Terça-feira, 6 de Março de 2012

medo que se guarda em bolso roto

a distância atenua e distorce, estende e amassa. limpo o suor com a mão, usando-a depois para fazer sombra e procurar nitidez no horizonte. o sol faz ferver os contornos, tornando miragem o que parece estar ao alcance de alguns passos. somos um óasis volante, um acampamento no coração. carregamos a sede e alguns mantimentos. conhecemos os sinais que indicam abrigo, no cansaço da peregrinação. estamos sempre a caminhar, lado a lado, em ansiosa rota de colisão, em percursos que se cruzam unindo hemisférios. deitamo-nos para sonhar com o dia seguinte e acordamos ainda na imprecisão lânguida de quem desconhece a herança do momento presente. no precário fazemos explodir os frutos do olhar. nascemos do sexo a cada lua e uivamos ainda na respiração que se acalma num abraço doce e extenuado. partilhamos o timbre da solidão, para o lavarmos da pele quando entramos no mar despidos das canções da saudade. nadamos em redor dos abismos, na lentidão de peixes saciados. quando regressamos à tona do dia, as bocas estão salgadas e unidas. os pés pisam o continente sem sobressaltar os vulcões e o vento namora os cabelos. regressamos a uma desolação que adocicámos, feita de flores nascendo em cinza e lava endurecida de milénios. não existe a morte do tempo, nem a vida absoluta da carne. atravessamos os ciclos, plantando o que nos transborda. os dois dentro do espaço do mesmo lago, provocando as tempestades que o amor leva em eco até às margens, extendendo-se em ondas para fora de nós. há que sair para que a vida decorra, até que arrefeça o ninho acalentado por um silêncio em chamas e permita de novo ao peito a distância. não habitamos o sonho, do seu húmus fazemos solo e jardim. moramos no que não tem mapa, confiando na bússola da voz de cada um, para que o escuro receba o farol dos nossos corpos nus resplandecendo.

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