Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2012

prefiro os sentidos

Quem já me conhece um pouco melhor, está mais familiarizado com uma ideia bizarra que é central naquilo em que acredito. Estou convencido que usamos a razão, de forma inconsciente, é certo, mas também com uma teimosia muito consciente, para fugirmos à realidade. Mais facilmente me preocupo com a alienação proporcionada pele mente do que com as tentações do corpo. E mantenho uma cautelosa dúvida, vigilante e crítica, em relação aos méritos libertadores da razão.

Digo razão, escolho a palavra razão porque quero ser específico. Não tenho nada contra o sistema nervoso central, e sinto-me muito grato pela minha biologia humana. Simplesmente considero fácil o deslumbramento com as armadilhas da lógica. Esta crónica, ainda não parece, tem a ver com a arte. É esse o seu tema.

Lidei mais de perto com o Duchamp e a arte conceptual do que nunca, quando estava a trabalhar no Der Spleen.  E isso teve um efeito profundo. Percebi melhor a forma como olho para a arte. Os dois primeiros parágrafos, soam-me, relendo-os, a apologia, a tentativa de me justificar. Mas recuperam aquilo que penso, há muito tempo, em relação à mente e, obviamente, ao corpo. Não são novidade, e escrevi sobre isso extensivamente neste blogue. Se são desculpa, não são desculpa inventada à pressa.

Percebi, com esse debruçar sobre a arte conceptual, que continuo a interessar-me pelo que a arte pode dar-me aos sentidos. Já o sabia, sempre o soube. Mas, confrontado com algumas questões sobre a arte, tornou-se mais claro aquilo que faz sentido para mim numa obra. De maneira nenhuma rejeito arte porque é conceptual. Mas é como se a arte conceptual, para mim, fosse uma categoria à parte. Quando escuto música, ela vale pelo som. Seja uma melodia pop, seja o álbum do Zorn com o Derek Bailey e o George Lewis, seja o ruído apocalíptico do Merzbow, seja uma gravação de campo. Quando vejo dança, é o movimento. Que recebo porque também tenho um corpo. Não o vejo apenas, não é algo que se esgota visualmente. Tenho um corpo, igualmente humano, por isso, cada gesto com um braço, cada deslocação daquele corpo humano, tem uma referência no meu próprio corpo. É como se o meu corpo fosse desafiado, como se dançasse, ou se me fosse atirada à cara a minha imobilidade. A arte conceptual, recebo-a como uma outra categoria, que pode recorrer à música, à dança, à escultura, ou a qualquer outro meio, mas em que aquilo que é trabalhado é algo de racional. Ou melhor, o processo de trabalho é conceptual, e depois, a forma como me atinge sensorialmente até pode ser mais intenso e efectivo do que o trabalho não conceptual, mas eu sinto-me intimado a julgar e a entender o trabalho pelo processo de construção conceptual e não (só) pelo momento de diálogo sensorial com a obra.

Há, tem havido, obras conceptuais de que gosto. Algumas de que gosto muito. Mas, com o contacto que tive com o Duchamp, ganhei alguns anticorpos. Fiquei a pensar que a minha forma, mais primária talvez, de lidar e dialogar com a arte é anacrónica, ultrapassada. Isso não seria nada de grave. Mas o que me preocupou foi a perspectiva de que a própria dança, a pintura e outros "talentos" fossem entendidos como fúteis, como meras capacidades técnicas, a que num ou noutro caso se podia recorrer, se o trabalho conceptual em questão o justificasse, mas que uma vida de aprendizagem da técnica de dançar ou pintar seria um desperdício de tempo e esforço. Isso assustou-me. Cheguei mesmo a pensar, se é assim, então abdico da arte. Não gosto de arte. Prefiro a técnica. Prefiro quem saiba dançar. Quem saiba tocar um instrumento. Há-de sempre haver quem pense. Pensar é fácil. O que é difícil é termos quem dedicou 20 anos da sua vida a aprender esses tais talentos "fúteis".

Eu geralmente penso ao contrário daquilo que às vezes ouço. Acho que nos perdemos em auto-complacência masturbatória, fugindo da realidade material, com os delírios da razão. E não o contrário. Sim, gostamos de nos mimar sensorialmente. Mas, sempre, sempre que temos a oportunidade de estar presentes, de prestar atenção ao concreto, ao nosso corpo, ao que existe agora, deixamos a mente vaguear, para o passado ou o futuro. É mais fácil, e mais satisfatório, alimentarmo-nos do que a mente concede e inventa do que prestar atenção aos que os sentidos nos fornecem. Porque a razão é feita de lógica, acreditamos que há uma certa diferença entre a frieza matemática da lógica, da filosofia, da conceptualização e o puro delírio fantasioso. Mas a diferença é formal. A lógica é uma ferramenta excelente. Mas podemos usá-la para a mais delirante fantasia. Ou para uma muito bem construída fuga conceptual. Os sentidos não são a verdade, não são algo que se deva preferir à razão, apesar do título da crónica. Mas, quando a mente, que não é a realidade, ameaça transportar-nos para um lugar que não é o local físico onde nos encontramos, podem servir para nos despertar, basta o toque da pele, o vento na cara, para nos lembrarmos de novo da materialidade, do tempo, do espaço, de que estamos aqui, agora.

Quando vejo um corpo a dançar, vejo um corpo. E eu tenho um corpo como o que está a dançar à minha frente. O que aquele corpo faz, perto de mim, no mesmo tempo e espaço que eu, é algo de tão concreto e próximo de mim, do que sou, que me põe em causa e me desafia, sem recorrer a nenhum conceito, sem levantar questão nenhuma. Ficarei muito triste se alguma vez se desconsiderar os movimentos de um corpo humano como um simples talento técnico, um desperdício de tempo. Uma das coisas que a arte conceptual veio trazer, e que é uma contribuição preciosa, é que a arte não se esgota no virtuosismo. E com o Duchamp ficámos a saber que é o artista que diz o que é, que nomeia o objecto artístico. Ao aproximar-me do Duchamp, assustei-me com a ideia de que isso, afinal, não teria sido uma contribuição, mas algo de destruidor, que veio iniciar uma crise. O que, afinal, seria patético. É como se, depois dos "4'33" do John Cage, nunca mais ninguém se sentisse à vontade para quebrar o silêncio. Isso não faz sentido. Quebrar barreiras é isso, quebrar barreiras, não é o oposto, assinalar as fronteiras, para que fiquemos todos a olhar para a fronteira, cada um do seu lado, imóvel, como se fosse a fronteira a grande questão. 

A música é um exemplo de um meio em que encontramos artistas muito menos preconceituosos que o meio artístico em que se movem. Facilmente nos deparamos com uma colaboração entre um músico de "ruptura" e um músico completamente "convencional", entre um músico de "vanguarda" e um músico "pop", entre um enfant terrible, músico de culto, que colabora com um músico que vende milhões, considerado comercial. 

A arte, cada um terá algo a dizer sobre ela, mas eu não me atrevo a dizer que é indefinível. Nesta crónica estou a falar da forma como me relaciono com ela, não a propor definições. Nesse sentido, de uma forma muito pessoal, o que procuro, não é acima de tudo, que me faça pensar, que me coloque questões. E cansam-me um pouco, embora por outro lado, paradoxalmente, me suscitem um enorme interesse, estas últimas décadas em que a arte aparentemente parece ter-se tornado o seu principal tema, num delírio de auto-análise, auto-desconstrução, numa rota de auto-colisão, num caos de muito intensa iconoclastia interna. Não sei se é correcto dizer que me relaciono acima de tudo de forma emocional com a arte. Porque ler é muito diferente de escutar música, de ver um quadro numa galeria, de escutar música num concerto, de ver dança. A maneira mais simples de o dizer é que é através dos sentidos que recebo a arte. E que depois, humanamente, tudo o resto funciona, até a razão.

Quinta-feira, 16 de Fevereiro de 2012

prefiro o sexo

Em "Adventures in the Orgasmatron", de Christopher Turner, encontramos um parágrafo muito interessante. At the sexology seminar, not long after they began seeing each other, Reich delivered a thirteen-page paper on the orgasm: "Coitus and The Sexes." It was his first reference to the topic that would intellectually captivate him for the rest of his life, though he did not yet connect the libido or orgasms to politics. Reich sought to answer the question posed by a contemporary sexologist: why were the male and female climax so infrequently simultaneous? This wouldn't be the case if castration fears were eliminated and tender and sexual impulses were allowed to coincide, Reich boasted, hinting at a new sexual assurance with Annie Pink.

É Wilhem Reich que é referido nesta citação. Estava-se no período entre as duas Grandes Guerras. Reich era o mais novo, do círculo de Freud. A psicanálise começava a afirmar-se, com muitas resistências, em Viena. Nesta cidade, os sociais democratas, que a governavam quase como um enclave, tinham levado a cabo uma série de reformas sociais. Havia uma clínica de psicanálise que dava consultas gratuitas, a quem não tinha condições para pagar. O mesmo modelo foi usado em Berlim. Estas medidas, bem como o tratamento de soldados com traumas de guerra e a influência que alguns psicanalistas tinham, na vida social e política, iam conseguido ganhar alguma reputação à nova disciplina. Mas, ainda  assim, eram os primeiros passos.

Nesta altura, começavam a ser frequentes os seminários de sexologia. E junto de alguns círculos, mais ligados à anarquia, o sexo era visto como algo de eminentemente político. Como é dito no parágrafo, Reich, ainda não via o potencial político do orgasmo. Mas era influenciado por este interesse que a sexualidade humana gerava, quer juntos dos psicanalistas, que sempre a viram como essencial e agora a começavam a estudar também de forma mais específica, quer junto de grupos mais politizados. 

O que acho interessante neste parágrafo é que expõe o que me separa de quase um século de estudo da sexualidade no ocidente. Estou, obviamente, muito grato à sexologia e reconheço-lhe os méritos. Mas, e sei que a frase é estranha, parece-me que se reduz o sexo à sexualidade, ou melhor, parece-me que se reduz o sexo à sexologia, ou que se vê o sexo sempre através da sexologia. 

Os seres humanos, sabemos porque sabemos da evolução, não foram criados já com esta forma. Evoluíram ao longo de milhões de anos. Encontrar a causa do facto de ser raro homens e mulheres terem orgasmos simultâneos no medo da castração parece-me ridículo. É como se partíssemos do que somos agora, nesta forma, humana, e nos debruçássemos para olhar para o nosso corpo, a nossa biologia, que demorou muito tempo a desenvolver-se. E não conseguíssemos imaginar mais nada a não ser personalidade, trauma, psique, cultura humana. Há várias teorias, muito mais plausíveis, para explicar porque é que os orgasmos do homem e da mulher não coincidem. Há umas dezenas de milhares de anos, quando a competição por uma fêmea, por garantir que os genes do macho eram passados, era semelhante à de outros animais, uma ejaculação rápida era uma vantagem evolutiva. Demorar demasiado tempo, era arriscar que viesse outro macho e nos impedisse de fecundar a fêmea. Como a evolução é lenta, comparada com o tempo humano, ainda não mudámos, por muito que os nossos hábitos sexuais sejam completemante diferentes e autónomos em relação à origem biológica da nossa sexualidade. É uma teoria, entre outras. 

Eu não concebo uma tentativa de perceber a sexualidade humana que não parta da biologia humana. E, obviamente, seja holística, inclua a psicologia, a antropologia, todos os aspectos e as áreas científicas que ajudem a ter uma visão mais global, contextualizada. E, para que seja verdadeiramente contextualizada, nunca poderá ser retirada do contexto da natureza, da comparação com os outros animais, quer dos que são parentes próximos, quer dos parentes mais afastados. Uma das minhas próximas leituras será a do Why is Sex Fun, do Jared Diamond, que fala da sexo dos humanos precisamente sob um ponto de vista evolucionário. A sexologia emergiu, pelo pouco que pude entender, da psicanálise. E isso deu-lhe uma perspectiva, um ângulo, uma forma de olhar para o sexo. Que não partilho.

Prefiro o sexo. Acho muito mais interessante a forma como, noutras culturas, durante milénios, se estudou o sexo, o que se passa quando as pessoas o fazem, como fazê-lo melhor e, porque nessas culturas o sexo é geralmente considerado uma forma de, pelo corpo, transcender a matéria, como chegar a algo de precioso, que faz com que valha a pena aprender técnicas, passar a vida como aprendiz. No ocidente, a psicanálise e a sexologia pretendem livrar-nos dos traumas, para que possamos apreciar o sexo sem culpa nem medos. E, porque temos uma visão romântica do sexo, achamos que a culpa e o pecado são sexys e que o que seja técnica só estraga, só vem tornar o acto menos natural. Pois eu prefiro o sexo à sexologia.

Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2012

downloads - quem anda a ganhar dinheiro

Há bastante tempo que se anda a discutir, nisto da pirataria e dos downloads ilegais, sobre quem anda a perder dinheiro. Os artistas, infelizmente, andam muito calados. Era bom escutá-los a eles, sobretudo. Hoje a maior parte dos músicos, quando edita um álbum, tem muito poucas expectativas quanto às vendas. Optam, muitos, cada vez mais, por oferecer parte ou a totalidade das músicas. Ultimamente, em Portugal, tem havido lançamentos em que, na compra do bilhete para o concerto, se oferece o novo álbum. Estando calados os artistas, fala a Indústria por eles.

O problema de falar a Indústria é que são algumas empresas, as grandes, que falam. Falam como se representassem todas e como se representassem os artistas e como se representassem todos os artistas, em toda a parte. E, mais grave ainda, como se representassem a Música. O que dizem, há muito tempo, e não mentem, é que perdem dinheiro. Perdem dinheiro por causa dos downloads ilegais. Dizem-no de forma mais ou menos simplista, querendo dizer mais ou menos isso.

Eu gostaria de complicar, ou tornar a coisa mais complexa. Acho que perdem dinheiro porque aconteceu algo ainda mais grave. Uma ou talvez já duas gerações deixaram de achar que se deve pagar para obter música. Se começou por ser simples, faz-se downloads porque são fáceis de fazer e porque são gratuitos, os hábitos mudaram de tal forma, que a atitude perante o trabalho de um músico mudou, na minha opinião drasticamente. Não é só uma questão de haver ou não downloads. A música, a canção que se escuta, há muito que é um título, um ficheiro, volátil, que se tranfere de um lado para o outro, de um computador para o outro, para o telemóvel, para o leitor de mp3. Ultimamente, com o sucesso do streamming, milhões estão mesmo a deixar de fazer downloads, preferindo simplesmente aceder às canções online, a partir de um browser ou de uma aplicação, no computador, no telemóvel, no iPad ou noutro dispositivo ligado à internet. A canção é algo de acesso rápido e consumo imediato. É possível, com o telemóvel ou o iPod, passar num sítio onde está a tocar uma canção, usar uma aplicação para a reconhecer, após alguns segundos, e tê-la imediatamente disponível. Os downloads, acima de tudo, deram, muito antes das aplicações e da conectividade ubíqua, esse acesso (quase imediato) a milhões de pessoas.

Durante anos, fizeram downloads as mais diversas tribos e os mais diversos indivíduos, atraídos por essa mesma acessibilidade. Vários músicos, dos que agora têm tanta dificuldade em vender os seus discos, cresceram a alimentar a sua própria melomania através de uma digiteca imensa, de muitos gigas. Com a descida dos preços dos discos externos, tornou-se comum um ultilizador médio adquirir um disco de 1 terabyte, 2 terabytes, nos últimos tempos. E nos últimos anos, a publicidade à banda larga em Portugal, não teve qualquer problema em vender a rapidez que ofereciam como uma enorme vantagem para os seus clientes ávidos de downloads. Num anúncio, um adolescente fazia noitadas em frente ao computador, completamente seduzido pela banda larga que tinha instalado, dizendo aos amigos que não conseguia parar de fazer downloads. A palavra downloads, aliás, tornou-se muito comum, na descrição do serviço de banda larga, nos anúncios, em todas as referências ao serviço da internet. Sim, downloads, assim, no plural. 

Quase dez anos de melomania descontrolada, de discos cheios e agora os discos externos que se tornam baratos, a banda larga que se torna supersónica e é como se nós humanos é que fôssemos demasiado lentos para consumir tanta música. Com 10 cérebros e 50 ouvidos, talvez pudéssemos aproveitar melhor as capacidades dos nossos computadores com ligação à internet. O download de um álbum recentemente lançado não demora mais que uns minutos. Talvez não seja completamente disparatado dizer que muitas vezes, o tempo que se gasta a escutá-lo, antes de se apagar, ou esquecer no disco duro, é ainda menor. Perdeu-se a relação que havia com o objecto em que a música existia, fosse ele fita magnética, cassete, vinil, ou cd. Hoje, a música quase não chega a existir, parece estar sempre em trânsito, sempre em transferência, em streamming. É isto, acima de tudo, que mudou. Por isto, parece-me, é que é difícil vender discos. O que torna o problema muito difícil. Não é só acabar, tecnicamente, com os downloads, ou prender algumas pessoas para assustar as outras, que vai mudar a forma como as pessoas agora se relacionam com a música.

Escutamos, há anos, a Indústria a dizer-nos que perde dinheiro. O que é verdade. Os artistas, que são os quem mais interessa escutar, são a parte mais silenciosa. Até quem faz downloads, que deveria é estar caladinho, se põe a formar partidos e a transformar a coisa num acto político. Ora, se nestes dez anos, toda a gente fez downloads, desde o hacker mais sensato e old school até ao terrorista mais pranckster, até ao melómano de jazz que teve de pedir ao filho para o ensinar, até à mais banal dona de casa aborrecida e até à quase totalidade dos adolescentes da grande maioria dos países ocidentais, se no acto de descarregar ilegalmente a música esta gente toda se unia, isso acontece de novo, quando os tratam como criminosos, como terroristas cibernéticos ou vulgares ladrões de cds ou dvds. A forma de lidar com a perda de receitas tem sido, geralmente, a de tentar levar os governos a tomar medidas de força. de criminalização e de perseguição do utilizador de internet. Isto talvez explique, em parte, o silêncio dos artistas, da maior parte dos artistas. Tratar os maiores fãs como se fossem os maiores inimigos não é algo de que se possa esperar  os melhores frutos. Esta última investida era grave, porque ia no sentido de corromper a própria liberdade de expressão. Claro que isto tem tudo para juntar piratas armados em políticos com donas de casa e melómanos que gastaram fortunas em música e adolescentes que não querem nem acham que devem pagar para escutar música. Todos juntos, numa grande salganhada, contra a mesma investida, que rejeitam.

Para os piratas armados em políticos, impedir downloads ilegais é impedir a liberdade de expressão. Para a Indústria, dá muito jeito que se cole esta palermice a todos os que se opõem a estas leis que estão na mesa, nos EUA. Mas não é nada disto. As ameaças são tão reais, que já há uns anos está a ser desenvolvido o OneSwarm, uma espécie de programa de torrents ultra blindado, projecto financiado pela Universidade de Washington. Isto deve servir para nos fazer pensar. Quando há uma proposta que, por exemplo, implique a supressão de tráfego torrent, que vigie e espie o tráfego dos utilizadores online, ou que dê poderes abusivos, como é o caso das leis agora que ameaçam os EUA, a quem não os deve ter, é a própria democracia que está em jogo. E não é porque nos querem tirar os downloads. É porque nos restringem a privacidade e a capacidade de partilharmos a informação livremente. Eu tenho uma teoria sobre porque é que tem sido sobretudo por aqui que a Indústria tema actuado.

Algo que mudou, muito, nos últimos anos, foi a capacidade de a Indústria da música conseguir fazer o seu negócio como qualquer outro negócio. Ter um orçamento, investir numa banda, gastar dinheiro em promoção, prever uma janela de tempo para o retorno. Calcular o risco envolvido e, no conjunto de todas as suas operações, todas os artistas com quem tem contrato e com quem gastou dinheiro, saber que ganha dinheiro, que tem retorno. Continua a haver artistas que vendem muito. Muito menos, mas há. Mas é quase impossível fazer o que se fazia, nos anos 80, ver o novo álbum da Madonna como o novo modelo de uma marca de carros. Há risco envolvido, mas conhecendo a qualidade do produto e a esperada resposta dos consumidores, se tudo for bem feito, há uma forte possibilidade de se ter retorno. Durante algum tempo, algumas décadas, sabia-se que descobrindo algumas minas de ouro, assinando alguns nomes lucrativos, era uma questão de os gerir como outro negócio qualquer. Havia sempre fiascos, dinheiro perdido, mas, no global, o saldo era positivo. Isso acabou. O que os downloads trouxeram foi uma gigantesca indefinição. Não são as campanhas, nem o marketing nem os planos de negócios que decidem o que vai ou não vender. Claro, pouco vende. Mas também não são as grandes campanhas que decidem o que vai ter mais downloads. As pessoas não vão simplesmente correr a fazer download de tudo o que a Indústria está a tentar vender, para poupar dinheiro. O que tem ou não sucesso, está ou não na moda, é uma incógnita, como deve ser. Depende das pessoas. 

Por isso, só agora um ataque concertado aos sites que realmente estavam a fazer dinheiro, e muito, muito dinheiro com a pirataria. O que interessa, aparentemente, à Indústria, é voltar a ter mão no mercado. É apenas isso. Não é impedir ilegalidades, e repor justiça comercial. Não é exigir que as pessoas respeitem os direitos de autor, que reconheçam o valor da propriedade intelectual. Eles simplesmente querem conseguir ter não no mercado. Ditar modas, como faziam. Movimentar-se com alguma segurança, num mercado feito de valores tão efémeros, da imagem, de sucessos meteóricos e quedas abissais. O que lhes interessa é fazer dinheiro. E sabem que para que o seu negócio seja sustentável, segundo o modelo que lhes é confortável, é preciso que consigam ser eles a marcar o passo. Para isso não pode haver uma partilha global de petabytes de ficheiros, de forma descontrolada. Sem ninguém a lançar as novas coqueluches da semana, a dizer o que é cool, a desenhar de raiz novas tendências. 

Só agora os sites que estavam a fazer dinheiro com os downloads têm sido atacados. E com toda a justiça. Durante anos, e ao contrário dos sites que simplesmente têm ficheiros torrent, estes sites alojaram ficheiros com direitos de autor. Sites como o Mediafire, o Uploading, o Rapidshare e dezenas de outros, há anos que alojam directamente álbuns inteiros, ilegalmente, de que qualquer pessoa pode fazer download. Um torrent só funciona se houver pessoas a partilhar, é um protocolo em que cada utilizador disponibiliza gratuitamente os ficheiros que tem no seu computador e, quando não há ninguém a partilhar o ficheiro que pretendemos, não o conseguimos obter. Nesses sites, é completamente diferente. Basta uma pessoa fazer o upload uma vez, e depois o ficheiro fica para sempre disponível, para ser feito o download milhares de vezes. Esses sites fazem dinheiro de várias formas. Com publicidade. E com utilizadores registados. O sistema de registo, então, é descaradamente o registo para tomar parte de uma coisa ilegal. Depois de fazer um download, o utlizador é confrontado com uma mensagem do tipo, "Atingiu o limite, registe-se para fazer downloads sem limites". Durante muito tempo, esses sites fizeram dinheiro directamente com o trabalho dos outros. Mas quem foi atacado, em processos milionários, foi o Piratebay. Eu não simpatizo nada com os piratas armados em políticos, mas isto, não sejamos ingénuos, deve-nos mostrar quais têm sido, até agora, as prioridades da Indústria. 

Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012

prefiro o corpo

Não gosto nada da ideia do meu corpo como um vaso. Um vasilhame, que recebe a alma, provisoriamente. Não gosto do imaginário cinematográfico, em que o espírito sai do corpo, como uma versão descolorida e imaterial do corpo, ainda com as mesmas roupas. Acho que não é nada assim. Acredito na reencarnação. É uma crença, obviamente. Não digo que acredito na gravidade. Há uma teoria científica que me explica a gravidade e me apresenta provas. E, apesar de a ciência avançar e muito do que agora se sabe sobre a gravidade poder evoluir, não há nada que nos faça acreditar que algum dia venhamos a pensar, "que tolos, acreditávamos na gravidade". A gravidade não precisa da minha crença. Provavelmente, a reencarnação, se for verdade, também não. Mas não creio, embora outros creiam que sim, ser possível para já apresentar provas científicas que a comprovem.

Embora acredite na reencarnação, não a imagino dessa forma cinematográfica: um espírito que sai do corpo-vasilhame, para ir ocupar outro corpo-vasilhame. A crença na reencarnação é comum nas religiões orientais, em que são também comuns os ensinamentos sobre como a dualidade corpo/mente, em que vivemos e acreditamos, é fruto da nossa imaturidade, é uma ilusão, que com o crescimento espiritual se desvanece. Não consigo imaginar melhor imagem para essa dualidade que a visão de um corpo humano reduzido a um simples vasilhame orgânico para um espírito. O corpo é um simples anfitrião, um veículo e a alma/mente/espírito o hóspede. O que aqui digo, embora possa usar várias referências, apenas reflecte as minhas próprias crenças, que são o produto de uma amálgama e de um percurso próprios.

Eu, que sinto a necessidade de escrever sobre estas coisas porque, como toda a gente, tenho, acima de tudo, dúvidas, prefiro, para evitar a dualidade, escolher o corpo. Porque é aquilo que conheço, aquilo de que gosto, escolho o corpo. Porque para mim, até prova em contrário, a mente acontece no corpo, escolho o corpo. O pensamento acontece no corpo. Medita-se com o corpo. Qualquer exercício, por mais transcendental que seja, por mais elevado que seja o plano de consciência a que se queira chegar, usa o corpo. Escolho o corpo, porque é o templo e o sacerdote. Não há dualidade nenhuma assim. Porque sou ainda imaturo e só consigo ver ao perto, e mal, escolho esta linguagem simples: o corpo. O que consigo tocar, por enquanto, é aquilo com que poderei dialogar. A minha linguagem será esta, a do toque, do cheiro, do abraço, do calor. E sempre que a mente produzir demasiado ruído, viajar distraída para o passado, ou sofrer antecipando o futuro, basta juntar as mãos, passar a língua nos lábios, tocar a testa, sentir a pele, lembrar o corpo. Voltar ao corpo, sempre, lembrando a própria mente que também é corpo, para  que a lucidez tenha sempre alimento. Escolho o corpo, acima de todas as ilusões, acima de todos os prodígios e delírios que o pensamento queira vender. O corpo, sempre o corpo. Para que, um dia, sabendo falar esta linguagem copórea sem gaguejar, possa abrir finalmente os olhos da alma. Para já, não sei onde a transporto, se dentro do coração, se um pouco acima do esófago, se mesmo ao lado do cerebelo, se no citoplasma de cada célula. Mas não quero perder tempo a imaginar o seu lugar. Quero usar o meu tempo com este corpo que a luz há-de beber.