Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2012

downloads - quem anda a ganhar dinheiro

Há bastante tempo que se anda a discutir, nisto da pirataria e dos downloads ilegais, sobre quem anda a perder dinheiro. Os artistas, infelizmente, andam muito calados. Era bom escutá-los a eles, sobretudo. Hoje a maior parte dos músicos, quando edita um álbum, tem muito poucas expectativas quanto às vendas. Optam, muitos, cada vez mais, por oferecer parte ou a totalidade das músicas. Ultimamente, em Portugal, tem havido lançamentos em que, na compra do bilhete para o concerto, se oferece o novo álbum. Estando calados os artistas, fala a Indústria por eles.

O problema de falar a Indústria é que são algumas empresas, as grandes, que falam. Falam como se representassem todas e como se representassem os artistas e como se representassem todos os artistas, em toda a parte. E, mais grave ainda, como se representassem a Música. O que dizem, há muito tempo, e não mentem, é que perdem dinheiro. Perdem dinheiro por causa dos downloads ilegais. Dizem-no de forma mais ou menos simplista, querendo dizer mais ou menos isso.

Eu gostaria de complicar, ou tornar a coisa mais complexa. Acho que perdem dinheiro porque aconteceu algo ainda mais grave. Uma ou talvez já duas gerações deixaram de achar que se deve pagar para obter música. Se começou por ser simples, faz-se downloads porque são fáceis de fazer e porque são gratuitos, os hábitos mudaram de tal forma, que a atitude perante o trabalho de um músico mudou, na minha opinião drasticamente. Não é só uma questão de haver ou não downloads. A música, a canção que se escuta, há muito que é um título, um ficheiro, volátil, que se tranfere de um lado para o outro, de um computador para o outro, para o telemóvel, para o leitor de mp3. Ultimamente, com o sucesso do streamming, milhões estão mesmo a deixar de fazer downloads, preferindo simplesmente aceder às canções online, a partir de um browser ou de uma aplicação, no computador, no telemóvel, no iPad ou noutro dispositivo ligado à internet. A canção é algo de acesso rápido e consumo imediato. É possível, com o telemóvel ou o iPod, passar num sítio onde está a tocar uma canção, usar uma aplicação para a reconhecer, após alguns segundos, e tê-la imediatamente disponível. Os downloads, acima de tudo, deram, muito antes das aplicações e da conectividade ubíqua, esse acesso (quase imediato) a milhões de pessoas.

Durante anos, fizeram downloads as mais diversas tribos e os mais diversos indivíduos, atraídos por essa mesma acessibilidade. Vários músicos, dos que agora têm tanta dificuldade em vender os seus discos, cresceram a alimentar a sua própria melomania através de uma digiteca imensa, de muitos gigas. Com a descida dos preços dos discos externos, tornou-se comum um ultilizador médio adquirir um disco de 1 terabyte, 2 terabytes, nos últimos tempos. E nos últimos anos, a publicidade à banda larga em Portugal, não teve qualquer problema em vender a rapidez que ofereciam como uma enorme vantagem para os seus clientes ávidos de downloads. Num anúncio, um adolescente fazia noitadas em frente ao computador, completamente seduzido pela banda larga que tinha instalado, dizendo aos amigos que não conseguia parar de fazer downloads. A palavra downloads, aliás, tornou-se muito comum, na descrição do serviço de banda larga, nos anúncios, em todas as referências ao serviço da internet. Sim, downloads, assim, no plural. 

Quase dez anos de melomania descontrolada, de discos cheios e agora os discos externos que se tornam baratos, a banda larga que se torna supersónica e é como se nós humanos é que fôssemos demasiado lentos para consumir tanta música. Com 10 cérebros e 50 ouvidos, talvez pudéssemos aproveitar melhor as capacidades dos nossos computadores com ligação à internet. O download de um álbum recentemente lançado não demora mais que uns minutos. Talvez não seja completamente disparatado dizer que muitas vezes, o tempo que se gasta a escutá-lo, antes de se apagar, ou esquecer no disco duro, é ainda menor. Perdeu-se a relação que havia com o objecto em que a música existia, fosse ele fita magnética, cassete, vinil, ou cd. Hoje, a música quase não chega a existir, parece estar sempre em trânsito, sempre em transferência, em streamming. É isto, acima de tudo, que mudou. Por isto, parece-me, é que é difícil vender discos. O que torna o problema muito difícil. Não é só acabar, tecnicamente, com os downloads, ou prender algumas pessoas para assustar as outras, que vai mudar a forma como as pessoas agora se relacionam com a música.

Escutamos, há anos, a Indústria a dizer-nos que perde dinheiro. O que é verdade. Os artistas, que são os quem mais interessa escutar, são a parte mais silenciosa. Até quem faz downloads, que deveria é estar caladinho, se põe a formar partidos e a transformar a coisa num acto político. Ora, se nestes dez anos, toda a gente fez downloads, desde o hacker mais sensato e old school até ao terrorista mais pranckster, até ao melómano de jazz que teve de pedir ao filho para o ensinar, até à mais banal dona de casa aborrecida e até à quase totalidade dos adolescentes da grande maioria dos países ocidentais, se no acto de descarregar ilegalmente a música esta gente toda se unia, isso acontece de novo, quando os tratam como criminosos, como terroristas cibernéticos ou vulgares ladrões de cds ou dvds. A forma de lidar com a perda de receitas tem sido, geralmente, a de tentar levar os governos a tomar medidas de força. de criminalização e de perseguição do utilizador de internet. Isto talvez explique, em parte, o silêncio dos artistas, da maior parte dos artistas. Tratar os maiores fãs como se fossem os maiores inimigos não é algo de que se possa esperar  os melhores frutos. Esta última investida era grave, porque ia no sentido de corromper a própria liberdade de expressão. Claro que isto tem tudo para juntar piratas armados em políticos com donas de casa e melómanos que gastaram fortunas em música e adolescentes que não querem nem acham que devem pagar para escutar música. Todos juntos, numa grande salganhada, contra a mesma investida, que rejeitam.

Para os piratas armados em políticos, impedir downloads ilegais é impedir a liberdade de expressão. Para a Indústria, dá muito jeito que se cole esta palermice a todos os que se opõem a estas leis que estão na mesa, nos EUA. Mas não é nada disto. As ameaças são tão reais, que já há uns anos está a ser desenvolvido o OneSwarm, uma espécie de programa de torrents ultra blindado, projecto financiado pela Universidade de Washington. Isto deve servir para nos fazer pensar. Quando há uma proposta que, por exemplo, implique a supressão de tráfego torrent, que vigie e espie o tráfego dos utilizadores online, ou que dê poderes abusivos, como é o caso das leis agora que ameaçam os EUA, a quem não os deve ter, é a própria democracia que está em jogo. E não é porque nos querem tirar os downloads. É porque nos restringem a privacidade e a capacidade de partilharmos a informação livremente. Eu tenho uma teoria sobre porque é que tem sido sobretudo por aqui que a Indústria tema actuado.

Algo que mudou, muito, nos últimos anos, foi a capacidade de a Indústria da música conseguir fazer o seu negócio como qualquer outro negócio. Ter um orçamento, investir numa banda, gastar dinheiro em promoção, prever uma janela de tempo para o retorno. Calcular o risco envolvido e, no conjunto de todas as suas operações, todas os artistas com quem tem contrato e com quem gastou dinheiro, saber que ganha dinheiro, que tem retorno. Continua a haver artistas que vendem muito. Muito menos, mas há. Mas é quase impossível fazer o que se fazia, nos anos 80, ver o novo álbum da Madonna como o novo modelo de uma marca de carros. Há risco envolvido, mas conhecendo a qualidade do produto e a esperada resposta dos consumidores, se tudo for bem feito, há uma forte possibilidade de se ter retorno. Durante algum tempo, algumas décadas, sabia-se que descobrindo algumas minas de ouro, assinando alguns nomes lucrativos, era uma questão de os gerir como outro negócio qualquer. Havia sempre fiascos, dinheiro perdido, mas, no global, o saldo era positivo. Isso acabou. O que os downloads trouxeram foi uma gigantesca indefinição. Não são as campanhas, nem o marketing nem os planos de negócios que decidem o que vai ou não vender. Claro, pouco vende. Mas também não são as grandes campanhas que decidem o que vai ter mais downloads. As pessoas não vão simplesmente correr a fazer download de tudo o que a Indústria está a tentar vender, para poupar dinheiro. O que tem ou não sucesso, está ou não na moda, é uma incógnita, como deve ser. Depende das pessoas. 

Por isso, só agora um ataque concertado aos sites que realmente estavam a fazer dinheiro, e muito, muito dinheiro com a pirataria. O que interessa, aparentemente, à Indústria, é voltar a ter mão no mercado. É apenas isso. Não é impedir ilegalidades, e repor justiça comercial. Não é exigir que as pessoas respeitem os direitos de autor, que reconheçam o valor da propriedade intelectual. Eles simplesmente querem conseguir ter não no mercado. Ditar modas, como faziam. Movimentar-se com alguma segurança, num mercado feito de valores tão efémeros, da imagem, de sucessos meteóricos e quedas abissais. O que lhes interessa é fazer dinheiro. E sabem que para que o seu negócio seja sustentável, segundo o modelo que lhes é confortável, é preciso que consigam ser eles a marcar o passo. Para isso não pode haver uma partilha global de petabytes de ficheiros, de forma descontrolada. Sem ninguém a lançar as novas coqueluches da semana, a dizer o que é cool, a desenhar de raiz novas tendências. 

Só agora os sites que estavam a fazer dinheiro com os downloads têm sido atacados. E com toda a justiça. Durante anos, e ao contrário dos sites que simplesmente têm ficheiros torrent, estes sites alojaram ficheiros com direitos de autor. Sites como o Mediafire, o Uploading, o Rapidshare e dezenas de outros, há anos que alojam directamente álbuns inteiros, ilegalmente, de que qualquer pessoa pode fazer download. Um torrent só funciona se houver pessoas a partilhar, é um protocolo em que cada utilizador disponibiliza gratuitamente os ficheiros que tem no seu computador e, quando não há ninguém a partilhar o ficheiro que pretendemos, não o conseguimos obter. Nesses sites, é completamente diferente. Basta uma pessoa fazer o upload uma vez, e depois o ficheiro fica para sempre disponível, para ser feito o download milhares de vezes. Esses sites fazem dinheiro de várias formas. Com publicidade. E com utilizadores registados. O sistema de registo, então, é descaradamente o registo para tomar parte de uma coisa ilegal. Depois de fazer um download, o utlizador é confrontado com uma mensagem do tipo, "Atingiu o limite, registe-se para fazer downloads sem limites". Durante muito tempo, esses sites fizeram dinheiro directamente com o trabalho dos outros. Mas quem foi atacado, em processos milionários, foi o Piratebay. Eu não simpatizo nada com os piratas armados em políticos, mas isto, não sejamos ingénuos, deve-nos mostrar quais têm sido, até agora, as prioridades da Indústria. 

0 comentários: