Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2012

prefiro os sentidos

Quem já me conhece um pouco melhor, está mais familiarizado com uma ideia bizarra que é central naquilo em que acredito. Estou convencido que usamos a razão, de forma inconsciente, é certo, mas também com uma teimosia muito consciente, para fugirmos à realidade. Mais facilmente me preocupo com a alienação proporcionada pele mente do que com as tentações do corpo. E mantenho uma cautelosa dúvida, vigilante e crítica, em relação aos méritos libertadores da razão.

Digo razão, escolho a palavra razão porque quero ser específico. Não tenho nada contra o sistema nervoso central, e sinto-me muito grato pela minha biologia humana. Simplesmente considero fácil o deslumbramento com as armadilhas da lógica. Esta crónica, ainda não parece, tem a ver com a arte. É esse o seu tema.

Lidei mais de perto com o Duchamp e a arte conceptual do que nunca, quando estava a trabalhar no Der Spleen.  E isso teve um efeito profundo. Percebi melhor a forma como olho para a arte. Os dois primeiros parágrafos, soam-me, relendo-os, a apologia, a tentativa de me justificar. Mas recuperam aquilo que penso, há muito tempo, em relação à mente e, obviamente, ao corpo. Não são novidade, e escrevi sobre isso extensivamente neste blogue. Se são desculpa, não são desculpa inventada à pressa.

Percebi, com esse debruçar sobre a arte conceptual, que continuo a interessar-me pelo que a arte pode dar-me aos sentidos. Já o sabia, sempre o soube. Mas, confrontado com algumas questões sobre a arte, tornou-se mais claro aquilo que faz sentido para mim numa obra. De maneira nenhuma rejeito arte porque é conceptual. Mas é como se a arte conceptual, para mim, fosse uma categoria à parte. Quando escuto música, ela vale pelo som. Seja uma melodia pop, seja o álbum do Zorn com o Derek Bailey e o George Lewis, seja o ruído apocalíptico do Merzbow, seja uma gravação de campo. Quando vejo dança, é o movimento. Que recebo porque também tenho um corpo. Não o vejo apenas, não é algo que se esgota visualmente. Tenho um corpo, igualmente humano, por isso, cada gesto com um braço, cada deslocação daquele corpo humano, tem uma referência no meu próprio corpo. É como se o meu corpo fosse desafiado, como se dançasse, ou se me fosse atirada à cara a minha imobilidade. A arte conceptual, recebo-a como uma outra categoria, que pode recorrer à música, à dança, à escultura, ou a qualquer outro meio, mas em que aquilo que é trabalhado é algo de racional. Ou melhor, o processo de trabalho é conceptual, e depois, a forma como me atinge sensorialmente até pode ser mais intenso e efectivo do que o trabalho não conceptual, mas eu sinto-me intimado a julgar e a entender o trabalho pelo processo de construção conceptual e não (só) pelo momento de diálogo sensorial com a obra.

Há, tem havido, obras conceptuais de que gosto. Algumas de que gosto muito. Mas, com o contacto que tive com o Duchamp, ganhei alguns anticorpos. Fiquei a pensar que a minha forma, mais primária talvez, de lidar e dialogar com a arte é anacrónica, ultrapassada. Isso não seria nada de grave. Mas o que me preocupou foi a perspectiva de que a própria dança, a pintura e outros "talentos" fossem entendidos como fúteis, como meras capacidades técnicas, a que num ou noutro caso se podia recorrer, se o trabalho conceptual em questão o justificasse, mas que uma vida de aprendizagem da técnica de dançar ou pintar seria um desperdício de tempo e esforço. Isso assustou-me. Cheguei mesmo a pensar, se é assim, então abdico da arte. Não gosto de arte. Prefiro a técnica. Prefiro quem saiba dançar. Quem saiba tocar um instrumento. Há-de sempre haver quem pense. Pensar é fácil. O que é difícil é termos quem dedicou 20 anos da sua vida a aprender esses tais talentos "fúteis".

Eu geralmente penso ao contrário daquilo que às vezes ouço. Acho que nos perdemos em auto-complacência masturbatória, fugindo da realidade material, com os delírios da razão. E não o contrário. Sim, gostamos de nos mimar sensorialmente. Mas, sempre, sempre que temos a oportunidade de estar presentes, de prestar atenção ao concreto, ao nosso corpo, ao que existe agora, deixamos a mente vaguear, para o passado ou o futuro. É mais fácil, e mais satisfatório, alimentarmo-nos do que a mente concede e inventa do que prestar atenção aos que os sentidos nos fornecem. Porque a razão é feita de lógica, acreditamos que há uma certa diferença entre a frieza matemática da lógica, da filosofia, da conceptualização e o puro delírio fantasioso. Mas a diferença é formal. A lógica é uma ferramenta excelente. Mas podemos usá-la para a mais delirante fantasia. Ou para uma muito bem construída fuga conceptual. Os sentidos não são a verdade, não são algo que se deva preferir à razão, apesar do título da crónica. Mas, quando a mente, que não é a realidade, ameaça transportar-nos para um lugar que não é o local físico onde nos encontramos, podem servir para nos despertar, basta o toque da pele, o vento na cara, para nos lembrarmos de novo da materialidade, do tempo, do espaço, de que estamos aqui, agora.

Quando vejo um corpo a dançar, vejo um corpo. E eu tenho um corpo como o que está a dançar à minha frente. O que aquele corpo faz, perto de mim, no mesmo tempo e espaço que eu, é algo de tão concreto e próximo de mim, do que sou, que me põe em causa e me desafia, sem recorrer a nenhum conceito, sem levantar questão nenhuma. Ficarei muito triste se alguma vez se desconsiderar os movimentos de um corpo humano como um simples talento técnico, um desperdício de tempo. Uma das coisas que a arte conceptual veio trazer, e que é uma contribuição preciosa, é que a arte não se esgota no virtuosismo. E com o Duchamp ficámos a saber que é o artista que diz o que é, que nomeia o objecto artístico. Ao aproximar-me do Duchamp, assustei-me com a ideia de que isso, afinal, não teria sido uma contribuição, mas algo de destruidor, que veio iniciar uma crise. O que, afinal, seria patético. É como se, depois dos "4'33" do John Cage, nunca mais ninguém se sentisse à vontade para quebrar o silêncio. Isso não faz sentido. Quebrar barreiras é isso, quebrar barreiras, não é o oposto, assinalar as fronteiras, para que fiquemos todos a olhar para a fronteira, cada um do seu lado, imóvel, como se fosse a fronteira a grande questão. 

A música é um exemplo de um meio em que encontramos artistas muito menos preconceituosos que o meio artístico em que se movem. Facilmente nos deparamos com uma colaboração entre um músico de "ruptura" e um músico completamente "convencional", entre um músico de "vanguarda" e um músico "pop", entre um enfant terrible, músico de culto, que colabora com um músico que vende milhões, considerado comercial. 

A arte, cada um terá algo a dizer sobre ela, mas eu não me atrevo a dizer que é indefinível. Nesta crónica estou a falar da forma como me relaciono com ela, não a propor definições. Nesse sentido, de uma forma muito pessoal, o que procuro, não é acima de tudo, que me faça pensar, que me coloque questões. E cansam-me um pouco, embora por outro lado, paradoxalmente, me suscitem um enorme interesse, estas últimas décadas em que a arte aparentemente parece ter-se tornado o seu principal tema, num delírio de auto-análise, auto-desconstrução, numa rota de auto-colisão, num caos de muito intensa iconoclastia interna. Não sei se é correcto dizer que me relaciono acima de tudo de forma emocional com a arte. Porque ler é muito diferente de escutar música, de ver um quadro numa galeria, de escutar música num concerto, de ver dança. A maneira mais simples de o dizer é que é através dos sentidos que recebo a arte. E que depois, humanamente, tudo o resto funciona, até a razão.

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