Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012

prefiro o corpo

Não gosto nada da ideia do meu corpo como um vaso. Um vasilhame, que recebe a alma, provisoriamente. Não gosto do imaginário cinematográfico, em que o espírito sai do corpo, como uma versão descolorida e imaterial do corpo, ainda com as mesmas roupas. Acho que não é nada assim. Acredito na reencarnação. É uma crença, obviamente. Não digo que acredito na gravidade. Há uma teoria científica que me explica a gravidade e me apresenta provas. E, apesar de a ciência avançar e muito do que agora se sabe sobre a gravidade poder evoluir, não há nada que nos faça acreditar que algum dia venhamos a pensar, "que tolos, acreditávamos na gravidade". A gravidade não precisa da minha crença. Provavelmente, a reencarnação, se for verdade, também não. Mas não creio, embora outros creiam que sim, ser possível para já apresentar provas científicas que a comprovem.

Embora acredite na reencarnação, não a imagino dessa forma cinematográfica: um espírito que sai do corpo-vasilhame, para ir ocupar outro corpo-vasilhame. A crença na reencarnação é comum nas religiões orientais, em que são também comuns os ensinamentos sobre como a dualidade corpo/mente, em que vivemos e acreditamos, é fruto da nossa imaturidade, é uma ilusão, que com o crescimento espiritual se desvanece. Não consigo imaginar melhor imagem para essa dualidade que a visão de um corpo humano reduzido a um simples vasilhame orgânico para um espírito. O corpo é um simples anfitrião, um veículo e a alma/mente/espírito o hóspede. O que aqui digo, embora possa usar várias referências, apenas reflecte as minhas próprias crenças, que são o produto de uma amálgama e de um percurso próprios.

Eu, que sinto a necessidade de escrever sobre estas coisas porque, como toda a gente, tenho, acima de tudo, dúvidas, prefiro, para evitar a dualidade, escolher o corpo. Porque é aquilo que conheço, aquilo de que gosto, escolho o corpo. Porque para mim, até prova em contrário, a mente acontece no corpo, escolho o corpo. O pensamento acontece no corpo. Medita-se com o corpo. Qualquer exercício, por mais transcendental que seja, por mais elevado que seja o plano de consciência a que se queira chegar, usa o corpo. Escolho o corpo, porque é o templo e o sacerdote. Não há dualidade nenhuma assim. Porque sou ainda imaturo e só consigo ver ao perto, e mal, escolho esta linguagem simples: o corpo. O que consigo tocar, por enquanto, é aquilo com que poderei dialogar. A minha linguagem será esta, a do toque, do cheiro, do abraço, do calor. E sempre que a mente produzir demasiado ruído, viajar distraída para o passado, ou sofrer antecipando o futuro, basta juntar as mãos, passar a língua nos lábios, tocar a testa, sentir a pele, lembrar o corpo. Voltar ao corpo, sempre, lembrando a própria mente que também é corpo, para  que a lucidez tenha sempre alimento. Escolho o corpo, acima de todas as ilusões, acima de todos os prodígios e delírios que o pensamento queira vender. O corpo, sempre o corpo. Para que, um dia, sabendo falar esta linguagem copórea sem gaguejar, possa abrir finalmente os olhos da alma. Para já, não sei onde a transporto, se dentro do coração, se um pouco acima do esófago, se mesmo ao lado do cerebelo, se no citoplasma de cada célula. Mas não quero perder tempo a imaginar o seu lugar. Quero usar o meu tempo com este corpo que a luz há-de beber.

0 comentários: