mundo, carregando o mundo turbolento do seu pensamento. Tenho medo de que se acabe a solidão e também o vento que impulsiona a vela. E fique o barco parado no meio de um belo mar calmo e desolado.
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